11 de Maio de 2014 - Domingo IV da Páscoa

Ressuscitou o Bom Pastor

1. Um dia, como nos conta S. João no Evangelho de hoje, Jesus disse de Si mesmo: "Eu sou a porta". Que significam estas palavras? Para as entender, queria voltar convosco alguns anos atrás, à noite de Natal de 1999: sozinho, à frente de todos, caminhando já com grande dificuldade, mas com uma grande esperança no coração, o Papa João Paulo II, depois de ter rezado em silêncio, de joelhos, atravessou a Porta Santa da Basílica de S. Pedro e inaugurou o Grande Jubileu do Ano 2000. Neste momento, S. João Paulo II deve ter pensado nestas palavras de Jesus que hoje ouvimos: "Eu sou a porta". E deve ter sentido, como nós sentimos, que é preciso passar por Jesus para entrarmos na vida, para sermos salvos.

Quando Jesus diz: "Eu sou a porta", ensina-nos que só Ele é o Salvador, enviado pelo Pai. Na vida humana há muitos caminhos, mas há um único acesso para a vida de comunhão com Deus, e não é secreto, só acessível a alguns, não está oculto, nem está fechado, mas aberto de par em par: este acesso é Jesus, caminho único e absoluto de salvação. Ao longo dos tempos houve muitos profetas, e houve muitos fundadores de religiões que ainda hoje têm inúmeros seguidores, mas só a Jesus Cristo se pOdem aplicar estas palavras de um Salmo do Antigo Testamento: "Esta é a porta do Senhor: os justos entrarão por ela" (Salmo 117 [118], 20).


2. É este o ensinamento do próprio Jesus Cristo no Evangelho de S. João: "Quem entrar por Mim, será salvo". É preciso passar por Jesus, para termos a vida. E Jesus di­lo ainda mais claramente um pouco depois: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundãncia". Jesus é a fonte de uma vida abundante, de uma vida plena. Jesus quer dar-nos esta vida, mas será que a desejamos, será que a aceitamos?

Na 1ª leitura, uma grande multidão de pessoas, ao tomarem conhecimento de que Jesus tinha sido glorificado pelo Pai como Senhor e Messias, isto é, tinha ressuscitado, e depois deterem sentido a profunda dor de terem colaborado na morte de Jesus, e de terem talvez dito, aos gritos, a Pilatos: "«Crucifica-O, crucifica-O.»", perguntaram a S. Pedro e aos outros apóstolos: "Que havemos de fazer, irmãos?" E S. Pedra respondeu serenamente: "Convertei-vos, e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo".

É necessário que também nós hoje perguntemos: «Que havemos de fazer? É necessário que cada um de nós pergunte, diante de Jesus ressuscitado: «Que hei-de fazer? Para terem mim a Tua vida, e não a perder, Senhor, que hei-de fazer? Para amar melhor os outros, que hei-de fazer? Para ajudar muitas outras pessoas a caminhar por este caminho que és Tu próprio, que hei-de fazer, que havemos de fazer? Ajuda-nos, Senhor, ilumina-nos, faz-nos ver sempre mais claramente o que esperas de mim, o que esperas de nós.

Para muitos, Jesus ressuscitado pode reservar surpresas, pedidos inesperados, ou chamamentos que talvez já lá estivessem no fundo do coração, mas que só um dia, quando Deus o quer, se tornam nítidos, claros, evidentes. Isso aconteceu com o jovem Karol Wojtyla, futuro Papa, S. João paulo II. Sempre tinha sido um jovem profundamente crente, e muitos dos seus amigos já tinham pensado que seria normal que entrasse no Seminário para vir a ser sacerdote, mas a decisão só aconteceu mais tarde, como ele próprio relata no livro autobiográfico Dom e mistério: com 22 anos, em plena guerra mundial, com o seu país, a Polónia, ocupado pelos nazis, com muitos jovens católicos presos e mortos, consciente das grandes dificuldades que a Igreja então enfrentava, tomou definitivamente a decisão de entrar no Seminário de Cracóvia, que funcionava clandestinamente (p. 21).

No início deste livro, adivinha-se o pedido feito ao Papa por um jornalista: «Santo Padre, conte-nos a história da sua vocação...» E João Paulo II respondeu: "A história da minha vocação sacerdotal?! É sobretudo Deus que a conhece. Na sua dimensão mais profunda, cada vocação sacerdotal é um grande mistério. é um dom que ultrapassa infinitamente o homem. Experimenta-o claramente cada um de nós, sacerdotes, durante toda a vida. Perante a grandeza deste dom, sentimo-nos bem indignos dele" (p. 9).

3. Toda a Igreja é chamada a pedir hoje, Domingo do Bom Pastor, que este dom seja dado, e seja correspondido! Que aqueles que Deus chama, amadureçam, como o jovem Karol Wojtyla, a consciência deste dom e, no momento certo, respondam sim a Deus, um sim definitivo, para toda a vida!

Entrar pela porta, que é Jesus, e permanecer atento às surpresas e aos pedidos de Deus não é exclusivo de alguns, é para todos os cristãos, sacerdotes, religiosos e leigos. Cada dia renovamos o desejo de não ficar de fora, mas de entrar e permanecer no amor de Jesus.

Gostaríamos também que muitas outras pessoas sentissem este desejo, e isso, numa certa medida, depende de nós. Por que é que muitas pessoas não querem entrar pela porta que e Jesus? Talvez porque não sabem o que vão encontrar.

Quando se entra pela primeira vez na Basílica de S. Pedro, tem-se uma surpresa e um assombro enorme... Também quem aceita a graça de entrar com todo o seu ser no mistério de Cristo, sente um profundo fascínio e uma imensa alegria.

A alguns apetece-nos perguntar: Por que é que esperam? Venham, entrem, avancem! Que o próprio Jesus a todos atraia e chame, e nos torne disponíveis para mostrar o caminho, já que por Ele queremos com toda a nossa alma continuar a caminhar, ao ritmo do Espírito Santo.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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