22 de Fevereiro de 2015 - Domingo I da Quaresma

O apelo e graça da Quaresma

1. À primeira vista é estranho que Satanás tentasse Jesus, como diz S. Marcos no Evangelho de hoje. Como ousou fazê-lo, como se atreveu?

Mas Satanás apercebeu-se de algumas debilidades da humanidade de Jesus, como por exemplo, depois do longo jejum que fez no deserto, a fome ou o cansaço. E por isso atreveu-se a tentar o Filho de Deus, feito homem como nós. Durante os quarenta dias que Jesus passou no deserto, estas tentações devem ter sido frequentes, quase constantes, como dá a entender S. Marcos, que diz: "era tentado por Satanás". E voltaram a acontecer de novo mais tarde, através de «colaboradores» de Satanás, como na altura em que Jesus estava já crucificado, e alguns homens que passavam, O insultavam, e Lhe diziam: "«Salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz»" (Mc 15,30).


Jerome Nadal, As tentações de Cristo

Há tentações exteriores e interiores. As tentações interiores implicam quase sempre uma certa cumplicidade de quem as sofre, e talvez um início de pecado, mas as tentações de Jesus são apenas exteriores, vêm de fora, de Satanás ou dos seus «aliados». As tentações que Lhe são feitas não encontram em Jesus nenhuma cumplicidade ou anuência interior. Não encontram nenhuma ressonância no seu íntimo. Na sua inteligência e na sua vontade humana não há nenhum princípio de cedência, nem sequer ao de leve. Mas nem por isso as tentações de Jesus deixam de representar um desafio tremendo, uma possibilidade de desvio, uma hipótese terrível de infidelidade, que podia ter sido aceite, se Jesus quisesse.

2. Mas Jesus não quis, e às tentações que Satanás Lhe ousou propor, respondeu com a sua firme decisão de fazer a vontade do Pai. E qual foi o resultado final? O resultado foi a alegria serena de uma grande vitória. Diferentemente de S. Mateus e S. Lucas, S. Marcos resume em poucas palavras o que aconteceu, e não descreve os diversos momentos da luta que se travou, mas dá-nos a imagem final da profunda paz e harmonia que envolvia Jesus no deserto: "Vivia com os animais selvagens, e os anjos serviam-No".

O deserto é um local desolado e perigoso, mas Jesus, embora sujeito às tentações de Satanás, viveu no deserto e de lá partiu numa harmonia perfeita consigo mesmo e com o mundo, tanto material como espiritual. Da luta com Satanás, que travou e venceu, resultou para Jesus uma profunda paz. Não há nenhuma divisão, nenhum desequilíbrio no coração e na vontade humana de Jesus, mas sim uma obediência filial perfeita.

Pode dizer-se que, graças à vitória de Jesus, voltou a estar em vigor a aliança estabelecida entre Deus e os homens, de que hoje nos fala a primeira leitura, do livro do Génesis. Deus estabeleceu com Noé, que representa toda a humanidade, uma aliança de paz, simbolizada no arco-íris que foi visto sobre as nuvens. No deserto da Judeia, árido e inóspito, não se vê, obviamente, o arco-íris, mas o Céu e a Terra estão agora unidos no coração de Jesus, e Deus, através do seu Filho, vai voltar a oferecer a todos os homens a graça e a paz.

Mas não é esta harmonia e paz que todos desejamos? Por que será tão difícil consegui-la? Por Que há sempre tanta insegurança e inquietação nos corações humanos? A inquietação e a desarmonia decorrem sempre de se ceder à tentação que nos quer separar de Deus e da sua vontade, do amor verdadeiro e do serviço aos outros.

3. Quando cedemos à mentira, perdemos a paz. E porque sabemos que assim é, aqui estamos de novo, humildemente, no início da Quaresma, dispostos a retomar a luta. Esta luta pode ser por vezes muito dura, mas não podemos ceder ao mal. As vezes corre-se o risco de pensar que podemos ser cristãos e pagãos ao mesmo tempo, que podemos servir a Deus e aos ídolos. Mas a Quaresma é o tempo para nos libertarmos dos ídolos, dos falsos deuses. Quais são esses deuses, quais são esses ídolos que nos escravizam? A Quaresma é o tempo para nos encontrarmos na verdade do Que somos aos olhos de Deus. A opção pela verdade é o único caminho de liberdade e de paz.

A luz da fé permite-nos compreender ainda melhor aquilo Que somos e como devemos viver. Ao longo da vida, podemos muitas vezes ser tentados, e talvez alguns sintam que cederam e se desviaram do caminho. Mas é sempre possível voltar e recomeçar. Por isso Jesus nos diz hoje também: "«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»". É este o apelo e a grande graça da Quaresma: uma fé mais profunda e uma sincera conversão. A fé é dom de Deus, mas a conversão exige esforço e luta. Mas vale a pena este esforço para sermos fiéis, para sentirmos em nós, unidos a Jesus ressuscitado, na Páscoa que se aproxima, a alegria da vitória e uma profunda paz.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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