30 de Março de 2014 - IV Domingo da Quaresma

Olhos que vêem o invisível

1. Há muitas pessoas que são cegas espiritualmente. Não é que não vejam, mas só vêem o imediato. E o imediato não é tudo.

Muitas pessoas usam óculos para ver melhor, e a ciência usa microscópios para ver o ínfimo, ou telescópios para ver muito longe no espaço e no tempo. Mas, além de tudo isto, existe um outro olhar, ou uma outra luz, que é o olhar da fé, a luz da fé.

A fé vê Deus invisível. Vê a alma espiritual. Vê a presença de Deus em nós. Vê Jesus nos outros. Vê a vida eterna, para onde Deus nos chama. Vê o valor divino do humano. Vê o sentido do sofrimento e do sacrifício feito por amor.


Tudo isto nós o vemos, não com cor nem formas, mas com uma clareza interior que Deus acendeu e fez brilhar em nós, dentro de nós.

Nos últimos anos, no mundo, a cegueira espiritual aumentou. Vê-se um embrião, e diz-se que é um aglomerado de células. Vê-se um idoso ou um doente em grande sofrimento, e trata-se como um objecto descartável. Olha-se para a vida, e pensa-se que só serve para gozar e ter umas quantas coisas, durante um certo tempo, aliás sempre demasiado breve.

Deve haver grandes interesses a quem esta cegueira convém. Podem manipular melhor os seres humanos, e dar-lhes uma ilusão de felicidade. E nem sequer de felicidade: uma ilusão de gozo e de prazer, e até de aparente glória, à qual, evidentemente, só muito poucos chegam.

2. Toda a gente protege os seus olhos: são um órgão extraordinariamente complexo e precioso. Mas ainda mais necessário é tratar ciosamente os nossos olhos espirituais, que Jesus ungiu, tal como fez ao cego de nascença.

Quando fomos baptizados, fomos limpos e ungidos, e recebemos as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade. Por sermos baptizados, também cada um de nós poderia dizer, como aquele homem que tinha nascido cego: "Fui lavar-me, e agora vejo" (João 8,11).

E esta afirmação: "e agora vejo", significa, ainda mais profundamente, o que ele mesmo disse, no final do episódio, na presença de Jesus, e prostrando-se diante d'Ele: "Eu creio, Senhor" (João 8,38).

O Beato Bartolomeu dos Mártires, que nasceu em Lisboa e foi Arcebispo de Braga, tendo sido um zeloso pastor de almas, grande pregador e teólogo profundo, escreveu no seu Catecismo, publicado pela primeira vez em 1564: "Toda a alma em que este lume não resplandece, vive em cegueira e trevas, nem sabe para onde caminha (...). Pelo que muito é de chorar a ingratidão de nós-outros, cristãos, que somos chamados a este lume, quão mal agradecemos nossa sorte e chamamento".

O lume de que o Beato Bartolomeu dos Mártires fala (do latim lumen, luz), é, evidentemente, a luz da fé. Em latim, usa-se a expressão Lumen Christi, que se canta na Vigília Pascal - A luz de Cristo! - e também a expressão Lumen fidei, a luz da fé. É mesmo este o nome da primeira encíclica do Papa Francisco, assinada em 29 de Junho de 2013, na Solenidade dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, e publicada a 5 de Julho de 2013, cerca de quatro meses depois do início do seu pontificado, fazendo seu o texto, quase concluído, que Bento XVI tinha escrito.

Começa assim a Lumen fidei: "A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus".

3. Como podemos então agradecer este lume que nos foi dado? Como agradecer esta luz?

Prostrando-nos, como o cego de nascença já curado, diante de Jesus, que vemos na Santíssima Eucaristia, embora aqui só O vejamos nas aparências ou espécies sacramentais.

E prostrando-nos, tal como ele, também fisicamente, isto é, ajoelhando-nos no momento da consagração e da própria comunhão, como sinal de fé, amor e adoração.

Ajoelhando-nos quando entramos na Igreja, adorando Jesus presente no sacrário. Ajoelhando quando a Missa acaba, prolongando ainda por uns momentos a nossa acção de graças.

E depois, dando o testemunho da nossa fé, sem medo, sem vergonha. E ainda 'descobrindo' e servindo Jesus Cristo presente nos outros: num casal em dificuldade, numa família com problemas económicos, num amigo desanimado, num doente, num idoso, numa criança em risco, num jovem sem rumo.

Os nossos olhos ungidos com o colírio da fé verão o invisível, que é Deus, até que chegue o dia em que, na sua essência e glória, O pudermos ver face a face.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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