23 de Março de 2014 - III Domingo da Quaresma

Beber na fonte da vida

1. 0 Livro do Êxodo (17,3-7) fala-nos da sede do povo de Deus no deserto, e o Evangelho de S. João fala-nos da sede de Jesus. A sede do povo, que chegou a revoltar-se e a pôr em dúvida a presença de Deus, foi saciada com a água que jorrou do rochedo. Moisés bateu com a vara no rochedo, e dele saiu água; então o povo pôde beber.

E a sede de Jesus? Foi saciada? Que nós saibamos, Jesus, naquele momento, não chegou a beber água, porque havia à sua volta uma outra sede mais urgente que era preciso saciar. Jesus vinha da Judeia, a caminho da Galileia. Cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço de Jacob, na Samaria, e inicialmente, chegou a pedir a uma samaritana que entretanto tinha vindo buscar água: "Dá-me de beber" (João 4,7).

Mas, logo depois, como fez constantemente, esqueceu-se de Si, para pensar em todos os seres humanos, que aquela mulher representava Jesus, que, como homem, tinha sede, revelou-se então como a fonte que sacia uma outra sede ainda mais profunda do que a sede de água, e que existe no coração de todos os homens.


Gustave Doré,  Jesus e a samaritana

2. S. Jerónimo, no seu comentário ao profeta Oseias, explica qual é a diferença que existe entre um poço e uma cisterna. "O poço tem permanentemente águas que manam de uma fonte viva; enquanto a cisterna possui as águas que lhe chegam de fora", normalmente da chuva, e ficam paradas, quase estagnadas. "É por isso - conclui S. Jerónimo - que Deus fala assim pela boca do Profeta Jeremias: «Abandonaram-Me a Mim, que sou fonte de água viva, e escavaram para eles umas cisternas, incapazes de guardar a água» (Jeremias, 2, 13).

Quantas vezes os homens abandonam a fonte da vida, que é Deus, e O trocam por outras coisas, que não valem nada, nem saciam a sede devida ede amor que há no coração de todos! Jesus, sentado à beira do poço, no fundo do qual correm águas que vêm de uma fonte escondida no interior da terra, revela que Ele mesmo é essa fonte, onde todos precisamos de ir beber, para nos saciarmos plenamente. Por isso, Jesus diz à samaritana: "Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquelequetediz: 'Dá-Mede beber', tu é que Lhe pedirias, e Ele te daria água viva».

Há um texto do Apocalipse que fala de Jesus como o Cordeiro que guia os homens às fontes da vida (Apocalipse 7,17). Que fontes são essas? Como observou uma vez Bento XVI, "a Sagrada Escritura, na qual Deus nos fala e nos diz como viver de modo justo, faz parte dessas fontes". Mas, acrescentou então o Papa, "algo mais pertence a essas fontes: na realidade, a autêntica fonte é o próprio Jesus, no qual Deus se doa a nós".

E onde o faz? Respondeu ainda Bento XVI: faz isto sobretudo na Eucaristia, "na santa Comunhão, na qual podemos, por assim dizer, beber directamente na fonte da vida" (Homilia na solene celebração de Vésperas na Catedral de Munique,10.09.06).

3. O tempo da Quaresma é para muitos irmãos nossos catecúmenos - agora já «eleitos» - a última etapa antes de serem lavados e purificados nas águas do Baptismo, e depois confirmados com o Crisma e alimentados com o Corpo e o Sangue de Cristo na Eucaristia.

E também nós nos preparamos para a grande Eucaristia da Noite Santa da Vigília Pascal ou do Domingo de Páscoa, onde receberemos de coração purificado e com amor renovado o próprio Cristo ressuscitado, fonte inesgotável de vida e de amor.

É bom lembrar que a Igreja prescreve a todos os cristãos "comungar ao menos pela Páscoa da Ressurreição". E igualmente pede que ninguém deixe de "confessar os pecados, recebendo o sacramento da Reconciliação ao menos uma vez cada ano" (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 432).

Mas seria bom não ficar nos mínimos, já que a fonte que é Jesus, jorra com abundância. Esteve oculta, mas agora está ao alcance de todos, e nunca secará.

Mas será que Jesus ainda hoje continua a ter sede? Sede de água, já não. Junto do Pai, já não tem sede de água. Mas há uma outra sede que nos atrevemos a dizer que Jesus continua a ter.

4. Um santo bispo do séc. IV, S. Gregório de Nazianzo, um dos grandes Doutores da Igreja, tem a este respeito um pensamento muito bonito. Ao falar da oração, afirma que "é necessário recordar-se de Deus com mais frequência do que se respira", porque a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa sede. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d'Ele (cf. Bento XVI, Audiência Geral. 22.08.07).

E Santo Agostinho, num texto que hoje se lê no Ofício de Leitura da Liturgia das Horas, diz que a samaritana "ficou admirada por um judeu lhe pedir de beber, coisa que não costumavam fazer os judeus. Mas Aquele Que pedia de beber à mulher, tinha sede da sua fé".

E também da nossa fé Jesus tem sede, deseja a nossa fé, deseja o nosso amor, em resposta ao seu. Esta é a tarefa de toda a nossa vida: encontrar-nos com Jesus, encontrar-nos com Deus, que tem sede da nossa sede.

Continuando a nossa caminhada quaresmal. peçamos ao Espírito Santo que aumente em nós a sede da água viva que é a graça de Cristo, para sermos nós mesmos água que jorra, fonte para os outros, ou pelo menos canal. ou pelo menos sinal, para que encontrem a fonte, que é Jesus Cristo, e n'Ele saciem a sua sede de verdade, de amor e de alegria.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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