30 de Novembro de 2014 - I Domingo do Advento

Advento: presença começada

1. Começa o Advento, palavra que vem do Latim ad-venio, chegar. A palavra latina, por sua vez, é tradução de uma palavra grega, como explicou numa das suas obras o então Cardeal J. Ratzinger, depois Papa Bento XVI. Convido-vos a ler e meditar este belo texto:


"Advento é a tradução da palavra grega parusia, que significa «presença», ou melhor, «chegada», quer dizer, presença começada. Na antiguidade o termo era usado para designar a presença de um rei ou senhor, ou também da divindade à qual se prestava culto e que presenteava seus fiéis no tempo de sua parusia.

-Ou seja, o Advento significa a presença começada do próprio Deus. Por isso, nos recorda duas coisas: primeiro, que a presença de Deus no mundo já começou, e que Ele já está presente de uma maneira oculta; em segundo lugar, que essa presença de Deus acaba de começar, ainda não é total, mas está em processo de crescimento e amadurecimento. A sua presença já começou, e somos nós, os crentes, que, por sua vontade, devemos fazê-Lo presente no mundo. É por meio da nossa fé, esperança e amor que Ele quer fazer brilhar a luz continuamente na noite do mundo. De modo que as luzes que acendermos nas noites escuras deste inverno, sejam ao mesmo tempo consolo e advertência: certeza consoladora de que «a luz do mundo» já foi acesa na noite escura de Belém e transformou a noite do pecado humano na noite santa do perdão divino; por outra parte, a consciência de que esta luz somente pode - e somente quer - continuar a brilhar, se for sustentada por aqueles que, por serem cristãos, continuam através dos tempos a obra de Cristo. A luz de Cristo quer iluminar a noite do mundo através da luz que somos nós; a sua presença já iniciada deve continuar a crescer por meio de nós. Quando na noite de Natal soar de novo o hino Hodie Christus natus est, devemos recordar que o início que foi produzido em Belém, deve ser em nós início permanente; que aquela noite santa é novamente um «hoje». Sempre que um homem permite que a luz do bem faça desaparecer nele as trevas do egoísmo (...), o Menino-Deus nasce, ali onde se actua por inspiração do amor do Senhor, onde se faz algo mais que trocar presentes.

-Advento significa presença de Deus já começada, mas ainda apenas começada. Isto implica que o cristão não olha somente o que já foi, e o que aconteceu, como também o que está por vir. No meio de todas as desgraças do mundo, tem a certeza de que a fonte de luz continua a crescer oculta, até que um dia o bem triunfará definitivamente e tudo lhe estará submetido: no dia em que Cristo retorne. Sabe que a presença de Deus, que acaba de começar, será um dia presença total. E esta certeza torna-o livre, dá-lhe um apoio definitivo (...) ".

2. Conforme o uso actual, o Advento é um tempo litúrgico que começa no Domingo mais próximo da festa de Santo André Apóstolo (30 de Novembro) e abarca quatro Domingos. O primeiro Domingo pode ser adiantado até 27 de Novembro, e então o Advento tem vinte e oito dias, ou atrasar-se até ao dia 3 de Dezembro, tendo somente vinte e um dias.

Com o Advento começa o ano litúrgico nas Igrejas ocidentais. Durante este tempo, os fiéis são exortados a prepararem-se dignamente para celebrar o Nascimento de Jesus, de maneira que as suas almas sejam dignas moradas do Redentor, que vem através da Sagrada Comunhão e da graça, e em consequência estejam preparados para sua vinda final como Juiz, na morte e no fim do mundo.

Como poderemos viver melhor o Advento? Deixo algumas sugestões:

1) Fazer – ir fazendo – o Presépio e a Árvore de Natal. São sinais expressivos e belos. Embora se possam fazer de uma só vez, também se podem ir montando aos poucos, à medida que o Natal se aproxime. E as imagens do presépio podem servir para contar e explicar a amigos de todas as idades a história do Natal de Jesus, como nos é relatada pelos evangelistas S. Mateus e S. Lucas.

2) Pedir a um sacerdote a bênção do presépio e com ela a bênção da família reunida à sua volta.

Com muito gosto irei abençoar os presépios das famílias que me convidarem a fazê-lo. Quem o desejar, pode inscrever-se numa lista com o nome do pai ou da mãe (ou o representante da família), a morada, e um número de telefone ou telemóvel, para combinar o dia e a hora da oração de bênção.

3) Colocar numa janela um estandarte de Natal. Colocá-lo significa dizer: “Aqui vive uma família cristã, nesta casa queremos receber e amar o Menino Jesus”, como observou em tempos uma das promotoras desta iniciativa, acrescentando que os estandartes pretendem ser “um pequenino contributo para a recristianização do Natal português”. Voltemos, mais uma vez, a colocar o estandarte de Natal nas janelas ou nas varandas das nossas casas, com tanto carinho e entusiasmo como nos anos anteriores.

4) Viver a Novena da Imaculada Conceição (entre 30 de Novembro e 8 de Dezembro). A Novena da Imaculada Conceição é um costume que se foi enraizando na Igreja para preparar a grande Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, que se celebra no dia 8 de Dezembro. Um dos santos que promoveram esta prática, S. Josemaria, observava que cada um poderá vivê-la na forma que considere mais oportuno; pondo mais empenho na conversação mais assídua com Nossa Senhora, com um delicado esmero na oração, na mortificação, no trabalho profissional; e procurando que os familiares, amigos e conhecidos – quantos mais melhor – se aproximem de Jesus Cristo por intermédio da nossa Mãe, Santa Maria. Na Igreja dos Jerónimos, será rezado o Terço todos os dias, no horário habitual, com o canto, no final, (na recitação da tarde), da Salve Regina.

5) Ter um propósito para cada dia.

6) Preparar bem a Confissão e confessar-se a tempo, sem deixar para o último dia ou para as últimas horas.

7) Preparar um donativo especial para os mais pobres – que, na Paróquia de Santa Maria de Belém pode ser recolhido nas respostas à «Mensagem de Natal», recebida nas casas de todos os paroquianos.

3. Começa o Advento, mas pode não ser fácil vivê-lo bem, há muitos perigos, muitos desvios, que levariam no final a um Natal sem Jesus, entre os quais o excesso de festas, a abundância desordenada e egoísta, e em geral “a desordem da sensualidade e a leviandade; o desatino da razão que se opõe ao Senhor; a presunção altaneira, esterilizadora do amor a Deus e às criaturas. Todas estas disposições de ânimo são obstáculos certos e o seu poder perturbador é grande. Por isso a liturgia faz-nos implorar a misericórdia divina. «A Vós elevo a minha alma, Senhor, meu Deus. E em Vós confio; não seja eu confundido! Não riam de mim os meus inimigos» (Salmo 24, 1-3), rezamos no Intróito. E na antífona do Ofertório iremos repetir: «Espero em Vós, que eu não seja confundido!» (S. Josemaria, Cristo que passa, n. 7).

Que o Filho de Deus nos dê a graça de O receber na sua vinda, que está hoje a acontecer, e quando esta for definitiva e plena nos permita contemplar a Sua glória, na comunhão do Pai e do Espírito Santo.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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