2 de Novembro de 2014 - Fiéis Defuntos

Peregrinos da eternidade

1. O dia 2 de Novembro é um dia de oração pelos que já partiram deste mundo. E o modo como rezamos na Missa deste dia - que se chama liturgicamente Comemoração dos Fiéis Defuntos - revela bem aquilo em que acreditamos, segundo o famoso princípio: «Lex orandi, lex credendi».


Qual é então a nossa fé?

Como rezamos? Na Missa deste dia 2 de Novembro, o Intróito (ou cântico de entrada) marca o tom desde o primeiro momento, com esta antífona, que, no canto gregoriano, é das mais extraordinárias e belas alguma vez compostas: "Requiem aeternam dona eis Domine: et lux perpetua luceat eis, Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, e brilhe para eles a luz perpétua".

Também a antífona da comunhão, (inspirada, como a anterior, no chamado IV Livro de Esdras), pede para os defuntos a luz: "Lux reterna luceat eis, Dómine, cum sanctis tuis in aeternum, quia pius es, Brilhe para eles a luz perpétua. Vivam para sempre com os vossos Santos, porque Vós sois bom, Senhor".

Assim se reza pelos defuntos, na luminosa e ao mesmo tempo sóbria liturgia Romana. Em todas as Missas, no acto central e essencial, que apenas é proferido pelo sacerdote, há dois momentos de oração, a que se dá o nome de Intercessões, por vezes designadas pela palavra latina que as inicia: Memento, que significa Lembra-te, ou Lembrai-Vos, (quando nos dirigimos a Deus). O primeiro Memento, é pelos vivos: rezamos pelo Papa, pelos Bispos, pelos sacerdotes e ministros sagrados, e por todos os que tomam parte na nossa celebração.

E o segundo Memento é pelos defuntos. Nesta secção, rezamos por aqueles que morreram na paz de Cristo. E como é que podíamos deixar de rezar por aquelas pessoas que nos foram tão caras neste mundo? Às vezes, no entanto, é possível que nos interroguemos sobre a fé de alguém que já não está connosco nesta vida, e poderemos até sentir-nos preocupados pela sua eterna salvação. Terá morrido na graça de Deus?

Apesar disso, não deixamos de rezar por todos os defuntos, cuja fé, talvez escondida aos olhos dos homens. só Deus conheceu, e cujas disposições definitivas somente Deus pode julgar.

2. Em todas as Missas, sem excepção, a Igreja reza pelos que já pa rtiram, e confia que a sua oração lhes levará conforto e ajuda. Escreve um grande Bispo do séc. IV, S. Cirilo de Jerusalém: "Rezamos pelos nossos familiares falecidos e por todos os que viveram no meio de nós. Porque temos uma profunda convicção de que é dada uma grande ajuda àquelas almas por quem oferecemos as nossas orações enquanto esta santa e preciosa Vítima está presente".

Na Oração Eucarística II, o sacerdote reza assim: "Lembrai-vos também dos nossos irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição, e de todos aqueles que na vossa misericórdia partiram deste mundo: admiti-os na luz da vossa presença".

Na sequência desta prece mais geral, pode ainda acrescentar-se, nas missas especialmente oferecidas pelos defuntos, uma oração por alguma ou algumas pessoas concretas, já falecidas. Pedimos a Deus que se lembre dessas pessoas, para que. "configuradas com Cristo na morte, com Cristo tomem parte na ressurreição, quando Ele vier ressuscitar os mortos, e transformar o nosso corpo mortal à imagem do seu corpo glorioso" (Oração Eucarística III).

No Cânon Romano. (também chamado, no Missal de Paulo VI, "Oração eucarística I"), cujos primeiros testemunhos remontam ao século IV e ao tempo de S. Gregório Magno (início do séc. VII), o sacerdote utiliza expressões que soam como se estivéssemos a ouvir os primeiros cristãos de Roma a orar nas catacumbas:

"Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas (N e N), que partiram antes de nós marcados com o sinal da fé e agora dormem o sono da paz".

E depois de um breve tempo de silêncio, continua: "Concedei-lhes, Senhor, a eles e a todos os que descansam em Cristo, o lugar da consolação, da luz e da paz"(em latim: "locum refrigerii, lucis et pacis").

3. E isto que pedimos para todos os que partiram, e que, na expectativa da ressurreição final, já hoje "descansam em Cristo": que, depois da luta e das provas pela qual tiveram que passar, lhes seja dado esse "refrigério" reconfortante; que a sua fome e a sua sede de Deus sejam saciadas: e que o próprio Deus os acolha na sua luz e na sua paz.

É interessante que nestas orações da liturgia sagrada nunca é usada a palavra «morte», que nunca é dita na presença de Cristo, nossa eterna Vida!

4. A seguir, no Cânon Romano, pedimos por nós mesmos, usando uma oração que data, pelo menos, do século VII, e começa com estas palavras: "Nobís, quoque, peccatoribus", "E a nós pecadores, que esperamos na vossa infinita misericórdia..." O sacerdote bate com a mão direita no peito e, em nome de todos, pede que sejamos acolhidos "na assembleia dos bem-aventurados Apóstolos e Mártires (...) e de todos os Santos".

Já antes tinham sido mencionados os Apóstolos e outros Santos, mas agora são de novo invocados, para reforçar este pedido: "Recebei­nos em sua companhia, não pelo valor dos nossos méritos, mas segundo a grandeza do vosso perdão".

Que alegria para estes pobres peregrinos da eternidade, que todos somos, sermos recebidos na companhia dos santos, na presença do próprio Deus, adorado e contemplado face a face!

É este o pedido que fazemos para nós. e é também o pedido cheio de esperança e confiança que hoje fazemos por todos os defuntos, por quem oferecemos o próprio sacrifício de Cristo na Eucaristia: que Deus lhes conceda o seu perdão misericordioso e os purifique plenamente. de modo a poderem ser recebidos na companhia, transbordante de luz e felicidade. dos anjos e dos santos do Céu.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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