9 de Fevereiro de 2014 - V Domingo do Tempo Comum

Deus não existe

1. Quando seis jovens universitários morrem, arrastados pelo mar na praia do Meco, não é possível afirmar se foram ou não vítimas de uma praxe, mas o que podemos dizer com toda a certeza é que, pelo menos, foram vitimas de uma grande imprudência.

Talvez sem terem consciência do que faziam, sujeitaram-se a um grave perigo, que podia põr em risco a sua vida, e na verdade o perigo era enorme, porque a força do mar, em dias de tempestade, é imprevisível, e o resultado foi que, infelizmente esses seis jovens perderam a vida.

Há muitos perigos que nos podem fazer perder a vida, e não apenas a vida física, mas também a vida da alma, que consiste em estarmos habitados pela graça de Deus. E também podemos perder o próprio sentido da vida, que consiste em viver uma vida com sentido, e com ele a alegria de viver.


A vida física, quando se perde, é irrecuperável. Mesmo quem acredita na vida etema, tem o dever de defender a vida física, que nos é dada para cumprir a nossa missão no mundo. Por isso não pomos em risco a nossa vida sem verdadeira necessidade. E, se estamos doentes, tudo fazemos para recuperar a saúde e voltar a ter uma boa forma física.

A vida da alma é diferente: quando se perde, se ainda estamos neste mundo, a vida da alma pode ser recuperada por um extraordinário dom de Deus, que é o seu perdão.

Também o sentido da vida pode ser redescoberto. A alegria de viver pode ser-nos devolvida. Mesmo quem está 'na fossa', mesmo quem está mergulhado no pessimismo ou na tristeza pode voltar a ver a luz, pode voltar a ter esperança.

Mas não devemos facilitar. Nunca se deve pôr em risco a vida da alma. Podemos não conseguir recuperá­la, enquanto vivemos. Podemos ser surpreendidos pela morte sem tempo de pedir perdão. E que seria de nós, se morrêssemos com a nossa alma privada, por culpa nossa, da graça de Deus?

2. O primeiro perigo que pode ameaçar os seres humanos, e para mim o mais grave de todos, é a negação de Deus. Não é o simples 'não saber' se Deus existe. É dizer mesmo: 'Deus não existe'.

O filósofo britânico Antony Flew escreveu um livro com este título. Ou melhor, com estas palavras, mas com a palavra do meio riscada: Deus não existe. Portanto, deve-se ler: Deus existe. Este livro foi publicado, em tradução portuguesa, com o não riscado, na editora Aletheia, em 2010. Merece a pena ser lido.

Antony Flew faleceu nesse mesmo ano. Durante mais de meio século, foi um dos ateus mais activos do mundo. Além de muitos livros que publicou, participou em numerosos debates com pensadores cristãos, opondo-se aos seus argumentos.

Mas, no último debate público em que participou, em 2004, na Universidade de Nova York, com o cientista norte-americano Gerald Schroeder, actualmente a residir em Jerusalém, e filósofo escocês John Haldane, anunciou para grande surpresa de todos, que aceitava a existência de Deus.

Embora se considerasse deísta, sem ter abraçado nenhuma religião em particular, disse que se sentia especialmente impressionado pelo testemunho do cristianismo.

Por que é que Flew mudou o seu parecer? A principal razão, disse, nasce das recentes investigações científicas sobre a origem da vida, que, como explicou, mostram a existência de uma "inteligência criadora" .

Como referiu nesse debate de 2004, a sua mudança de posição foi devida 'quase inteiramente às investigações sobre o ADN" (O ADN - Ácido Desoxirribonucleico - é uma molécula biológica universal presente em todas as células vivas): "O que creio que o ADN demonstrou, devido à incrível complexidade dos mecanismos que são necessários para gerar vida, é que tem de ter estedo envolvida uma inteligência superior no funcionamento unitário dos elementos extraordinariamente diferentes entre si. (...) Essa grande complexidade dos mecanismos que se dão na origem da vida é que me levou a pensar na participação de uma Inteligência".

3. E falando sobre o seu itinerário intelectual, sublinhou: "Agora creio Que o Universo foi fundado por uma Inteligência infinita, e que as leis do universo manifestam aquilo a que os cientistas chamaram a Mente de Deus. Creio que a vida e o seu desenvolvimento tiveram a sua origem numa fonte divina".

"A minha saída do ateísmo não foi provocada por nenhum fenómeno novo nem por nenhum argumento particular. (...) Isto foi consequência da minha permanente valorização das provas da natureza. Quando finalmente reconheci a existência de Deus não foi por uma mudança de paradigma, porque o meu paradigma permanece".

Flew acentuou que se considerava sobretudo um filósofo que aplicava o raciocínio filosófico às descobertas científicas. Como Einstein, lamentava que muitos cientistas (como Dawkins) sejam maus filósofos. Ao mesmo tempo, sublinhava que os seus pontos de vista se apoiam na razão, e não na fé. No entanto, mostrava-se mais aberto aos argumentos em favor de Deus, por parte das grandes religiões.

4. Há muitas pessoas a quem parece dar jeito julgar que Deus não existe, porque podem cometer todo o tipo de barbaridades e prepotências, sem ninguém lhes pedir contas.

Mas, sem Deus, também não teríamos ninguém que desse um fundamento a este vida tão extraordinária, mas ao mesmo tempo tão breve tão cheia de riscos.

Antony Flew descobriu ainda a tempo esse fundamento. «Flew», em inglês, é o imperfeito do verbo "fly» , voar, e portanto significa: voou. Antony Flew voou do ninho dos ateus e assim se preparou para pousar no ninho daqueles que Deus leva sob as suas próprias asas, como diz um Salmo: "Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio" (Salmo 90,4).

No Evangelho de S. Mateus, lemos que Jesus disse aos seus discípulos: "Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus" (Mateus 5, 16). Que bom é sabermos que Deus é o nosso Pai que está nos Céus!

Quando todos os homens acreditarem e souberem que são filhos de Deus em Cristo, já não serão mais arrastados pelos seus egoísmos, pelos seus instintos de domínio e violência, mas cada um verá nos outros a imagem de Deus, e descobrirá sempre novas formas de os ajudar e até de os amar e servir.

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