25 de Janeiro de 2015 - Domingo III do Tempo Comum

Deus intervém na História

1. 0 Evangelho de hoje transmite a emoção e a novidade dos primeiros gestos e das primeiras palavras de Jesus. "Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus". A palavra Evangelho, que nos aparece já no Livro de Isaías (40,9; 41, 27), significa «boa notícia». Jesus tem uma boa notícia, uma notícia excepcional a transmitir aos homens: "Cumpriu-se o tempo. e está próximo o Reino de Deus". Chegou o momento, Deus aproximou-se dos homens, Deus intervém na história dos homens, Deus faz sua a vida dos homens, de uma forma nova, mais intensa que nunca, plena, definitiva, irrevogável.

O Evangelho, portanto, que hoje é um livro (ou um conjunto de livros), não começa por ser um livro: o Evangelho é uma acção de Deus, que vem salvar os homens. O Evangelho é o próprio Jesus Cristo, que S. Marcos apresenta, desde o início, como o Messias prometido e esperado, como o próprio Filho de Deus (1, 1).


Se Deus se aproximou dos homens, a vida dos homens tem de mudar. O Reino de Deus exige uma nova orientação de vida: "Arrependei-vos". E exige uma nova confiança, um assentimento interior sem reservas, uma entrega total: "E acreditai no Evangelho". Estas palavras, ditas por Jesus num determinado local e num preciso momento da história, continuam a ressoar hoje no coração da Igreja. Continuam a ser hoje para nós uma graça e um desafio. Como escreveu o Papa S. João Paulo II, "o completar-se do tempo de Deus traduz-se num apelo à conversão" (O Mistério da Encarnação, n. 11).

Animado por estas palavras, peço a cada um que se sinta permanentemente chamado à conversão. Trata-se de um apelo que Deus não desiste de nos dirigir: um apelo de cada instante da nossa vida. Às vezes, quando fazemos um telefonema, se a outra pessoa não atende, ao fim de algum tempo, desligamos; aliás, a partir de certa altura, se não somos atendidos. a própria ligação termina. Deus, porém, não desiste. Mesmo quando não atendemos logo, continua a chamar. Já respondemos?

Para atingir esta conversão, o primeiro passo é o exame de consciência. "Por ele, cada pessoa é confrontada com a verdade da sua própria vida; e descobre assim a distância que separa as suas acções do ideal que se tinha proposto" (ibid., n. 11). Vem a seguir, naturalmente, a pena e a dor pelo mal feito, que não é simples sentimento de culpa: é «dor de amor», que leva a reconhecer os pecados e a confessá­los. no sacramento da Penitência, com sincero arrependimento e desejo de mudança. E não se trata de um simples gesto simbólico: "confessando os seus pecados, o crente recebe verdadeiramente o perdão, e pode tomar parte de novo na Eucaristia, como sinal da recuperada comunhão com o Pai e com a sua Igreja" (ibid., n. 9).

2. E depois? Depois, começamos de novo. Explicava ainda S. João Paulo II: O perdão concedido por Deus "implica como consequência uma real mudança de vida, uma eliminação progressiva do mal interior, um renovamento da própria vida" (ibid.. n. 9). No início do mês, começámos com, grande entusiasmo um Novo Ano. E agora, tudo voltou à rotina? Em grande medida, sim, é inevitável.

Mas é necessário que haja, da nossa parte, uma disposição de luta constante, um desejo de conversão efectiva, um compromisso de mudança que se note, que se veja, concretamente naqueles pontos fracos, que podem ser os mesmos de sempre, mas nos quais desejamos. com a ajuda de Deus, melhorar de uma vez portadas. É preciso que cada um pergunte: Quais são os meus pontos fracos? E é preciso que cada um responda: desta vez é que é, desta vez é que me vou converter, desta vez é que vou tomar a sério o chamamento de Jesus e a graça que Ele me oferece.

A Igreja gosta de nos lembrar que não estamos sós: "o cristão não está sozinho no seu caminho de conversão" (ibid., n. 10). Na comunidade cristã, apoiamo-nos e desafiamo-nos uns aos outros para sermos melhores. Além disso, há um vínculo misterioso entre todos os crentes, na unidade do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Há uma circulação, um verdadeiro intercâmbio de bens espirituais: a santidade de um aproveita aos outros, numa medida muito superior ao mal que o pecado de um pode causar aos demais.

Os frutos do nosso esforço de conversão serão, com certeza, mais amor a Deus e mais atenção aos outros, sobretudo aos mais pobres e necessitados; mais empenho apostólico e evangelizador; mais amor à Igreja e mais desejo de a servir eficazmente; mais unidade e amor na família e em cada casal; mais liberdade interior para aceitar, quando Jesus chamar, o apelo a uma entrega total ao seu serviço, como Simão e André, como Tiago e João; e, para todos, um profundo desejo de santidade, um compromisso sincero de mudar de vida e de começar de novo, todos os dias.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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