14 de Setembro de 2014 - Exaltação da Santa Cruz

O sinal da Santa Cruz

1.Um pouco de história

A festa de hoje teve primeiramente por objecto único a invenção (ou descoberta) da Santa Cruz, levada a efeito por Santa Helena, e a dedicação das basílicas mandadas construir por Constantino, consagradas no dia 14 de Setembro de 335.

Santa Helena, mãe do Imperador, advertida por um sonho, foi a Jerusalém procurar as insígnias da Paixão de Cristo. Estando na cidade. mandou despedaçar uma estátua de Vénus, que os romanos tinham colocado onde a Cruz fora levantada a fim de abolir toda a lembrança da Paixão do Salvador. Depois de limpo o local, escavou-se o terreno. e encontraram-se três cruzes. e o título que faria reconhecer a do Salvador estava à parte. O Bispo Macário de Jerusalém, após ter dirigidos fervorosas orações a Deus, pediu que se tocasse com as cruzes uma mulher gravemente doente. As duas primeiras não tiveram nenhum efeito, mas a terceira cruz devolveu imediatamente a saúde à enferma.


Santa Helena encerrou uma parte da Cruz num belíssimo relicário de prata e pedras preciosas, e depô-lo na Igreja que mandara construir sobre o Monte Calvário. A segunda metade do Lenho, assim como os cravos que prenderam o Corpo de Cristo à Cruz, levou-os consigo para Roma, e colocou-os em seu palácio, a actual Basílica de Santa Cruz de Jerusalém. Constantino, pouco depois, promulgou uma lei que proibia que um condenado padecesse o suplício da Cruz, colocando entre o que havia de mais glorioso e digno de respeito um objecto que até então fora sinal de desprezos e de opróbrios, marcando com ela a derrota dos ídolos e o triunfo da verdadeira religião.

Mais tarde, porém, a memória doutro acontecimento veio tomar o lugar dos que acabamos de referir, e foi a restituição da Santa Cruz feita pelos Persas em 629. Na verdade, em 615, Cósroas, rei dos persas, depois de ocupar o Egipto e outras zonas da África, tomou também Jerusalém. onde massacrou milhares de cristãos, e a Cruz do Senhor foi levada para a Pérsia. Catorze anos mais tarde, o imperador Heráclio derrotou Cósroas e depois de várias vicissitudes, obteve do filho deste a entrega da preciosa relíquia.

Uma antiga tradição diz que, entrando em Jerusalém, quis levar ele mesmo a Santa Cruz, com grande pompa, para a repor no Calvário. Caminhava coberto de ouro e pedrarias com a Cruz do Senhor às costas quando, de repente, às portas da cidade que dão para o Calvário, se sentiu preso por uma força invisível que o não deixou prosseguir. Zacarias, Bispo de Jerusalém e testemunha presencial do fato, advertiu então "Com estas vestes, estais longe de imitar a pobreza de Jesus Cristo e a humildade com que levou a Cruz".

Heráclio despojou-se então das vestes riquíssimas que envergava, e com os pés descalços, coberto com um simples manto, fez sem dificuldade o resto do caminho, e recolocou a Cruz no Calvário, no mesmo lugar de onde os Persas a tinham retirado.

2. A glória da Cruz

O antigo hino «Salve Crux Sancta», canta assim a glória da Cruz:

"Salve, Santa Cruz, glória do mundo e esperança verdadeira, fonte de nossa alegria, sinal da salvação protecção nos perigos, árvore de vida que sustenta Aquele que é a vida dos homens" .

A morte do Senhor na cruz foi simultaneamente sacrifício e triunfo. Ele próprio o anunciou na véspera da sua Paixão: "É agora que o príncipe deste Mundo vai ser lançado fora; e quando eu Me elevar da Terra, tudo atrairei a Mim" (João 12,31-32). São Paulo salienta que a exaltação de Cristo é fruto da sua entrega "até à morte, e morte de Cruz." (cf. Filipenses 2, 8-9), e retira para nós esta consequência inequívoca: "Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo" (cf. Gálatas 6,14).

O Intróito da Missa desenvolve este pensamento: "Nos autem gloriari oportet,..." Nós, porém, devemos gloriar-nos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. de Quem nos vem a salvação, a vida e a ressurreição; pc Quem fomos salvos e livres".

3. Presos à Cruz

Gloriamo-nos na Cruz? Mas a Cruz não pesa, a Cruz não prende?

Sim. Jesus na Cruz, depois de ter suportado o peso do madeiro, está preso, pregado de pés e mãos.

Mas o seu coração está livre, não pára de bater. Só depois da sua morte é que o seu lado será trespassado, o seu coração será atingido pela lança do soldado. Até lá, mesmo enquanto Jesus está na Cruz, preso com cravos ao madeiro, o seu amor não deixa de aumentar, até atingir o ponto máximo, e insuperável, que o arrebata desta vida, e então Jesus morre, "entrega o espírito" (cf.João 19,30).

Jesus preso, é totalmente livre, ama infinitamente o Pai, e ama todos aqueles por quem entrega a sua vida.

Se aceitamos que Deus nos una à Cruz de Jesus, podemos às vezes sentir-nos presos, mas ainda bem que assim é, porque então o nosso egoísmo não terá liberdade de movimentos, e não iremos por aí ao sabor dos nossos caprichos.

Muitas vezes será bom cada um dizer a si mesmo: não, por esse caminho não vou, estou abraçado à Cruz de Jesus.

É verdade: a Cruz prende-nos, mas ao mesmo tempo liberta-nos. Permite-nos superar os egoísmos, vencer a irracionalidade e as paixões desordenadas, manter o espírito aberto à verdade e o coração pronto para amar.

A Cruz livra-nos dos nossos inimigos, que às vezes podem ser inimigos de carne e osso, ou exércitos inimigos, mas muitas vezes são 'inimigos espirituais', antes de mais o próprio Satanás, e depois a descrença em Deus, o cepticismo, o pessimismo, a tristeza doentia, a indiferença pelos outros, a cobiça, a inveja, a sensualidade desordenada, etc.

Assim libertos, o nosso espírito conhecerá a verdade: tanto a que é acessível à razão como a que foi revelada por Deus, e poderemos amar verdadeiramente.

Por isso, com absoluta confiança neste gesto que é portador de todas as bênçãos, assinalemos mais uma vez todo o nosso ser com o sinal da Santa Cruz:

Pelo sinal + da Santa Cruz,
livre-nos Deus, + Nosso Senhor,
dos nossos + inimigos.
Em nome do Pai e do Filho +
e do Espírito Santo. Amen

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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