28 de Dezembro de 2014 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

A família e a cultura de hoje

1. No dia da Festa da Sagrada Família, podemos tentar dizer em poucas palavras o que é a família. A família é uma comunidade que nasce de uma comunhão: uma comunidade, que pode chegar a abranger muitas pessoas, e que nasce da comunhão de duas pessoas, um homem e uma mulher, unidos pela aliança do matrimónio.

Já agora, será também possível definir o que é o matrimónio? Sim: é precisamente essa aliança pela qual "um homem e uma mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada ao bem dos cônjuges e à geração e educação dos filhos" (cf. Código de Direito Canónico, c. 1055).

Portanto, a comunhão de pessoas constituída pelo matrimónio, e que Jesus Cristo elevou à dignidade de sacramento, está na origem dessa comunidade inconfundível e insubstituível que é a família.


Na Carta às famílias (de cuja publicação se completaram, em Fevereiro passado, 20 anos), o Papa S. João Paulo II escreveu: "A família é uma comunidade de relações interpessoais particularmente intensas: entre cônjuges, entre pais e filhos, entre gerações. É uma comunidade que há-de ser garantida de modo muito particular. E Deus não encontra garantia melhor que esta: "Honra pai e mãe»" (n. 15).

A esta ordem dada por Deus se refere repetidamente o livro do Eclesiástico (Ben-Sirá) no texto que ouvimos na 1ª leitura da Missa deste dia.

Estamos diante do 4º mandamento do Decálogo (Êxodo 20, 12). Virá no sítio certo? Depois dos mandamentos que se referem à adoração e ao amor a Deus acima de todas as coisas e ao culto que lhe é devido, o 4º mandamento diz-nos: «Honrar pai e mãe». Porquê este lugar na ordem dos mandamentos? "Porque eles são para ti, em determinado sentido, os representantes de Deus, aqueles que te deram a vida, que te introduziram na existência humana: numa família, numa tradição, numa cultura. Depois de Deus, são eles os teus primeiros benfeitores. Se só Deus é bom, antes, é o próprio Bem, os pais participam de modo singular desta bondade suprema. E por isso: honra os teus pais!" (ibid.).

Por que é que se diz «honra» e não «ama»? A honra tem mais a ver com a justiça. Honrar os pais é uma questão de justiça. Mas a justiça só se cumpre plenamente no amor, e por isso a honra é inseparável do amor e desemboca no amor.

A Lei de Deus só compromete os filhos a honrar os pais? "Em sentido literal, sim. Indirectamente, porém, podemos falar também da honra devida aos filhos por parte dos pais. «Honra» quer dizer: reconhece!" (ibid.). "O mandamento «honra pai e mãe» diz, indirectamente, aos pais: 'Honrem os vossos filhos e as vossas filhas. Eles merecem-no porque existem, merecem-no por aquilo que são: isto vale desde o primeiro instante da concepção" (ibid.).

A honra é o reconhecimento da pessoa, o reconhecimento do homem pelo simples facto de ser homem, 'este' homem, 'esta' mulher. Sem ela, os direitos do homem são frágeis e ineficazes.

A honra tem vantagens. "Quem honra seu pai terá longa vida ", diz Ben-Sirá. Mas a grande vantagem da honra que os filhos prestam aos pais e que os pais prestam aos filhos e a própria comunidade familiar, que se fortalece e consolida. "A família realiza, antes de mais, o bem de 'estarem juntos', bem por excelência do matrimónio (daí a sua indissolubilidade) e da comunidade familiar".

Estarem juntos como família significa "estarem ao serviço uns dos outros, criando espaço para a afirmação e o reconhecimento de cada um como pessoa: desde a criança recém-nascida ou ainda por nascer, ao doente grave, ao deficiente, ao idoso, de que às vezes a sociedade gostaria de se desembaraçar, passando pelo adolescente e pelo jovem, no entusiasmo da construção do seu próprio futuro» (ibid).

2. Hoje rezamos confiadamente por todas as famílias do mundo: pelas que estão em dificuldade, pelas famílias migrantes ou refugiadas, pelas que enfrentam a guerra, a extrema pobreza ou a destruição dos seus bens. Rezamos por aquelas em que parece ter morrido o amor e prevalecido o egoísmo. Rezamos também pelas que se constroem por entre as normais dificuldades do caminho, na alegria e entre-ajuda. Para todas pedimos as graças de que mais necessitam. E acima de tudo, para todas as famílias do mundo, peçamos a graça de conhecerem cada vez mais intimamente o Pai que está nos céus, "do qual toda a paternidade e maternidade recebe o nome" (Efésios 3. 16), e assim se tornem um espaço de crescimento, de liberdade, de serviço e de compromisso. "A Sagrada Família, ícone e modelo de cada família humana ajude cada núcleo familiar a aprofundar a sua missão na sociedade e na Igreja, mediante a escuta da Palavra de Deus, a oração e a partilha fraterna de vida!" (S. João Paulo II, Carta às famílias, n. 23).

3. Assim nos convidava a rezar S. João Paulo II há 20 anos. Desde então, porém, muita coisa mudou, e piorou. Hoje, não podemos ser inconscientes das doenças da nossa sociedade. E não podemos deixar de tomar consciência de cinco perigos mortais da cultura de hoje, que podem ser enunciados assim:

1. O abandono ou relativização da família
2. o extermínio dos mais frágeis
3. A solidão que leva ao desespero
4. A sexualização infantil
5. A Instrumentalização da mulher.

4. Os católicos podem e devem abraçar o que existe de bom na cultura actual, mas devem ter também a capacidade de agir nela, para a transformar, em conformidade com o que claramente decorre deste diagnóstico, que resulta evidente para a razão e ainda mais à luz da fé.

A conclusão só pode ser uma, como escreveu D. Juan Antonio Reig Pia, Bispo de Alcalá de Henares (Espanha), numa corajosa carta pastoral, datada de 26 de Dezembro passado, festa de Santo Estêvão, o primeiro mártir:

"É urgente promover a gestação de autênticos cristãos e de famílias católicas capazes de impulsionar uma cultura respeitosa da vida, do matrimónio e da família. Também é necessário impulsionar uma autêntica educação afectivo­sexual das crianças, adolescentes e jovens, como vocação ao amor e ao dom de si mesmos".

Que o Filho de Deus feito homem nos conceda a vontade e a capacidade de o realizar, por intercessão de sua Mãe, a Virgem Santa Maria e de S. José, com quem constituiu a Sagrada Família de Belém e Nazaré, modelo e inspiradora de todas as famílias humanas.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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