5 de Janeiro de 2014 - Festa da Epifania do Senhor

Epifania Interior

1. "Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No".

Assim procederam os Magos, que vieram do Oriente, guiados por uma estrela, como relata S. Mateus, para se prostrar diante de Jesus Menino, e assim se tornaram as primícias do mundo pagão.

A mensagem que habitualmente se retira deste texto admirável sublinha esta antecipação, na pessoa dos Magos, do conhecimento de Cristo pelos gentios, e não só pelos Judeus. O dia em que comemoramos esta generosa disposição de Deus para com os povos de toda a Terra, é chamado Epifania, isto é, luminosa manifestação de Cristo, destinada a estender-se a toda a humanidade.


Quando, muitos anos depois, este conhecimento já se tinha efectivamente alargado a um grande número de homens e mulheres provenientes do mundo pagão, S. Paulo pôde exclamar com grande alegria, na passagem da carta aos Efésios que hoje lemos: "Os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho".

Esta é uma dimensão decisiva da Nova Aliança: Jesus Cristo é para todos os homens!

Com o conhecimento deJesus Cristo, está também inseparavelmente ligado o conhecimento da sua Igreja e a abertura das portas da Igreja a todos os povos da Terra.

O Beato John-Henry Newman, num belo sermão que pregou na festa da Epifania, sublinhou muito bem este aspecto: "Hoje comemoramos a abertura das portas da fé aos gentios, a extensão da Igreja de Deus a todas as regiões, ao passo que, até à vinda de Cristo, os seus limites tinham sido os de uma única nação".

2. Do mesmo modo, a profecia contida no capítulo 60 do livro de Isaías, que se lê neste dia, anuncia antes de mais a catolicidade da Igreja, "constituída de maneira a poder estender-se pelos seus diversos ramos em todas as regiões do mundo", diz ainda o Beato John-Henry Newman, no mesmo sermão.

A expressão usada por Newman, neste seu sermão de 1834, aos falar dos "diversos ramos" da Igreja, denota a perspectiva anglicana que então professa, estando ainda relativamente distante da sua conversão ao Catolicismo, que acontecerá somente em 1845.

Mas o futuro Cardeal Newman, (que foi beatificado no dia 19 de Setembro de 2010 pelo Papa Bento XVI, em Birmingham), não deixa de referir que as profecias de Isaías se dirigem "à Igreja, na sua qualidade de católica, o que é o título distintivo da Igreja de Cristo, em oposição à Igreja judaica".

Após a Ascensão do Senhor e do Pentecostes, a Igreja de Cristo, prossegue o Beato Newman "construída sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, lançou maravilhosamente os seus ramos fora de Jerusalém, que era o seu centro, até ao mundo pagão que a rodeava, e, reunindo no seu seio os homens de todas as condições, de todas as línguas, de todos os tipos, os modelou com base num modelo único, o modelo do seu Salvador, na verdade e na justiça". E conclui: "Assim, as profecias relativas à Igreja foram então cumpridas sob dois aspectos: o da sua santidade e o da sua catolicidade".

Mas depois acrescenta uma pergunta: "Estas profecias atingiram então e posteriormente a plenitude da sua realização? Ou devemos esperar uma cristianização do mundo mais completa do que aquela que lhe foi concedida até agora?"

A resposta não parece difícil: devemos esperar uma cristianização do mundo mais completa do que aquela que aconteceu até agora!

3. Mas como poderá ela acontecer? Só de uma maneira: ajudando a que aconteça hoje, no espírito de todos os homens o deslumbramento da Epifania, isto é, da manifestação de Cristo, mas tendo em conta que a verdadeira e mais decisiva epifania é a epifania interior. Precisamos de reconhecer - e de ajudar a reconhecer - Cristo onde Ele está, nessa sua presença oculta mas real no Baptismo, na Eucaristia, na oração pessoal e litúrgica, nas nossas mentes iluminadas pela fé, nos nossos corações convertidos pelo amor.

Hoje, a descristianização acontece, porque não ensinamos a amar Jesus.

"Portanto - e assim termina Newman o seu sermão - é no interior que deveremos procurar a Epifania de Cristo. Voltaremos os nossos olhares para o seu santo altar, e dele nos aproximaremos por causa do fogo de amor e de pureza que nele brilha. Encontraremos a nossa felicidade na iluminação que dá o Baptismo. Repousaremos plenamente nos seus ritos e na sua palavra. Bendiremos e louvaremos o seu Nome, quando nos conceder o desenvolvimento da sua glória no feliz encontro com um ou outro dos seus santos, e pedir-Lhe-emos sempre que a manifeste nas nossas próprias almas".

Que no Novo Ano, ainda no seu início, nos seja concedida esta manifestação interior da glória de Cristo, de modo a que seja a sua luz a atrair­nos continuamente, a inspirar-nos em todas as nossas decisões e a conduzir-nos em todas as nossas acções, para que a nossa própria vida possa ser, apesar de todas as nossas humanas imperfeições, uma epifania de Cristo para os que nos rodeiam.

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