26 de Outubro de 2014 - XXX Domingo do Tempo Comum

Saber amar


Jerónimo Nadal, (ed.), Jesus é interrogado sobre o Primeiro Mandamento

1. Um dia, uma religiosa missionária estava a tratar com todo o cuidado as feridas de um leproso, que deviam causar bastante impressão. Mas ela, enquanto fazia o seu trabalho, sorria e conversava com o doente, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. A certa altura, perguntou ao doente: "Tu acreditas em Deus?» E o homem ficou a olhar para ela longamente, sem dizer nada, e depois respondeu: "Sim, agora acredito em Deus".

Este homem descobriu Deus, na caridade e na alegria daquela religiosa. Se havia uma pessoa que cuidava dele com tanto carinho, isso era um sinal evidente de que Deus existia e o amava muito, apesar da sua doença! E todos nós reconhecemos facilmente que o modo como vivemos. o modo como procedemos com os outros, fala de Deus, ou esconde-O. Há muitas pessoas que só conhecerão Deus através de nós: da nossa amizade, da nossa disponibilidade, da ajuda sincera e leal que lhes prestamos num momento de busca ou de sofrimento ou numa outra hora importante da sua vida.

Por que é que é assim? A resposta está no Evangelho de hoje. Vemos no Evangelho que Jesus associou duas passagens da Sagrada Escritura que não era habitual ler conjuntamente. Aliás, não consta que ninguém o tenha feito antes de Jesus! A ocasião foi uma pergunta que Lhe fez um doutor da Lei: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" E Jesus respondeu, citando em primeiro lugar Deuteronómío 6. 5: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração. com toda a tua alma e com todo o teu espírito". E Jesus comentou imediatamente: "Este é o maior e o primeiro mandamento".

O nosso primeiro dever é amar a Deus, com todo o nosso ser. E este amor não é um simples sentimento, é muito mais do que isso, é entrega de todo o nosso ser. O «coração» simboliza a vontade; a «alma» representa o que em nós é imortal; e o «espirito» representa a mente. Não se pode amar a Deus só com um 'bocadinho' de nós. mas com todo o nosso ser. e também com todas as nossas «forças». (como se lê no texto original do Deuteronómio). isto é, com os nossos bens, e também com o tempo, com todas as energias e capacidades que Deus nos deu.

2. Nós, cristãos, não somos como os pagãos da antiga Roma ou da Grécia, que iam aos templos dos seus 'deuses' oferecer uns grãos de incenso. e vinham-se embora satisfeitos. Nós, a Deus, só podemos dar todo o nosso amor, e com ele a nossa adoração e acção de graças, e isso nunca está totalmente feito, nunca está terminado: podemos sempre amá-Lo mais, servi-Lo melhor!

Para amar a Deus, é necessário conhecê-lo, como é evidente. Vejamos o que se passou com os Tessalonicenses. Antes de receberem a pregação de S. Paulo e de terem fé em Jesus Cristo, acreditavam em falsos deuses, em ídolos. mas depois - diz S. Paulo - converteram-se, "para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus". Aos falsos deuses, há que abandoná-los, não há alternativa, e todas as religiões estão chamadas a superar-se radicalmente, acolhendo a suprema revelação de Deus em Cristo.

Voltando ao Evangelho, vemos que Jesus, embora a pergunta fosse só sobre "o maior e o primeiro mandamento", acrescentou ainda um segundo: "O segundo, porém, é semelhante a este: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas". Aqui Jesus cita o texto de Levítico 19, 18, e ensina-nos que, se amamos a Deus, temos também o dever de amar o próximo, querendo para ele, pelo menos, o mesmo bem que queremos para nós mesmos.

Amar é procurar o bem do outro, e só quando eu procuro e luto por este bem, é que eu próprio me sinto realizado e feliz. S. Paulo diz, na 2ª leitura, dirigindo-se aos cristãos da cidade de Tessalónica: "Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem".

Um dos modos mais frequentes como se vive esta procura do bem do outro, é no casamento, em que duas pessoas. um homem e uma mulher, se unem numa aliança fiel, indissolúvel e fecunda. Cada um deseja o bem do outro e dos filhos, e é assim que encontra o seu próprio bem e é feliz! Mas, se só se busca a si próprio, nunca será feliz! Quando a Igreja, em nome de Deus, pede aos namorados e aos noivos que vivam a castidade antes do casamento, é para que tenham a certeza de que desejam mesmo o bem do outro, e não o seu pequeno egoísmo passageiro! É muito fácil uma pessoa iludir-se, pensando que gosta do outro, e afinal só gosta de si. E às vezes, quando se apercebe disso, já é tarde de mais. "Os homens e mulheres casados traem seus cônjuges porque não souberam exercitar a força de vontade na luta da castidade. Um casamento forte só pode existir quando ambos aprenderam a dominar-se no namoro e no noivado» (Felipe Aquino). Tomar a decisão de só se entregar um ao outro depois de cada um receber o outro das mãos de Jesus, é um sinal de respeito pelo sacramento e uma garantia de maior felicidade na futura vida familiar.

3. E mesmo que tenha havido erros no passado, é sempre possível corrigi-los, com a ajuda de Deus, mediante a Confissão e o perdão de Deus. Um namoro puro só será possível com a graça de Deus, com a oração, com a vigilância e, sobretudo quando os dois querem preservar-se um para o outro. S. Paulo diz que "de Deus não se zomba. "O que o homem semeia, isto mesmo colherá" (Gálatas 6,7); a castidade que for semeada no namoro e no noivado, será transformada em frutos preciosos na futura vida familiar.

Hoje, pedimos confiadamente a Deus que nos ajude a viver estes dois grandes mandamentos inseparáveis, em que "se resumem toda a Lei e os Profetas", como disse Jesus. Pedimos-Lhe a graça de saber amar, para que as nossas palavras falem de Deus, a nossa vida O anuncie aos outros, e os outros O encontrem em nós.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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