1 de Junho de 2014 - Ascensão do Senhor

Voltar a casa

1. Quando alguém está a passar por um momento difícil, diz-se que está «em baixo». Curiosamente, não existe a expressão contrária. Mas, quando se quer dizer que uma pessoa teve êxitos importantes, por exemplo no aspecto profissional ou financeiro, diz-se que «subiu na vida».

Em relação a Jesus, também se usa esta imagem, embora com um alcance completamente diferente. O texto dos Actos dos Apóstolos diz que Jesus, depois de ter anunciado a vinda do Espírito Santo, "elevou-Se à vista deles, e uma nuvem escondeu-O a seus olhos" (Actos 1, 9). E mais adiante, os "dois homens vestidos de branco" que falam com os Apóstolos, dizem que Jesus "foi elevado" para o Céu (1.,11).

É a partir deste texto, e também da conclusão do Evangelho de S. Lucas (24, 51), que se fala de Ascensão de Jesus, a sua subida para o mundo de Deus, a que chamamos «Céu».


ícone Oriental, A Ascensão do Senhor

Falar da Ascensão de Jesus faz-nos sentir ao mesmo tempo tristeza e alegria. Tristeza, porque já não vemos Jesus, fisicamente, com a sua aparência humana real, como O viram os Apóstolos. Só vemos Jesus fisicamente na aparência sacramental da Eucaristia, e sentimos saudade e desejo de O ver, na sua humanidade agora glorificada pela ressurreição Mas sentimos também alegria, de resto ainda maior, porque, com os olhos da fé, O vemos «muito alto», isto é, inteiramente em Deus. E ver Jesus «elevado», isto é, plenamente glorificado, enche de alegria e de honra aqueles que O amam, e que, apesar de não O verem, esperam com confiança a sua vinda, como foi igualmente anunciado aos Apóstolos: "Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu" (Actos 1,11).

2. S. Mateus, ao contrário de S. Lucas, não usa a palavra "Ascensão", só fala da «ressurreição» de Jesus. Mas isso não significa que haja uma contradição entre os dois evangelistas, porque S. Mateus, ao falar da ressurreição,já inclui o que S. Lucas, tanto no seu Evangelho, como nos Actos dos Apóstolos, quer ensinar, quando fala da Ascensão de Jesus, que aconteceu em Jerusalém. S. Mateus não descreve esse momento, mas conclui o seu Evangelho relatando uma aparição de Jesus ressuscitado, que teve lugar num alto monte da Galileia. Parece ser o mesmo monte da Transfiguração (Mateus 17, 1-8), o monte da revelação da glória de Jesus. O monte anuncia a elevação. Sem usar a palavra, S. Mateus anuncia assim a mesma realidade que S. Lucas relata no seu Evangelho e nos Actos dos Apóstolos.

Nesse monte da Galileia se reúnem os Onze - e são apenas onze porque Judas faltou, e ainda não foi substituído. Mas nota-se aqui uma sombra de tristeza, que S. Mateus não se preocupa em esconder. Vamos fixar-nos por um instante neste pormenor.

Há dias, reencontrei um site na Internet, cujo nome, em inglês - www.CatholicsComeHome.org - significa: «Católicos, Regressem a Casa». Aqui está um exemplo interessante, que podermos seguir, em relação a muitas pessoas de família ou amigas. Mesmo só pelo diálogo, poderemos conseguir que muitos regressem a casa, isto é, ocupem de novo o seu lugar na Igreja, na fam~ia dos cristãos. E quem gostaria de integrar um grupo para fazer as perguntas e encontrar as respostas que o podem ajudar a 'voltar a casa'?

Continuando o seu relato do que sucedeu no alto monte, onde os Onze viram Jesus ressuscitado, S. Mateus também não esconde que, "quando O viram, adoraram-No, mas alguns ainda duvidaram". S. Mateus podia ter escondido este pormenor, mas também não o fez, revelando-se assim inesperadamente próximo dos tempos de hoje. em que a dúvida poderá ser para alguns uma tentação constante.

Quando aparece a dúvida, que se pode fazer? O que os Onze fizeram. Procuraram ver melhor Jesus. Procuraram ouvir melhor Jesus. No início, podem ter pensado que os seus sentidos os estavam a enganar.

Mas rapidamente perceberam que não era mesmo Jesus, era o seu rosto sereno e amigo cheio de bondade e ao mesmo tempo cheio de majestade, era a sua voz inconfundível.

3. S Mateus revela então todo o alcance da ressurreição de Jesus, que a mensagem da Ascensão sublinha especialmente. Jesus não está limitado, já não depende de ninguém: "Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra" (28 18) Jesus fala como Homem-Deus. a quem o Pai deu todo o poder. merecido com a sua morte na cruz Como Senhor do Universo, Jesus confere aos apóstolos a missão, o dever e o direito de ensinar todas as gentes, e de os admitir na Igreja. mediante o baptismo, que insere os homens no mistério da Santíssima Trindade.

Mas isto não acontece de repente. É um caminho. É o resultado de um anúncio. Não pode ser imposto. O Evangelho tem de ser anunciado Por isso Jesus diz' "Ide e ensinai todas as nações. baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei (Mateus 28.19)"

É um dinamismo que não tem fim em que nós próprios estamos envolvidos, para que cada vez melhor conheçamos a verdade da fé em que fomos baptizados e cada vez mais profundamente a vivamos e anunciemos aos outros.

Por fim, Jesus promete que estará com os seus todos os dias, todas as horas, em todas as circunstâncias, " Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos" (Mateus 28. 20)

Ele é verdadeiramente o Emanuel, «Deus connosco». Nunca nos deixa sós. Em todas as circunstâncias da nossa vida podemos contar com a sua presença, com a sua palavra, com o seu amor.

E podemos agora tentar definir melhor o que é a Ascensão. A Ascensão não é certamente uma simples imagem. A Ascensão é "a entrada irreversível da humanidade de Jesus na glória divina, simbolizada pela nuvem e pelo céu" diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (n 660).

Ao ir à nossa frente, Jesus fica oculto aos nossos olhos. mas não Se separa de nós, e "desperta em nós a esperança de estarmos um dia eternamente com Ele" (Catecismo da igreja Católica. n 667) Que esta esperança nos ajude a começar de novo todos os dias, e nos dê a coragem de subir ao alto monte, isto é, de caminharmos na presença de Deus para um dia nos encontrarmos eternamente com Ele.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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