28 de Setembro de 2014 - XXVI Domingo do Tempo Comum

Conversão, não simples mundança

1. Este segundo filho, que inicialmente disse: "- Eu vou, Senhor. Mas de facto não foi", deve ter pensado: a vinha é do meu pai, o problema é dele, arranje trabalhadores, se quiser. Já o primeiro, que à partida respondeu: "- Não quero", mas que "depois, se arrependeu, e foi", com certeza caiu em si, e pensou: mas a vinha também é minha, ou será minha, um dia; não posso deixar o meu pai sozinho, vou já trabalhar na vinha.

Tendo em mente o segundo filho, que representa sem dúvida os judeus que se fecharam totalmente a mensagem e à graça do seu Evangelho, Jesus conclui: "João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele" (Mateus 21, 32).


Esta parábola é, portanto, com toda a clareza, um convite à conversão, entendida não como uma simples mudança, porque a mudança pode ser para melhor ou para pior, mas como a passagem de uma vida de pecado a uma vida de acordo com os mandamentos divinos; de uma vida em que se abraçam erros, ou doutrinas erróneas, ou concepções falsas da existência, do mundo e do homem, a uma vida segundo a recta razão, iluminada pela fé. Alguns exemplos:

2. Quem tem uma visão de Deus entendido como uma simples força impessoal, deve ser convidado a aderir a um Deus que em Si mesmo é uma comunhão de Pessoas, o Deus Uno e Trino, e que "amou de tal modo o mundo, que entregou o seu Filho Unigénito" (João 3,16),

Os que pensam (ou pensavam) que a luta de classes era o caminho para uma sociedade mais justa, deveriam ser convidados a abandonar esse mito, a "reflectir sobre as experiências históricas amargas às quais ele conduziu", e a "apoiar-se no Evangelho e na sua força de transformação" (Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da «Teologia da libertação»).

Os Estados que promovem a indiferença religiosa ou o ateísmo prático, deveriam perceber que estão a roubar aos povos "recursos espirituais e humanos", como escreveu Bento XVI, na Encíclica Caritas in veritate. Deveriam perceber que "Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem", Por isso, "quando o Estado promove, ensina ou até impõe formas de ateísmo prático, tira aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se empenhar no desenvolvimento humano integra'" (n. 29).

E os que buscam o lucro a qualquer preço, precisam de entender que "a economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa", ensina também Bento XVI (Encíclica Caritas in veritate, n. 45).

Quando os Estados se afirmam "seculares" ou "Laicos", não estão, ao contrário do que possa parecer, a ser neutros, mas a oficializar a ausência de Deus. Mas é bom que se note que, na Constituição portuguesa, não se encontra nenhuma referência nem a "laico" nem a "laicidade"!

Os Estados não devem ser laicos, e até podem ser confessionais, mas, mesmo não o sendo, devem reconhecer a importância social da religião e até apoiá-la, embora não interferindo nela, evidentemente.

3. Sem abordar directamente esta questão, o Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, chama a atenção para o efeito que resulta de reduzir a fé e a religião à pura esfera privada. Escreve o Papa.

"O processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência, produziu-se uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão vulnerável às mudanças da adolescência e juventude.(...) Vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no momento de enquadrar as questões morais. Por conseguinte, torna-se necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores" (n. 64)

Portanto, é evidente que toda a sociedade precisaria de uma conversão, a começar por este suave "caminho de amadurecimento nos valores". E quem está disposto a fazê-lo acontecer?

O Papa Francisco nota que às vezes os próprios cristãos fogem dos compromissos, renunciam às suas responsabilidades - tornando-se assim parecidos com o segundo filho da parábola que hoje ouvimos. Escreve o Santo Padre:

4. "Quando mais precisamos dum dinamismo missionário que leve sal e luz ao mundo, muitos leigos temem que alguém os convide a realizar alguma tarefa apostólica e procuram fugir de qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre. Hoje. por exemplo, tornou-se muito difícil nas paróquias conseguir catequistas que estejam preparados e perseverem no seu dever por vários anos (...)" (n. 81).

E exorta fortemente:

"Assim se gera a maior ameaça, que «é o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez». Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperança. que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do demónio». Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam por se deixar cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço interior e corroem o dinamismo apostólico. Por tudo isto, permiti que insista: Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!" (n. 83).

A alegria da evangelização é a alegria de anunciar Jesus e tudo o que nos revelou e ensinou, como Verbo divino feito homem. Comecemos nós por querer escutar e conhecer, para depois termos a coragem de nos converter, testemunhar e anunciar.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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