6 de Julho de 2014 - XIV Domingo do Tempo Comum

A coragem da verdadeira felicidade

1. No Evangelho de hoje, voltamos a ouvir este convite de Jesus Cristo: "Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei" (Mateus 11, 28). Como é que Jesus nos descansa? Como é que Jesus nos devolve as forças, quando nos sentimos cansados ou oprimidos?

Muitas pessoas pensam que, quando estão cansadas ou tristes, o que precisam é de se divertir. Mas será que é mesmo essa a solução?


Às vezes o divertimento é apenas uma ilusão. De certeza não é lá que se encontra o sentido, não é lá que se encontra a força. E actualmente há formas de divertimento que criam novas alienações, e favorecem novas dependências. muitas vezes perigosas, e que muitas vezes levam à morte.

Quando estamos tristes, desanimados ou simplesmente cansados, aquilo que nos faz falta a todos, mais do que o divertimento ou do que o simples descanso, é uma amizade verdadeira; o que nos falta é termos um Amigo que nos conhece por dentro melhor do que nós mesmos, que nos escuta sem nunca se cansar, que nos perdoa, quando nos declaramos pecadores, que nos devolve as forças e a alegria, e que está sempre connosco em todas as horas. Existe um Amigo assim? Sim, este Amigo é Jesus Cristo, e não é só um Amigo, é também Salvador e Redentor. Pelo sacrifício da sua vida, oferecido por amor, resgatou-nos do abismo do mal.

Hoje fala-se muito do resgate financeiro, a que alguns países - como o nosso - têm ou tiveram que se sujeitar, contraindo assim uma enorme dívida.

Também nós ficámos em dívida para com Cristo, que nos resgatou do pecado e da morte. Mas o modo que temos de saldar essa dívida, é aprendermos com Ele, e vivermos como Ele: "Tomai o meu jugo sobre vós, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve" (Mateus 11,29-30).

É tudo o que Jesus nos pede. O jugo de Jesus significa a obediência à sua lei, o que por vezes nos pode custar, e implicar esforço e sacrifício, não tenhamos ilusões. No entanto, este jugo e este peso, que, por natureza, nos pode custar a levar sobre os nossos ombros, tornam-se leves e suaves, pela força do amor. "Para quem ama é suave; pesado para quem não ama" (Santo Agostinho, Sermão 30, n.l0)

2. "Vinde a Mim", diz-nos Jesus. Como correspondemos a este convite? É mais fácil do que possa parecer, se nos lembrarmos que Jesus vivo está na Eucaristia -tão real e perfeitamente como está nos Céus! Vir ao encontro de Jesus significa, portanto, escutar a sua Palavra, manter um diálogo constante com Ele na oração, adorá-Lo silenciosamente na Eucaristia, e procurar recebê-Lo com frequência na Comunhão, se possível todos os dias, ou pelo menos todos os domingos, porque precisamos muito do seu amor, da sua ajuda, da sua força. Seria muito bom para todos comungar com mais frequência para aprender de Jesus, e receber a paz, a força e a luz que nos traz.

Para isso, evidentemente, é necessário estar na graça de Deus. Quem reconhecer que precisa de se confessar, ou pelo menos de se preparar melhor espiritualmente antes de comungar, é evidente que deverá fazê-lo. Ninguém deverá comungar sem estar na graça de Deus e espiritualmente preparado (o que implica também guardar o jejum eucarístico que a Igreja nos prescreve).

Por outro lado, a comunhão é também um compromisso: quem comunga, compromete-se a viver como Jesus viveu, e a pôr em prática o que Ele ensinou.

3. Jesus promete aos seres humanos descanso e força interior. Será que também nos poderá dar a felicidade? O Papa Bento XVI, na sua viagem ao Reino Unido, em Setembro de 2010, ao dirigir-se aos jovens das escolas católicas britânicas, observou que a felicidade "é algo que todos nós desejamos, mas uma das grandes tragédias deste mundo é que muitos não a conseguem encontrar, porque a procuram nos lugares errados".

E a verdade é que muitas vezes nem sequer se procura a felicidade: procura-se apenas o gozo do momento, a vertigem do prazer a todo o custo, mesmo que seja completamente irracional.

É paradoxal que, num tempo tão raciona lista como o nosso, muita gente age, por vezes de modo tão irracional, e pondo até em risco, tragicamente, a sua própria vida. Hoje, gostaria de pedir em especial pelos jovens, para que sejam racionais, e não cedam à tentação do gozo do momento, e não desistam de ser felizes!

4. O Papa Francisco, na sua mensagem para a Jornada Mundial da Juventude do passado Domingo de Ramos, 13 de Abril de 2014, deixou esta pergunta, dirigida sobretudo aos jovens: "Vós aspirais deveras à felicidade? Num tempo em que se é atraído por tantas aparências de felicidade, corre-se o risco de contentar-se com pouco, com uma ideia "pequena» da vida. Vós, pelo contrário, aspirai a coisas grandes! Ampliai os vossos corações!"

E o Papa, citando a 1ª Carta de S. João, juntou ainda um apelo, dirigido primariamente aos mais jovens, mas que percebemos que é para todos: "Escrevendo aos jovens, São João dizia: «Vós sois fortes, a palavra de Deus permanece em vós, e vencestes o Maligno» (1 João 2, 14). Os jovens que escolhem Cristo são fortes, nutrem-se da sua Palavra e não se «empanturram» com outras coisas. Tende a coragem de ir contra a corrente. Tende a coragem da verdadeira felicidadel Dizei não à cultura do provisório, da superficialidade e do descartável, que não vos considera capazes de assumir responsabilidades e enfrentar os grandes desafios da vida".

E preciso dizer sim, portanto, à cultura do compromisso, da entrega de todo o nosso ser e da fidelidade, apoiados no valor definitivo do amor de Deus e do sacrifício de Cristo, que dão sentido até às nossas fragilidades e cansaços, que Deus quer e pode transformar, purificar e santificar.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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