21 de Dezembro de 2014 - III Domingo do Advento

Obra do poder de Deus

1. 0 nascimento de Jesus foi longa mente preparado por Deus ao longo dos séculos. Hoje assistimos ao culminar dessa preparação: a anunciação do Anjo à Virgem Maria e a sua resposta de pleno assentimento ao que Deus lhe pedia. Muitos pintores e escultores nos mostram Maria em oração, no momento em que recebeu a mensagem de Deus. E assim deve ter sido. Na sinagoga, Maria escutava como todos os outros a Palavra de Deus, mas depois esta Palavra continuava a ressoar de uma forma muito intensa no seu coração, e levava-a a uma oração cheia de esperança e confiança. Maria, como alguns outros membros do seu Povo, esperava ardentemente a vinda do Messias, e pedia continuamente que essa vinda se realizasse.


Essa súplica devia ser nela constante e muito intensa. Hoje, também nós queremos imitá-la, pedindo a vinda de Deus ao nosso mundo, e suplicando ardentemente que Jesus nasça, neste Natal, no coração de todos os homens.

Era ainda muito jovem, estava já prometida em casamento a um homem da descendência de David, chamado José, mas o relato de S. Lucas mostra-nos que Maria, no mais íntimo de si mesma, sentia também um desejo de um dom total a Deus, um desejo de uma entrega exclusiva a Deus, uma aspiração interior talvez ainda um pouco indefinida, mas que o próprio Deus, no momento certo, viria esclarecer e confirmar admiravelmente.

2. O texto de S. Lucas não nos diz nada sobre as origens e os ascendentes familiares de Maria, ao contrário do que acontece com Zacarias, pai de João Baptista, mas diz-nos uma coisa extraordinária: enquanto Zacarias encontrou o mensageiro divino na solenidade do Templo de Jerusalém onde tinha ido prestar o seu serviço sacerdotal, o Anjo de Deus foi ao encontro de Maria onde ela estava, naquela aldeia perdida e esquecida onde vivia, na sua pobre casa de Nazaré.

E há ainda outra diferença essencial em relação ao anúncio a Zacarias: este é elogiado pelo seu cumprimento da Lei, e Maria é saudada simplesmente em razão da graça: "Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo". E mais adiante o Anjo dir-lhe-á: "Encontraste graça diante de Deus". «Cheia de graça» passa a ser como que o seu segundo nome. Maria é a mulher agraciada e escolhida para a missão mais sublime que alguma vez podia ser confiada a um ser humano: acolher como Mãe o Salvador, tão longamente esperado e desejado pelos homens.

Assim lhe diz o Anjo, assim o escuta Maria no mais íntimo do seu coração: "Conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus". E acrescenta: "Ele será grande, e chamar-Se-á Filho do Altíssimo". Para um coração habituado a saborear a Escritura Sagrada, como era a própria Virgem Maria, estas palavras revelam claramente que esse Menino que vai nascer é o Messias prometido. Imaginamos a sua alegria e o seu espanto: Maria reconhece nesse instante que toda a esperança do mundo se vai cumprir nela e por ela.

Mas nem por isso se torna estática ou passiva diante de Deus e do mistério que lhe foi revelado. Deseja saber como é que a essa condição de futura Mãe pode ser compatível com o desejo de entrega total a Deus que tinha acalentado no seu coração, não obstante estar já legalmente desposada com José, embora, segundo os costumes hebreus, aguardasse ainda a celebração festiva do casamento e o início da vida em casal. Sem hesitar, pergunta: "Como será isso...?"

Esta pergunta significa que Maria "não vê nenhum modo de se tornar mãe do Messias pela via da relação conjugal" (Bento XVI). E o certo é que a sua pergunta foi aceite, porque, ao contrário de Zacarias, não manifesta dúvida ou desconfiança, mas sim o desejo de conhecer melhor o querer de Deus. E o Anjo responde-lhe "O Espírito Santo virá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus".

Esta resposta significa que a geração desse Menino acontecerá por obra de Deus e pura graça. É o poder divino, e não a vontade do homem, que traz ao mundo o Filho de Deus. Jesus não é um filho programado ou simplesmente gerado pelo dinamismo natural do encontro de dois seres humanos: a sua concepção e nascimento é obra do poder de Deus e puro dom, primeiro acolhido no seio puríssimo da Virgem Santa Maria, e agora oferecido à fé, ao amor e à gratidão de todos os homens.

3. Ao começarmos a última semana do Advento, que culmina na festa do Natal, sentimos que uma das melhores formas de o celebrarmos é aprofundar e avivar em nós a gratidão. Com a avalanche de prendas, as pessoas podem achar 'natural' ter tantas coisas.

Seria bom ensinar as crianças a serem muito agradecidas por todos os presentes que recebem, para não se tornarem egoístas, e também a saberem partilhar de verdade com os que têm menos. Mas todos precisamos de cultivar uma atitude profunda de acção de graças pelos dons que recebemos, e acima de tudo por esse dom inteiramente imerecido que é o Filho de Deus, Jesus, que é o Cristo, o Messias, acolhido pela fé e pela obediência virginal de Santa Maria, Nossa Senhora. E tudo o que de verdadeiro e de belo acontece no Natal, o convívio, a amizade, a festa, o gosto de estamos juntos, nasce daqui: de reconhecermos o puro dom que é para nós Jesus. e desejarmos com toda a alma partilharmos com os outros a alegria de O termos no meio de nós como nosso Salvador.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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