23 de Novembro de 2014 - Sol. de Nosso Senhor Jesus Cristo - Rei do Universo

Se Cristo reinasse...

1. Celebramos Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo. É um título solene, mas Jesus (como escreveu o sacerdote e escritor argentino Leonardo Castellani), parece não reinar muito no mundo, "visto que, se reinasse, o mundo andaria melhor".

E o mundo anda bastante mal. Generalizam-se em muitos países as leis contra a Lei de Deus e as práticas desonestas e fraudulentas contra as próprias leis dos homens. Deveremos desejar que Cristo reine mais no mundo? Sim, de resto foi essa a intenção do papa Pio XI, ao instituir esta festa, já no longínquo ano de 1929. E como é que Cristo reina sobre o mundo, sobre a esfera temporal?


Recorro agora ao excelente «post» de Rafael Vitola Brodbeck, "O sentido da festa litúrgica de Cristo Rei" (www.salvemaliturgia.com/2010/11/o-sentido-da­festa-liturgica-de-cristo.html ):

Considerado em si mesmo, o Reinado de Jesus Cristo abrange a sociedade civil, as Nações, todos os reinos do mundo. Entretanto, o exercício desse Reinado, não é directo, mas através das autoridades políticas, os Estados, que a Ele se submetem. Também através da Igreja, que os auxilia, segundo o princípio da supremacia indirecta formulado pelo Beato Pio IX, por Leão XIII, e por São Pio X, e particularmente através dos fiéis leigos, os quais têm por vocação própria ordenar as estruturas temporais segundo Deus (cf. Concílio Ecuménico Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, de 21 de Novembro de 1964, n° 31).

2. É doutrina católica que, sendo Cristo o Rei do Universo - e, portanto, também da esfera temporal -, as leis positivas civis não podem contrariar os preceitos da Lei de Deus (no caso de um Estado católico) ou simplesmente da lei natural (em todos os Estados). Antes, as leis dos Estados devem promovê-los, explicá-los, e livremente legislar no campo que lhes é próprio, nunca contradizendo os direitos divinos".

O Papa Pio XII, já após o fim da 2ª Guerra mundial, depois de lamentar o "esquecimento da lei de caridade universal, única que pode consolidar a paz, apagando os ódios e atenuando os rancores e confrontos", denuncia um outro grave erro:

" (...) Não menos nocivo se mostra o erro contido naquelas concepções que não hesitam em dispensar a autoridade civil de toda e qualquer dependência do Ser supremo, causa primeira e Senhor absoluto tanto do homem como da sociedade, e de todo o vínculo com a lei transcendente, que deriva de Deus como da sua fonte primária, e lhe concedem uma ilimitada faculdade de acção, abandonada à onda inconstante do arbítrio ou tão-somente aos ditames de exigências históricas contingentes e de interesses relativos.

"Renegada assim a autoridade de Deus e o império da sua lei, o poder civil, por consequência inevitável, tende a atribuir a si aquela absoluta autonomia que compete ao Autor Supremo, a substituir-se ao Omnipotente, elevando o estado ou a colectividade a fim último da vida, a critério sumo de ordem moral e jurídica, e interdizendo todo o apelo aos princípios da razão natural e da consciência cristã" (Papa Pio XII. Encíclica Summi Pontificatus, de 20 de Outubro de 1939, n. 38-39)

Em razão desse Reinado sobre as sociedades, as Nações e os Estados - ainda que estes não o aceitem-, é dever do cristão "militar pelo restabelecimento do Reino de Jesus Cristo na Nova Evangelização, (...) trabalhar intensamente, sem demoras nem repouso, para ajudar a Igreja a forjar nas nossas sociedades a civilização da justiça e do amor cristãos. (...) Unicamente procuramos fazer com que os homens, e por conseguinte as sociedades, qualquer que seja sua organização e seu regime, encontrem em Cristo e no Seu Evangelho a inspiração profunda de toda a sua vida" (Movimento Regnum Christi, A Caridade Evangélica).

3. O laicismo liberal contaminou de tal maneira o mundo que os Estados, hoje, querem apenas fazer a vontade da maioria - liberalismo democrático (cf. Pontifício Conselho Justiça e Paz. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. n. 569) -; ou, como aconteceu noutros tempos, a vontade do soberano - monarquia absolutista -; ou a vontade da raça -nazismo-; ou a vontade do proletariado ou do partido que diz representá-lo - comunismo e demais sistemas marxistas -; ou a vontade da Nação ­fascismo-; mas esquecem-se de fazer a vontade de Deus!

Sustentando o Reinado de Cristo sobre a esfera temporal, dizia o Papa S. João Paulo II: "É inaceitável, bem como contrária ao Evangelho, a pretensão de reduzir a religião ao âmbito estritamente privado, esquecendo paradoxalmente a dimensão essencialmente pública e social da pessoa humana. Saiam, pois, às ruas, vivam a vossa fé com alegria, façam chegar aos homens a salvação de Cristo, que deve penetrar na escola, na cultura, na vida política!" (Papa João Paulo II, Homilia na Santa Missa pela Consagração da Catedral de Almudena, 15 de Junho de 1993).

Portanto, o Reino de Cristo, que é espiritual, deve ser reflectido em todos os âmbitos e estruturas da esfera social, tanto na política como nos demais âmbitos: a cultura, a filosofia, os meios de comunicação, as artes, o lazer, o desporto, a educação, a família, o pensamento jurídico, as ciências etc. As leis humanas devem servir e favorecer o cumprimento da Lei de Deus, e a lei positiva civil nunca deveria contrariar a lei divina, a eterna ea natural.

4. "Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão", acentuou o Papa Francisco ao responder a perguntas colocadas por algumas das nove mil crianças e jovens de escolas e movimentos dirigidos por Jesuítas, com quem se encontrou no Vaticano (07.06.2013). nos cristãos não podem «fazer de Pilatos, lavar as mãos". (...) Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. (...). A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão", apontou.

Podemos fazê-lo ainda através da tomada de posição sobre as grandes questões, com os critérios da razão e da fé, com clareza e veemência, como fez ainda recentemente o Papa Francisco, a propósito dos erros que ameaçam na cultura actual o casamento e a família, ao dizer, por exemplo: "As crianças têm o direito de crescer numa família, com um pai e uma mãe, capazes de criar um ambiente apropriado para o seu desenvolvimento e para a sua maturação afectiva".

Aqui está um exemplo de luta pela efectiva presença do reino de Cristo na terra, que é o "Reino da verdade e da vida, o reino da santidade e da graça, o reino da justiça, do amor e da paz" (cf. Prefácio da Solenidade de Cristo, Rei e Senhor do Universo). Por experiência sabemos que, se ele fosse efectivamente instaurado neste mundo, a vida das pessoas e das sociedades seria muito mais feliz. Trabalhemos pela sua instauração. Viva Cristo Rei!

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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