8 de Março de 2015 - Domingo III da Quaresma

Defender a «cultura do matrimónio»

1. Deus vive na nossa alma em graça, por isso também nós somos um templo, e neste templo não pode haver negócios. Aqui não se pode comprar nem vender. Primeiro, porque tudo o que recebemos de Deus não tem preço. E depois, porque tudo o que Lhe pudermos dar, será sempre pouco! "Que pouco é uma vida para oferecê-la a Deus!...", escreve S. Josemaria Escrivá, nesse precioso livro chamado Caminho (n. 420).


Julius Schnorr von Carolsfeld, Jesus purifica o Templo (1860)

Jesus aceitou que o templo do seu corpo fosse destruído pela morte, mas, ao terceiro dia, este templo foi reerguido pela ressurreição. Nós queremos imitá-Lo. Está na altura de não regatearmos com Deus, e de Lhe dizermos com toda a verdade: «Senhor,já que me deste tudo - a vida, a fé, a Tua graça, além de tantos outros bens, espirituais e materiais - que Te posso eu negar?

Há um mínimo que Deus pede a todos os homens: cumprir os Dez Mandamentos, que foram confirmados e ao mesmo tempo actualizados com a vinda de Jesus ao mundo.

Um caso de actualização é o domingo, que toma o lugar do sábado. Escreve Santo Inácio de Antioquia, (que foi mártir em Roma, no ano 107): "Aqueles que tinham vivido na antiga ordem de coisas, chegaram à nova esperança, não guardando já o sábado, mas sim vivendo segundo o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio d' Ele e da sua morte - o que alguns negam -. Por este mistério recebemos a fé, e por isso aguardamos a pé firme, para sermos encontrados como discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre" (Carta ao Magnésios, IX, 1). Por isso, este mandamento formula-se hoje assim: "Santificar os domingos e festas de guarda".

2. E como os santificamos? Participando na Missa, mesmo sem eventualmente poder comungar. O Catecismo da Igreja Católica ensina que "a celebração dominical do Dia e da Eucaristia do Senhor está no coração da vida da Igreja. O domingo, dia em que por tradição apostólica se celebra o Mistério Pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como dia de festa de preceito por excelência" (n. 2177) Portanto, o católico tem a obrigação de participar da celebração dominical. Mas, em que consiste esta celebração? O mesmo Catecismo ensina: "O mandamento da Igreja determina e especifica a lei do Senhor: «Aos domingos e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da missa». Satisfaz o preceito de participar da missa quem assiste à missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia da festa ou à tarde do dia anterior" (n. 2180). A celebração que cumpre o preceito é a Santa Missa, e o motivo é bastante simples, pois é a "Eucaristia do domingo [que] fundamenta e sanciona toda a prática cristã", diz o Catecismo. E continua dizendo que, "por isso, os fiéis são obrigados a participar na Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebés) ou se forem dispensados pelo pastor próprio. Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação, cometem pecado grave" (n. 2181).

3. Um outro exemplo de actualiz~ção e elevação é o que se refere ao Matrimónio. É evidente que continua em vigor o mandamento: "Não cometerás adultério" (Êxodo 20, 14), de resto confirmado no Novo Testamento (Romanos 13,9). Mas o matrimónio foi confirmado na sua realidade natural e elevado por Jesus Cristo ao plano sobrenatural. Quando se celebra o matrimónio, o esposo e a esposa, pelo seu recíproco consentimento, estabelecem entre si uma aliança de toda a vida, um «pacto» indissolúvel. Não se pode dizer que se dão totalmente um ao outro - porque só a Deus é que alguém se pode dar totalmente - mas estabelecem uma plena comunhão das suas pessoas, que se torna sinal da união entre Cristo e a Igreja. O casamento não é um «papel», é uma aliança entre duas pessoas, um homem e uma mulher, que Deus reconhece e abençoa.

Por isso, antes do casamento, ensina a Igreja, "os noivos são chamados a viver a castidade na continência. Eles farão, neste tempo de prova, a descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem um ao outro de Deus. Reservarão para o tempo do matrimónio as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade" (n. 2350).

4. O casamento tem três bens, como os definiu luminosamente Santo Agostinho. O primeiro bem são os filhos; o segundo bem é a fidelidade; o terceiro bem é a permanência (na linguagem de Santo Agostinho: proles, fides, sacramentum).

Mesmo que o primeiro bem, por razões de saúde ou outras, não se possa verificar, é inegável a intrínseca vocação do matrimónio para a geração de novos seres, e a consequente responsabilidade para com os filhos que essa união produz. A fidelidade reflecte e confirma uma dedicação exclusiva, e a permanência é sinal de uma realidade sobrenatural, a aliança entre Jesus Cristo e a Igreja, sua Esposa e nossa Mãe: é um compromisso sagrado.

Elevado ao plano sobrenatural, "o Matrimónio é um Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, que estabelece uma união santa e indissolúvel entre o homem e a mulher, e lhes dá a graça de se amarem um ao outro santamente, e de educarem cristãmente seus filhos" (Catecismo de S. Pio X, n. 826).

Todos, solteiros, viúvos e casados, consagrados e sacerdotes, devemos defender a "cultura do matrimónio", cujo declínio é evidente no mundo actual, com os muitos e graves danos ao bem comum e a toda a sociedade que daí decorrem.

Ao lutar neste campo, e em muitos outros, estaremos a tomar ao nosso cuidado este mundo, para o tornarmos melhor, mais conforme com o plano de Deus: é o mínimo que podemos fazer, já que o Filho de Deus nos deu tudo, e deu a Sua vida por nós.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo