9 de Novembro de 2014 - Dedicação da Basílica de Latrão

A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires

1. No dia 9 de Novembro, celebramos a Catedral do Papa, que é a Basílica do Santíssimo Salvador, habitualmente chamada Basílica de S. João de Latrão, em Roma. É na Basílica de S. João de Latrão que está a Cátedra do Papa, que simboliza a sua missão de Mestre da Fé.


Ábside e Cátedra da Basílica de S. João de Latrão, Roma

Porquê Roma? Que tem Roma de especial? Para além de muitos outros motivos de interesse histórico e artístico, o que Roma tem de especial, o que tem de único é ser a Igreja de Pedro e Paulo, os dois Apóstolos que sofreram o martírio na capital do antigo Império. Ainda hoje se canta num hino litúrgico (talvez do séc. VI): "ó Roma venturosa, consagrada pelo sangue precioso destes grandes príncipes» ("O Roma felix, quae tantorum príncipum es purpurata pretioso sanguine...»). Mas a principal glória da Igreja de Roma é ser "a herdeira da Igreja mãe de Jerusalém e, enquanto Sé de Pedro. a definitiva Igreja-Mãe e o princípio de unidade de todas as Igrejas" (J. ORLANDIS). Desde o início, a Igreja de Roma teve a consciência de ser a primeira, na comunhão de todas as Igrejas, e assim foi também olhada por todas as outras Igrejas. O que a distingue não é a personalidade do seu Bispo, o "Papa de Roma" (este título vem duma palavra grega que significa pai), que pode ser empolgante, como a de João Paulo II, luminosa, como a de Bento XVI, calorosa, como a do Papa Francisco, ou vulgar e apagada, como a de muitos outros. Houve dioceses que tiveram bispos multo prestigiosos, como S. Martinho ou Santo Agostinho. Mas Roma sabe que é a primeira de todas as Igrejas. por nela se encontrar a Sé de Pedro e dos seus sucessores.

Santo Inácio, bispo de Antioquia, na Síria, quando ia a caminho de Roma para sofrer o martírio, (que ocorreu no ano 115), escreveu seis cartas a várias Igrejas, animando-as à unidade com o bispo e uns com os outros. Mas, ao escrever à Igreja de Roma, põe uma especial ênfase na sua saudação inicial, onde se destacam estas expressões: À Igreja que tem a presidência na região dos Romanos... À Igreja que preside à assembleia universal da caridade...".

Ainda no séc.II, santo Ireneu, bispo de Lyon, fala da "preponderante prioridade" da Igreja de Roma, para a qual devem convergir os fiéis de todos os lugares. Ireneu foi a Roma encontrar-se com o Papa Eleutério, para lhe transmitir o relato do martírio dos cristãos de Lyon.

E o mesmo já tinha feito S. Policarpo, bispo de Esmirna, na Ásia Menor, que se encontrou com o Papa Aniceto para tentar encontrar a solução para o problema da data da Páscoa, que dividia na altura os cristãos do ocidente e os do oriente.

Muito tempo antes, ainda no séc. I, o terceiro sucessor de Pedro, S. Clemente, escreveu uma carta à Igreja de Corinto, onde havia graves divisões, ordenando aos rebeldes, em nome da Igreja de Roma, que se submetessem aos presbíteros e fizessem penitência, para obterem o perdão e a reconciliação. Estes são apenas alguns exemplos do relevo único e excepcional da Igreja de Roma, desde os primeiros tempos, e que não deixaria de se fortalecer ao longo dos séculos, até aos nossos dias.

2. É por todas estas razões que hoje celebramos a festa da Dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador, ou de S. João de Latrão, como mais tarde passou a ser conhecida. Nela está a Sé de Pedro e dos seus sucessores (que lá residiram também até ao séc. XIV). Nela celebra o Papa a Missa da Ceia do Senhor, em Quinta Feira Santa.

Durante muitos anos, os cristãos reuniam-se em casas de famílias, que já teriam de ser relativamente amplas, para acolher um número sempre maior de cristãos. Eram autênticas "Igrejas domésticas". Já no séc. III, aproveitando os períodos de paz, começaram a ser construídos os primeiros edifícios destinados expressamente a servir como lugares de culto.

Mas as grandes basílicas foram construídas no séc. IV, por iniciativa do Imperador: a Basílica de S. Pedro, na colina do Vaticano, sobre o túmulo do Apóstolo, e a Basílica do Latrão, (no lugar de um antigo palácio da família dos Laterani), destinada a ser a catedral de Roma. Esta Igreja é, portanto, "mater omnium ecclesiarum", "a mãe e cabeça de todas as Igrejas" , como se lê na sua fachada.

Ao lado, está um baptistério, em forma octogonal, dedicado a S. João Baptista e a S. João Evangelista, que foi construído antes da própria Igreja, e onde foram baptizados inúmeros fiéis de Roma.

3. É importante conservarmos a memória de um passado que continua vivo e fundamenta o presente: nós somos hoje a mesma Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, a Igreja das perseguições e da paz, das pequenas comunidades familiares e das grandes basílicas, a mesma Igreja nascida das águas do Baptismo e reunida em volta do altar da Eucaristia.

Tal como a Igreja primitiva, a Igreja de hoje tem, de ser muito fecunda: as águas do baptismo têm de continuar a gerar muitos filhos e a produzir muitos frutos, como nos sugeria a 1ª leitura, do Profeta Ezequiel. Nós, que somos pedras vivas deste Templo, temos de lutar por sermos santos, para sermos dignos da vocação que recebemos, como dizia S. Paulo, aplicando as palavras de Jesus no Evangelho. E, por fim, quer nos reunamos em templos grandiosos ou em modestas igrejas, não podemos deixar apagar em nós a consciência de que somos familia, como se sentiam os cristãos de Roma dos primeiros tempos: comunidade de irmãos e não um grupo de pessoas estranhas, irmãos que desejam encontrar-se para celebrar a mesma fé, para aprofundar a caridade e para levar a todos os outros homens e mulheres o anúncio de Cristo. A Igreja é a nossa Casa e a nossa Família. Nela queremos viver até ao último instante, para dela passarmos à Jerusalém nova e eterna, à morada gloriosa de Deus, no Céu.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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