19 de Abril de 2015 - Domingo III da Páscoa

É sempre tempo de conversão

1. O Evangelho de hoje transmite-nos uma mensagem muito clara e muito reconfortante: uma grande mudança acontece nos discípulos. No final, já parecem outros, são homens novos. E em nós, essa mudança também acontece? Sente-se em nós uma vida nova, como fruto da morte e da ressurreição de Jesus? Aumentou o nosso amor, a nossa caridade, a nossa fé?

Conseguimos vencer alguns defeitos, deixar de cometer faltas que ofendem a Deus? Temos mais esperança, mais confiança? A Páscoa fez-nos melhores? Ou estamos simplesmente como estávamos antes?

Mas, se assim for, é sempre tempo de conversão. S. Pedro, no dia de Pentecostes, depois de anunciar a Ressurreição de Jesus àqueles que eram responsáveis pela sua morte - como também nós o somos, pelos nossos pecados ­dizia-lhes: "Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados". E S. João, na 2ª leitura, insiste: "Meus filhos, escrevo-vos isto para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, nós temos Jesus. Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos mas também pelos de todo o mundo".


Portanto, como escreve S. Josemaria, "para a frente, aconteça o que acontecer! (...) Se, por qualquer motivo, te afastas d'Ele, reage com a humildade de começar e de recomeçar; (...) de reconciliar o teu coração contrito na Confissão, verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e inunda-te de alegria e de força para não desanimares na tua luta e para voltares de novo sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te pareça obscuro. Além disso, a Mãe de Deus, que é também nossa Mãe, protege-te com a sua solicitude materna" (Amigos de Deus, n. 214).

2. Mas voltemos ao Evangelho, para ver o que se passou com os discípulos. Ao início, ainda estão "espantados e cheios de medo", mas no final S. Lucas diz-nos que já há neles uma grande alegria. Num primeiro momento, alimentam dúvidas, hesitam, desconfiam. Era como se estivessem envoltos num denso nevoeiro, que não os deixava ver nada à sua volta, mas depois o sol brilhou, foi mais forte, e tudo se tornou belo e luminoso.

Como é que se operou nos discípulos esta mudança tão profunda? Segundo o Evangelho, esta mudança aconteceu mediante o seu encontro com Jesus ressuscitado. Foi o próprio Jesus ressuscitado que os procurou, que tomou a iniciativa de os visitar no meio da sua angústia e do seu temor. Como relata S. Lucas, "Jesus apresentou-Se no meio deles, e disse-lhes: «A paz esteja convosco» ". A seguir, diante da perturbação dos discípulos, Jesus identifica-Se a Si próprio com os sinais da sua paixão e morte: "Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo".

Jesus está diante deles na sua humanidade glorificada, e deseja que O reconheçam sem nenhuma hesitação, sem qualquer sombra de dúvida. É por isso que os convida a que O toquem, e até se dispõe a comer à frente deles. É preciso que percebam Que o que estão a ver não é uma ilusão, é Ele próprio, que está diante deles, vivo para sempre. Jesus, com uma carinhosa condescendência, desce ao nível dos discípulos, para que eles possam ter a certeza da verdade (ou «objectividade») do Que estão a ver, e assim possam cumprir com grande confiança e serenidade a missão que Jesus lhes confiou, como lemos no final do Evangelho: "Vós sois as testemunhas de todas estas coisas".

Ao mesmo tempo, os discípulos compreendem que agora Jesus vive de um modo novo. Tem um corpo, como antes tinha, mas este agora tem propriedades novas. Não só já não está sujeito à morte, mas também já não está sujeito ao tempo nem ao espaço, e "pode, por sua vontade, tornar-se presente por sua iniciativa, onde quer e quando quer" (Catecismo da Igreja Católica, n. 645).

3. Inspirando-nos nas aparições de Cristo ressuscitado, também compreendemos que, depois da ressurreição, os corpos dos santos terão propriedades semelhantes às do corpo ressuscitado de Cristo, e portanto ser-lhes-á restituído tudo o que pertença a integridade da natureza, os dons, as perfeições do homem como tal.

Todos os seres humanos, bons ou maus. serão imortais após a ressurreição, pois, por Cristo, pela Sua Cruz, a morte foi vencida, foi o ultimo inimigo a ser abatido (1 Coríntios 15, 26).

Mas os corpos dos justos terão certos adornos que lhes irão conferir uma nobreza com que que nunca sonharam neste mundo. São os chamados dotes do corpo glorioso: impassibilidade, claridade, agilidade e subtileza.

O Catecismo Romano resume a natureza dessas quatro qualidades dos corpos ressuscitados, aliás explicadas exaustivamente na Suma Teológica (Suplemento, 82, 1 ss): "A impassibilidade faz com que os corpos gloriosos não sejam passíveis de qualquer dor ou incómodo. A ela segue-se a claridade, isto é, o brilho, que se reflecte no corpo, da suma felicidade da alma, de modo que haja nele uma certa comunicação da bem­aventurança da alma. Junta-se à claridade a agilidade, pela qual o corpo facilmente é movido para onde quer que a alma queira. Finalmente, junta-se a subtileza, pelo poder da qual o corpo se submete ao império da alma, a serve e lhe obedece totalmente" .

4. "Feliz daquele - exclama Santo Afonso Maria de Ligório - que, mortificando-se na vida presente, for digno de receber um dia, no seu corpo, todos esses dons, que agora nem sabemos avaliar devidamente!".

E conclui: "Minha alma, é certo que naquele dia tu também ressuscitarás; mas qual será a tua sorte? Achar-te-ás no número dos escolhidos ou dos réprobos? Se queres estar entre os primeiros, é necessário, como diz o Apóstolo, que, «assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida» (Romanos 6, 4) (Meditações para todos os Dias e Festas do Ano, Tomo II).

Novidade de vida: é a grande urgência! Na alegria do Tempo Pascal, reconhecemos humildemente que é sempre tempo de conversão. Para que vivamos uma vida nova!

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo