4 de Janeiro de 2015 - Epifania do Senhor

O essencial é saber para onde vamos

1. Quando fazemos uma viagem, o que importa verdadeiramente não é o ponto de partida, é o ponto de chegada. Quando viajamos de avião ou de comboio, o aeroporto não interessa nada, a gare de caminho­de-ferro onde iniciamos a viagem não interessa nada. O que interessa é chegarmos em segurança à cidade para onde vamos, e em vista da qual entrámos no comboio ou levantámos voo.


"Que importa - pergunta-se Santo Agostinho - ao viajante que partiu de Roma, se vier a esquecer-se do seu porto de embarque? O essencial para ele é saber para onde vai, e evitar os escolhos de que a sua rota está semeada" (O livre arbítrio, III, 21, 61).

O essencial para o viajante é saber para onde vai. Tudo o resto é secundário.

Os Magos do Oriente sabiam para onde iam, porque uma estrela os conduzia. Nada lhes importava, senão chegar, e oferecer os seus presentes ao Rei que acabava de nascer.

E nós, será que sabemos para onde vamos? Os homens de hoje sabem para onde vão?

Muitos não sabem, e pensam que já chegaram.

Mas a Terra, e esta vida, com todos os seus encantos - e também com os perigos, os escolhos e os acidentes do caminho - não é ainda o nosso ponto de chegada.

Quando muito é como uma 'área de serviço', daquelas que há nas auto-estradas. Paramos uns momentos, refazemos as forças, tomamos uma refeição, descansamos, mas não é para ficar ali todo o resto do dia ou toda a noite. Temos de nos fazer à estrada, porque precisamos de chegar. E assim que arrancamos,já não nos lembramosdoque deixámos para trás.

Estamos aqui neste mundo para realizar muitos fins, que são bons e valem por si mesmos, mas sobretudo, como os Magos do Oriente, para chegar junto do Menino - Deus feito homem - e para O ver, para O conhecer, para O adorar e amar.

Quando O encontramos, também nos encontramos a nós mesmos. e descobrimos que valeu a pena todo o caminho que fizemos. Que deslumbramento! Encontrar Jesus: insuperável revelação! E sentimo­nos renovados, renascidos, e regressamos, naturalmente, "por outro caminho".

2. Muita gente vive como se vivesse num aeroporto, e por ali ficasse, mas sem nunca levantar voo, sem nunca partir. À sua volta haveria sempre um movimento incrível, uma agitação fabulosa, mas seria horrível viver ali.

É assim que muita gente vive, mas essa não é a melhor forma - ou a forma certa - de viver.

É bom viver neste mundo, e até amá-lo apaixonadamente - guiados pela lei de Deus, iluminados pelo Evangelho, transformados pela graça - mas sem nunca perdero espírito do viajante, ou a inquietação do peregrino, que sabe que deve continuar a caminhar, até chegar à meta.

Hoje, felizmente, não temos de perguntar a Herodes onde está o Rei recém-nascido, porque O encontramos vivo e presente, na sua Igreja. E não temos sequer de nos esforçar muito a procurar o caminho, porque Ele próprio Se fez caminho:

"Queres conhecer o caminho? Ouve que o Senhor disse em primeiro lugar: Eu sou o caminho. Antes de dizer-te para onde, disse-te por onde. Eu sou o caminho. Caminho para onde? A verdade e a vida. Disse primeiro por onde hás-de ir, e logo a seguir indicou para aonde hás-de ir. «Eu sou o caminho, Eu sou a verdade, Eu sou a vida».

Permanecendo junto do Pai, é verdade e vida. Revestindo-Se da nossa Carne, fez-Se caminho.

Não te é dito: «Esforça-te por encontrar o caminho, para que possas chegar à verdade e à vida»; não é isso que te é dito. Levanta-te, preguiçoso! O próprio caminho veio ao teu encontro e te despertou do sono em que dormias, (se é que em verdade te despertou). Levanta-te, e caminha.

Talvez tentes andar e não consigas, por te doerem os pés. E, por que motivo te doem os pés? Por acaso andaram por caminhos tortuosos, seguindo os impulsos da avareza? Mas o Verbo de Deus curou também os coxos. «Eu tenho os pés sãos, dizes tu, mas não vejo o caminho». Lembra-te que Ele também iluminou os cegos"

(SANTO AGOSTINHO, Homilias sobre o Evangelho de São João [34, 9); tradução [adaptada) da Liturgia das Horas, II, Domingo IV da Quaresma, Ofício de Leitura, Segunda Leitura).

3. É preciso avançar, não parar nunca. E a quem parecer que se contenta com esta «área de serviço» onde estamos, por ser agradável e confortável, animemos a não ficar, e a fazer-se ao caminho que leva a Deus, a não se desviar, a corrigir a rota, se necessário, a fugir dos perigos, e a continuar a viagem, até encontrar o abraço do Pai.

Para nós, caminhantes, Deus quis revelar­Se no Filho feito homem, no Verbo feito carne, Jesus Cristo, a Quem, por nossa parte, não nos cansaremos nunca de procurar, até termos, como os Magos, a alegria de O encontrar, nos braços de Maria, e de O adorar em cada dia, na esperança de O podermos vir a contemplar e louvar, por toda a eternidade.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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