18 de Janeiro de 2015 - Domingo II do Tempo Comum

A terceira Epifania

1. Convido-vos a reviver hoje a terceira Epifania, as núpcias de Caná, nas quais Jesus, transformando a água em vinho, «manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele» (João 2,11).


O ciclo anual de leituras (da liturgia romana «mais antiga») propõe sempre este Evangelho no 2º Domingo depois da Epifania. Já o ciclo trienal (A-B-C) só o propõe no Ano C. Mas. tendo em conta o próximo Sínodo dos Bispos, a realizar em Outubro do corrente ano, e que terá como tema «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo», convido-vos a reflectir hoje sobre este mesmo Evangelho das Bodas de Caná.

Este casamento em que Jesus esteve, acompanhado por sua Mãe e pelos discípulos, parece, em alguns aspectos, muito diferente dos de hoje, sobretudo neste pormenor: a certa altura faltou o vinho, o que seguramente não aconteceria nos casamentos de hoje.

Mas, em contra partida, a muitos casamentos de hoje, embora não lhes falte o vinho, falta-lhes o mais importante: a presença de Jesus. Até há casais em que, sendo tanto ele como ela baptizados, sendo ambos cristãos, não convidam Jesus para o seu casamento, não se casam "no Senhor" (cf. 1 Coríntios 7,39), não se casam na Igreja.

Mas, felizmente, também há muitos casais que convidam Jesus, e não apenas convidam, pedem que seja Jesus a uni-los e a abençoá-los, para que o seu amortenha a graça de ref!ectir um outro amor muito maior, infinitamente maior, que é o próprio amor de Jesus Cristo pela sua Igreja e portoda a humanidade.

2. Por que é que há casais cristãos que não «convidam» Jesus, que não se casam na Igreja? Verificam-se sobretudo dois casos. Primeiro: alguns gostariam de o fazer, mas não o podem fazer. E o caso em que um deles, o marido ou a esposa, (ou às vezes ambos), já teve (ou já tiveram) um casamento anterior celebrado na Igreja, e que, tendo sido celebrado para a vida inteira, continua válido diante de Deus (pelo menos até prova em contrário).

Às vezes a Igreja declara «nulos» certos casamentos, o que significa que, por alguma razão grave, não chegaram a existir, ao contrário do que se julgou. E, portanto, as pessoas que, aparentemente, os celebraram, afinal não chegaram a contrair matrimónio, e poderão vir a casar-se na Igreja, no futuro, se o desejarem.

No entanto, os casos em que essas «causas de nulidade» não existem, e em que houve apenas um divórcio civil, são diferentes: essas pessoas não podem voltar a casar-se na Igreja, porque o casamento que celebraram um dia, tendo sido válido, foi para toda a vida. Como foi Deus a uni-los, nenhuma autoridade humana os pode separar, como ensinou Jesus Cristo: "Não separe o homem o que Deus uniu" (Marcos 10, 9).

E se essas pessoas se quiserem casar de novo? Nesse caso. como é evidente, não podem «convidar.. Jesus, não se podem casar na Igreja. Poderão apenas. eventualmente, unir-se diante de uma autoridade civil, que reconheceu o divórcio anterior, mas não na Igreja. Mas isso será para elas um grande desgosto, um grande sofrimento!

É verdade. Todos estamos conscientes disso: a Igreja, o Papa, todos nós. Mas a Igreja sente o dever de não desobedecer às palavras de Jesus no Evangelho, confirmadas noutras passagens do Novo Testamento, em especial de S. Paulo.

3. E se essas pessoas se voltarem a casar civilmente: podem vir à Igreja, podem participar na Eucaristia? É evidente que sim. Embora não possam comungar, (por estarem num estado de pecado grave objectivo), podem vir à Missa e a quaisquer celebrações litúrgicas, podem ouvir a palavra de Deus, podem rezar, podem pedir o baptismo para os seus filhos e educá-los na fé. E devem ser convidadas a fazê-lo, "a fim de implorarem, dia após dia, a graça de Deus".

Este ensinamento e estas últimas palavras são do Papa S. João Paulo II, numa importante Exortação Apostólica chamada Familiaris Consortio (n. 84), escrita em 1981.

Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis, de 27 de Fevereiro de 2007, Bento XVI precisa: "Os divorciados recasados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa, ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos" (n. 29).

4. E passemos ao segundo caso. Também há a situação de casais que podiam convidar Jesus e não o fazem. Ambos são baptizados, não renunciaram à sua fé, não têm nenhum impedimento, mas não convidam Jesus, não se casam na Igreja. Por que será?

Talvez tenham medo de uma entrega total, ou de uma fidelidade vitalícia, talvez não estejam dispostos a dar-se totalmente. Na verdade, para um homem e uma mulher se possam casar, têm de estar dispostos a dar-se totalmente, de tal modo Que cada um já não se pertence a si, é do outro.

E, talvez por medo, alguns, mesmo querendo dar­se totalmente, preferem viver numa «união de facto» ou num casamento civil. Fazem bem? Não, não fazem, e por duas razões.

Primeira: porque, ao viver assim, dão a impressão de que a sua união não tem nada a ver com a sua fé ou com a sua condição de cristãos. É como se fosse um assunto puramente privado.

Segunda: porque, se o seu amor é sincero, se as suas disposições são verdadeiras, deviam confiar mais em Jesus. Como aconteceu nas bodas de Caná, Quando Jesus é convidado, transforma a água em vinho, ou seja, no caso do matrimónio, eleva o que é puramente humano ao plano divino, transforma o natural em sobrenatural, e dá a sua graça em todas as situações da vida, nas realidades mais normais ou nas horas de sofrimento e provação.

Igualmente podem estar certos de que nunca deixarão de sentir a intercessão materna de Santa Maria, Nossa Senhora, que continuará a pedir por nós ao seu Filho, como fez em Caná.

Hoje, no Céu, Nossa Senhora não abandonou a sua missão, não se esquece de nós. Que continue a interceder por todos, pelos casais, pelas famílias, pelas crianças e jovens, pelos doentes, e também por todos os que aceitam pôr a sua vida ao serviço do Reino de Cristo na terra.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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