13 de Julho de 2014 - XV Domingo do Tempo Comum

Produzir mais frutos

1. O Evangelho de hoje fala-nos de um semeador e de uma semente. "Saiu o semeador a semear". Como explica S. Jerónimo, este semeador é o próprio Jesus Cristo, que semeia no coração dos homens a sua palavra, que é também a palavra do Pai.

Ao comparar a sua palavra a uma semente, Jesus ensina-nos, em primeiro lugar, que a sua palavra é muito poderosa, contém um dinamismo e uma força própria, um potencial imenso, que não depende de nós; mas, em segundo lugar, ensina-nos que este dinamismo poderoso requer a nossa correspondência. O modo como a semente germina e sobretudo a qualidade e a abundância dos frutos dependem da terra em que é acolhida, que é o coração de cada um de nós.


Weigel, A parábola do semeador

Há quatro tipos de terra, segundo a parábola de Jesus: a que está logo a beira do caminho, a que está cheia de pedras, que está cheia de espinhos, e por fim a terra boa. Só na terra boa é que a semente dá frutos, e pode dá-los com muita abundância, como diz Jesus: trinta, sessenta ou cem por um!

Ao longo dos tempos, no seu esforço por fazer a terra produzir o máximo possível, os homens conseguiram muitas vezes desbravar terrenos que pareciam totalmente inóspitos para a agricultura, limpando-os de pedras, de espinhos, de matagal, ou então secando pântanos, e tornando-os terra boa para lhes dar o alimento necessário.

Por exemplo, na zona de Alcobaça, foi imenso o trabalho dos monges cistercienses, que, logo após a fundação do Mosteiro, no séc. XII, tiveram de desbravar as charnecas, drenar os pântanos e fertilizar as terras, para depois plantarem pomares, olivais e vinhas.

Esse esforço feito por inúmeras gerações de homens que trabalharam a terra, permite-nos alimentar a esperança de que até a terra cheia de pedras ou cheia de espinhos, como às vezes é o coração do homem, se poderá transformar em terra boa.

2. Este ensinamento está implícito na parábola que Jesus contou. Citando o profeta Isaías, Jesus fala-nos daqueles que endurecem os ouvidos, e fecham os olhos, para não se converterem. Obstinam-se na sua dureza, não querem mudar, nada os demove, nada os convence. Mas, se ouvissem com os ouvidos e vissem com os olhos, se compreendessem com o coração, convertiam-se, e Deus curava-os! O mal é que não querem!

Acreditamos, no entanto, que esta conversão, é possível, e a terra inóspita ou bravia pode converter-se em terra boa, os corações duros podem tornar-se bons e puros, as mentes fechadas podem abrir-se à verdade, as vidas sem sentido podem tornar-se fecundas, mas, para isso acontecer, há uma condição indispensável, que é esta: que vejam Jesus, que oiçam Jesus, e se deixem tocare converter por Ele. Julgo que é nesse sentido que Jesus diz aos seus ouvintes: "Quanto a vós, felizes os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem". S. Jerónimo comentando estas palavras de Jesus no Evangelho de S. Mateus, observa de uma forma muito bela: "Felizes são aqueles olhos que podem conhecer os mistérios de Cristo, e que Jesus mandou erguer ao alto para ver as searas deslumbrantes (João 4,35), e bem-aventurados aqueles ouvidos de que fala Isaías: «O Senhor Deus desperta os meus ouvidos» (Isaías 50, 4)" .Felizes os que vêem Jesus com os olhos da fé, felizes os que abrem os ouvidos à sua palavra e se deixam tocar por ela, felizes aqueles que conhecem Jesus e acreditam n'Ele!

Às vezes, porém, "vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração". O Diabo rouba à alma o seu tesouro precioso, e pode ser muito difícil recuperá-lo! Outras vezes, são as dificuldades que acompanham quem quer ser coerente com a sua fé, ou as críticas, as incompreensões e até as perseguições, que abalam a fidelidade do cristão.

E em muitos casos, talvez os mais numerosos, são "os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza", como diz Jesus, que "sufocam a palavra, que assim não dá fruto". Quantas pessoas, absorvidas pelas preocupações ou pelas ambições da vida, mesmo quando legítimas, se esquecem de Deus, ou até O negam ou desprezam! Mas então que sentido pode ter a vida e os seus trabalhos?

3. Que para todos chegue, como diz uma antiga oração, "o espaço da verdadeira penitência", a hora da perfeita conversão.

Que toda a terra do mundo se converta em terra boa, arável, fértil, acolhedora da semente divina. S. Paulo, na Carta aos Romanos, diz que já "possuímos as primícias do Espírito". As primícias são os primeiros frutos da colheita que se oferecem a Deus em sacrifício, abençoando assim toda a colheita.

Mas também podem significar, como parece ser aqui o caso, um penhor ou garantia do que está para vir.

Nesse sentido, peçamos a graça de recebermos ainda com mais abundância os dons do Espírito Santo, para vermos e ouvirmos Jesus com grande fé e amor, com um fascínio sempre maior, e produzirmos mais frutos, e assim darmos a Deus, já neste mundo, toda a glória, pelo infinito poder com que nos criou, e pelo infinito amor com que, em Jesus, nos resgatou.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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