22 de Junho de 2014 - Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Louva Sião, o Salvador

1. Estava-se no ano de 1264. O papa Urbano IV mandara convocar uma assembleia escolhida, que reunia os mais famosos mestres em Ciência Sagrada daquele tempo. Entre eles encontravam-se dois homens extraordinários pela sua sabedoria e virtude: S. Tomás de Aquino e S. Boaventura.

A razão da convocatória relacionava-se com uma recente bula do mesmo Papa Urbano IV, que tinha instituído uma festa anual em honra do Santíssimo Corpo de Cristo. Para o máximo esplendor desta comemoração, desejava Urbano IV que fosse composto um Ofício, bem como o próprio da Missa a ser cantada naquela solenidade. Assim, solicitou de cada um daqueles mestres em Sacra Doctrina uma composição que deveria ser-lhe apresentada alguns dias depois, a fim de ser escolhida a melhor.

Ficou célebre o que aconteceu durante a sessão. O primeiro a expor foi Frei Tomás. Serena e calmamente, desenrolou um pergaminho, e os circunstantes ouviram a declamação pausada da Sequência por ele composta:

"Lauda Sion Salvatorem, lauda ducem et pastorem in hymnis et canticis, Louva, Sião, o Salvador, o teu guia, o teu pastor, com hinos e cânticos..."


Todos ficaram maravilhados. Frei Tomás concluiu: "...tuas ibi commensales, cohaeredes et sodales, fac sanctorum civium... Admiti-nos no Céu, à Vossa mesa, e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a Cidade Santa".

Frei Boaventura, digno filho de S. Francisco, escondeu imediatamente o seu próprio texto, que depois queimou, e os restantes imitaram-no, em homenagem ao génio e à piedade de Frei Tomás de Aquino. Nunca se conheceram as restantes obras, que seriam, sem dúvida, sublimes também, mas ficou para a história o gesto dos seus autores, verdadeiro monumento de humildade e simplicidade.

Conta-se que São Tomás, depois, perguntou a S. Boaventura por que tinha procedido assim. O santo franciscano, com toda a humildade, explicou-lhe que sua consciência não o deixaria em paz, se ele causasse qualquer embaraço, por mínimo que fosse, à rápida difusão da magnífica Sequência que tinha sido escrita pelo dominicano.

Sublinho o que se diz logo na 2ª estrofe: "Quantum potes, tantum aude... Tanto quanto possas, ouses tu louvá-Lo..." .

2. Há certamente muito a fazer, na Igreja de hoje, para aperfeiçoar e intensificar este louvor, que nunca será demasiado, à Santíssima Eucaristia, desde o modo de participar na Missa à forma de comungar.

O Bispo D. Athanasius Schneider, autor de um livro que recomendo a todos, intitulado «Corpus Christi. A sagrada comunhão e a renovação da Igreja», rejeitou a ideia de que a preocupação pela liturgia é menos importante do que a preocupação com os pobres, ou nada tem a ver com ela. "Isso é um erro. O primeiro mandamento que Cristo nos deu foi adorar somente a Deus. A liturgia não é um encontro com amigos. A nossa primeira tarefa é adorar e glorificar a Deus na liturgia e também no nosso modo de vida. A partir de uma verdadeira adoração e amor a Deus cresce o amor pelos pobres e pelo nosso próximo. Esta é uma consequência" .

Convido-vos a rezarmos juntos a Sequência Lauda Sion, como expressão do nosso louvor e suprema admiração pela Santíssima Eucaristia:

Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.

Tanto quanto possas, ouses tu louvá-Lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.

É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.

É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja. alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.

Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.

Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.

O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.

O que o Senhor fez na Ceia, Ele nos mandou fazê-lo em sua memória.

E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.

É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.

O que não compreendes nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.

Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.

A carne é alimento, e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.

E quem O recebe não O parte nem divide, mas recebe-O todo inteiro.

Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-O podem consumi-Lo.

Recebem-No os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.

Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.

Quando a hóstia é dividida não vaciles, mas recorda que o Senhor Se encontra todo debaixo do fragmento, tanto quanto na hóstia inteira.

Nenhuma divisão pode violar as substâncias: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alteradas.

Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus, que não deve ser lançado aos cães.

As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.

Bom Pastor, pão verdadeiro, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.

Ó Vós, que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti­nos no Céu, à Vossa mesa, e fazei-nos co­herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa. Amen. Aleluia.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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