22 de Março de 2015 - Domingo V da Quaresma

O grão de trigo que morre para dar fruto

1. "Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto" (João 12, 24).

Assim respondeu Jesus àqueles gregos que O queriam conhecer, para que ficassem desde logo sintonizados com as suas disposições e sentimentos mais íntimos.


O grão de trigo representa o próprio Jesus, que - comenta Santo Agostinho - "falava sobre Si mesmo. Ele próprio era o grão que havia de morrer e de multiplicar-se: morrer, pela infidelidade dos judeus: multiplicar-se, pela fé dos povos".

Depois, exortando a que se seguissem os passos de sua paixão, diz: "Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna".

"Grande e admirável sentença", comenta ainda Santo Agostinho: há uma forma de amar a vida que nos leva a perdê-la, e uma forma de a desprezar - ou melhor, de a 'relativizar' - que nos leva a conservá-la! "Se tu a tiveres amado mal, odiaste-a; se a tiveres desprezado bem, então amaste-a. Felizes os que a desprezaram conservando-a, a fim de a não perderem amando-a».

2. No precioso livro de pensamentos chamado Caminho, escreve S. Josemaría Escrivá: "Se o grão de trigo não morre, permanece infecundo. - Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem gradas? - Que Jesus abençoe o teu trigal!" (n. 199).

Esta nossa forma de morrer para dar fruto, chama-se mortificação. Uma das melhores formas de mortificação é o jejum de (certos) alimentos. Escreveu Bento XVI: "Privar-nos, por vontade própria, do prazer do alimento e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza debilitada pelo pecado original, cujos efeitos negativos afectam toda a personalidade humana".

No entanto, o núcleo das mortificações que o Senhor nos pede "está quase sempre nas tarefas quotidianas. Muitas vezes, essas oportunidades nascem com o próprio dia - levantar-nos à hora prevista, vencendo a preguiça nesse primeiro momento - e estendem-se ao longo das horas de trabalho e relacionamento. (...)

Além das mortificações chamadas passivas, que se apresentam sem as procurarmos, existem as mortificações que nos propomos e procuramos, e que se chamam activas. Dentre estas, têm especial importância para o progresso interior e para conseguirmos a pureza de coração as mortificações que se referem aos sentidos internos:

"Em primeiro lugar, a mortificação da imaginação, evitando o monólogo interior - em que a fantasia corre à solta - e procurando transformá-lo em diálogo com Deus, presente na nossa alma em graça; ou lutando por dominar essa tendência a remoer um acontecimento que parece ter-nos deixado maltratados, uma pequena injúria (feita provavelmente sem má intenção) que, se não reagimos a tempo, o amor-próprio e a soberba irão agigantando até nos tirarem a paz e enfraquecerem o esforço por viver continuamente na presença de Deus.

"Depois, a mortificação da memória, evitando lembranças inúteis, que nos fazem perder o tempo e talvez nos possam trazer outras tentações de maior vulto.

"E por fim a mortificação da inteligência, para tê-la colocada no dever do momento presente, e para renunciarmos ao juízo próprio sempre que seja necessário a fim de vivermos melhor a humildade e a caridade. Em resumo, trata-se de afastarmos de nós hábitos internos que não estariam bem num homem de Deus, numa mulher de Deus (Francisco Fernández Carvajal, Meditação de Falar com Deus, Tempo da Quaresma, Sexta-Feira depois das Cinzas).

3. Comparando-Se com o grão de trigo, Jesus fala-nos da infinita fecundidade da sua morte, que na altura já estava iminente, e já tinha sido decidida pelos seus inimigos. Jesus estava cercado pela hostilidade dos judeus, que O acusavam falsamente, procurando dar-Lhe a morte. No 5º Domingo da Quaresma, também chamado, (na Liturgia Romana «mais antiga», Domingo da Paixão), lê-se o texto do Evangelho de S. João (8,46-59), que apresenta o grande conflito de Jesus com os Judeus, a quem Jesus pergunta com sublime autoridade: "Qual de vós me arguirá de pecado? Se vos digo a verdade, por que não me credes?" (João 8,46).

Pouco depois, Jesus apresenta-Se como o Messias divino, dizendo de Si mesmo: "Eu sou", o que alude claramente ao nome de Deus revelado a Moisés, e declara-Se anterior a Abraão (João 8,58). O resultado é que os judeus tentam apedrejá-Lo, Jesus tem de esconder-Se e sair do templo. Ao escolher este texto do evangelho, a liturgia «mais antiga», (vigente na chamada «Forma Extraordinária» do Rito Romano), ressalta o clima de tensão que conduziria à condenação de Jesus à morte, que somos de novo convidados a contemplar e a adorar, para sermos mais firmes na luta contra o pecado, e mais disponíveis para amar e servir os outros.

4. Para expressar simbolicamente esse mistério a liturgia cobria as imagens a partir deste domingo, com um véu roxo.

Este é o sentido espiritual dessa prática, apresentado pelo grande liturgista beneditino Dom Próspero Guéranger:

"Na expectativa desta hora, a santa Igreja manifesta os seus dolorosos pressentimentos velando antecipadamente a imagem do divino Crucificado. A própria Cruz fica invisível aos fiéis, desaparecendo através de um véu. Não se verão mais as imagens dos santos, porque é justo que o servo se esconda, quando se eclipsa a glória do seu Senhor. Os intérpretes da Liturgia ensinam que o austero uso de velar a Cruz no tempo da Paixão significa a humilhação do Redentor, que foi constrangido a esconder-Se para não ser lapidado pelos judeus..."

Também o Missal de Paulo VI (1969) prevê a possibilidade, embora não a imponha, de cobrir as cruzes e imagens das igrejas. E onde isso não for feito, deverá proceder-se, depois da Missa Vespertina da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, ao desnudamento dos altares e à retirada de todas as cruzes das igrejas, para que, na celebração da Paixão do Senhor se apresente aos fiéis uma única Cruz.

É impressionante a serenidade e divina autoridade de Jesus, que Se oculta e sai do Templo, onde não voltará mais, mas que, ao chegar a Sua hora, dará livremente a Sua vida, quando for elevado na Cruz.

Santo António de Lisboa, depois de pregar um denso e belo sermão sobre o Evangelho do Domingo da Paixão, termina com este convite à oração, que de bom grado faremos nosso, para que tenhamos sempre diante dos olhos o rosto de Cristo Sofredor, e assim O possamos reconhecer e servir em todos os que sofrem:

"Roguemos, portanto, e com lágrimas peçamos ao Senhor Jesus Cristo que não nos encubra a sua face e não saia do templo do nosso coração, e não nos acuse de pecado no seu Juízo; antes nos infunda a sua graça, para que diligentemente ouçamos a sua palavra; nos conceda paciência na injúria sofrida; nos livre da morte eterna; nos glorifique no seu reino, a fim de merecermos ver o dia da sua eternidade juntamente com Abraão, Isaac e Jacob. Ajude-nos Ele mesmo, ao qual é devida honra e poder, louvor e império pelos séculos eternos. Diga toda a Igreja: Assim seja".

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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