19 de Outubro de 2014 - XXIX Domingo do Tempo Comum

A Deus o que é de Deus


1. Vamos imaginar que estávamos ao lado de Jesus, quando aconteceu este episódio que hoje o Evangelho nos relata. Se nos inclinássemos um pouco, veríamos que a moeda que os fariseus mostraram a Jesus tinha a Imagem de Tibério, que era naquele momento o imperador romano. A moeda era um denário de prata, e se olhássemos mais de perto veríamos que na inscrição que levava, estava escrito: «Tibério César, filho do divino Augusto».

E então Jesus, apesar de estar diante de uma cilada montada com grande hipocrisia, transmite serenamente aos seus interlocutores o ensinamento de que os impostos devidos a Roma deviam ser pagos, e o mesmo se aplicará ao longo dos tempos a todos os impostos legítimos que o Estado impõe aos cidadãos em vista do bem comum.

Jesus não se demora muito no assunto: há um tributo a pagar, e apesar de se tratar de uma autoridade estranha ao povo, não é ilegítimo, e portanto deve ser pago. É este o sentido imediato da primeira parte da sua resposta: "Dai a César o que é de César...". É um assunto do mundo: resolve-se pelos mecanismos normais deste mundo.

Mas depois Jesus acrescenta imediatamente: "e a Deus o que é de Deus". Vamos tentar seguir o raciocínio de Jesus, como devem ter feito, com grande admiração, não os fariseus, que ficaram confundidos, mas os discípulos de Jesus, que ficaram com certeza maravilhados com a sua resposta. Já que aquela moeda tinha a Imagem de «César», não havia dúvidas de que era legítimo e até uma obrigação pagar com ela o que fosse devido a «César». Mas existe nesta terra alguma coisa que tenha a imagem de Deus, e que por isso possa servir para entregar a Deus o que Lhe é devido?

2. Sim, há, é o próprio homem. Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus, como ensina a Sagrada Escritura (Génesis 1, 26). Cada homem e mulher leva em si "a imagem e a inscrição" do grande Rei, do Imperador divino. Temos em nós a imagem de Deus, e a sua Lei está inscrita na nossa consciência. Muitas vezes pode ser uma imagem coberta de pó, quase invisível, pode ser uma inscrição quase ilegível, mas ambas continuam gravadas no nosso ser mais profundo, e definem-nos como seres humanos. Nós somos como a moeda mais preciosa do tesouro de Deus.

Mas, se esta imagem está em nós, não poderá também hoje Jesus perguntar.nos: "De quem é esta imagem e esta inscrição?" E nós só podemos responder: De Deus! Sendo assim, tem todo o sentido que nos perguntemos a nós próprios: Porque é que não damos a Deus o que é de Deus? Porque é que somos tão poucos generosos, e às vezes tão mesquinhos, e nos custa tanto restituir a Deus o que Lhe é devido, o que Lhe pertence?

Dar a Deus o que é de Deus implica oferecermos a Deus a nossa vida, para o que Ele quiser! Estamos dispostos a isso? Ou pomos logo limites, restrições? Reservamos algum tempo do nosso dia para o dedicarmos à oração? Vivemos o domingo como o Dia do Senhor, Dia de Jesus Ressuscitado, participando com gratidão e alegria na Santa Missa, em que a comunidade dos cristãos se reúne para se alimentar na Mesa da Palavra e na Mesa da Eucaristia? Visitamos Jesus no sacrário ao longo da semana? Se possível, participamos na Missa noutros dias da semana? Damos tempo ao serviço dos outros? Não nos esquecemos dos doentes, dos idosos, dos que estão sozinhos, dos que podem estar prestes a partir deste mundo?

3. Na vida humana, há um momento em que Aquele a quem pertencemos, nos vem chamar para Si: é o momento da nossa morte. É então que damos totalmente a Deus o que d'Ele recebemos, não para deixarmos de existir, mas para existir plenamente, se morrermos na sua graça, e após a purificação de que tivermos necessidade.

Para nos ajudar a deixar tudo e a dar tudo quando Deus nos chamar, Jesus instituiu o sacramento da Unção dos Enfermos. É bom ter presente que, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, a Unção dos Enfennos "não é sacramento só dos que estão prestes a morrer. Por isso, o tempo oportuno para a receber é certamente quando o fiel começa, por doença ou por velhice, a estar em perigo de morte" (n.1514,que cita o II Concílio do Vaticano, Sacrosanctum concilium, n. 73).

Os efeitos da celebração deste sacramento são estes:

"Um dom particular do Espírito Santo. A primeira graça deste sacramento é uma graça de reconforto, de paz e de coragem para vencer as dificuldades próprias do estado de doença grave ou da fragilidade da velhice. Esta graça é um dom do Espírito Santo, que renova a confiança e a fé em Deus, e dá força contra as tentações do Maligno, especialmente a tentação do desânimo e da angústia da morte. Esta assistência do Senhor pela força do seu Espírito visa levar o doente à cura da alma, mas também à do corpo, se tal for a vontade de Deus. Além disso, «se ele cometeu pecados, ser-lhe-ão perdoados» (Tiago 5, 15)" (n.1520).

"A união à paixão de Cristo. Pela graça deste sacramento, o enfermo recebe a força e o dom de se unir mais intimamente à paixão de Cristo: ele é, de certo modo, consagrado para produzir frutos pela configuração com a paixão redentora do Salvador. O sofrimento, sequela do pecado original, recebe um sentido novo: transforma-se em participação na obra salvífica de Jesus" (n. 1521).

"Uma graça eclesial. Os doentes que recebem este sacramento, «associando-se livremente à paixão e morte de Cristo, concorrem para o bem do povo de Deus». Ao celebrar este sacramento, a Igreja, na comunhão dos santos, intercede pelo bem do doente. E o doente, por seu lado, pela graça deste sacramento, contribui para a santificação da Igreja e para o bem de todos os homens, pelos quais a Igreja sofre e se oferece, por Cristo, a Deus Pai" (n.1522).

"Uma preparacão para a última passagem. Se o sacramento da Unção dos Enfermos é concedido a todos os que sofrem de doenças e enfermidades graves, com mais forte razão o é aos que estão prestes a deixar esta vida («in exitu vitae constituti») de modo que" também foi chamado «sacramentum exeuntium - sacramento dos que partem» (Concílio de Trento). A Unção dos Enfermos completa a nossa conformação com a morte e ressurreição de Cristo, tal como o Baptismo a tinha começado. Leva à perfeição as unções santas que marcam toda a vida cristã: a do Baptismo selara em nós a vida nova: a da Confirmação robustecera.nos para o combate desta vida; esta última unção mune o fim da nossa vida terrena como que de um sólido escudo em vista das últimas batalhas, antes da entrada na Casa do Pai" (1523).

Não obstante, o último sacramento do cristão é a Eucaristia! ! "Àqueles que vão deixar esta vida, a Igreja oferece-lhes, além da Unção dos Enfermos, a Eucaristia como viático. Recebida neste momento de passagem para o Pai, a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo tem um significado e uma importância particulares. É semente de vida eterna e força de ressurreição, segundo as pa1avras do Senhor: "Quem come a minha came e bebe o meu Sangue tem a vida eterna, e Eu resssuscitá-lo-ei no último dia" (João 6, 54). Sacramento de Cristo morto e ressuscitado, a Eucaristia é aqui sacramento da passagem da morte para a vida, deste mundo para o Pai (n. 1524).

"Assim, do mesmo modo que os sacramentos do Baptismo, da Confirmação e da Eucaristia constituem uma unidade chamada «os sacramentos da iniciação cristã», também pode dizer-se que a Penitência, a Santa Unção e a Eucaristia, como viático, constituem, quando a vida do cristão chega ao seu termo, «os sacramentos que preparam a entrada na Pátria» ou os sacramentos com que termina a peregrinação" (n.1525).

Que as famílias chamem o seu Prior ou outro sacerdote para dar aos seus doentes nessa hora em que se aproxima a passagem definitiva para Deus estes sacramentos em que tão intensamente podemos experimentar a sua misericórdia, antes de comparecermos sem intermediários na sua divina presença.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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