17 de Maio de 2015 - Domingo da Ascenção do Senhor

Os cinco sinais que acompanharão os que crerem

Num sermão pregado no dia da Ascensão do Senhor, Santo António de Lisboa comentou assim o passo do Evangelho de S. Marcos, onde, depois de enviar os discípulos a anunciar o Evangelho a toda a criatura, Jesus acrescenta: "Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem"...

1. "Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem" (Marcos 16, 17). Aqueles que derem o coração a Deus, acompanhá-los-ão sinais, porque já sobre o seu coração há o sinal de que se lê no Cântico dos Cânticos: "Põe-me como um sinal sobre o teu coração" (Cântico dos Cânticos 8,6). Quando queremos defender dos ladrões os nossos bens ou a nossa casa, costumamos pôr ali a insígnia ou a bandeira do rei ou de algum grande senhor, para que à sua vista temam seguir para a frente. Também se queremos defender o nosso coração dos demónios, ponhamos sobre ele Jesus, que é salvação. E onde há salvação, ali há saúde. Eis os sinais: "Em meu nome expulsarão demónios" (Marcos 16,17).


Aos demónios chamam os gregos daimones, isto é, peritos ou sabedores de coisas. A palavra demónio, em grego, significa «o que sabe muito». Os demónios são a sabedoria da carne e a esperteza do mundo. Quais demónios, elas atormentam o espírito do homem e afligem o corpo com preocupações. A sabedoria da carne é o demónio nocturno, a esperteza do mundo, o demónio meridiano. A sabedoria da carne é cega, embora esteja convicta que é de visão muito aguda - de noite é de visão muito aguda, como se fora um gato. A esperteza do mundo, porque arde com o calor da malícia, é semelhante ao sol do meio-dia. Aquele que deu o coração a Deus, lança fora de si estes demónios, e faz ainda todos os outros sinais dos quais fala o Evangelho.

2. "Falarão em novas línguas" (Marcos 16, 17). A língua do mundo é língua velha, porque fala coisas velhas a respeito do homem velho. Aqueles a quem os sobreditos demónios atormentam, falam esta língua, mas lançam-nos fora de si, falam línguas novas, em vida nova. Diz Isaías:
"Naquele dia, haverá cinco cidades na terra do Egipto a falar a língua de Canaã e ajurar pelo Senhor dos exércitos: Uma será chamada Cidade do Sol" (Isaías 19,18). A terra do Egipto, que se interpreta como trevas, é o corpo do homem, cheio de trevas pela pena e pela culpa. Nele há cinco cidades, os cinco sentidos do corpo, dos quais um, a vista, se chama Cidade do Sol. Assim como o sol ilumina todo o mundo, a vista ilumina todo o corpo. Estas cidades falam a língua de Canaã, isto é, já mudada. Com a mudança da direita do Altíssimo, depõem o homem velho com os seus actos e revestem o novo, vivendo em justiça e verdade.

3. Assim como a fala exterioriza a palavra escondida no coração, os cinco sentidos do homem, já mudados e convertidos a Deus, falam dele externamente, tal como é no interior. Isto é o que significa jurar, afirmar a verdade. A verdade, pois, da consciência afirma-se com o testemunho da vida santa, para louvor do Senhor dos exércitos, Senhor dos Anjos. Sobre isto ainda se acrescenta: "Pegarão em serpentes" (Marcos 16,18). As serpentes simbolizam a adulação e a detracção (ou maledicência), que serpenteiam e injectam veneno. O adulador serpenteia, o detractor injecta veneno. Aqueles que falam novas línguas tiram estas serpentes de si. Retirem as coisas velhas da vossa boca (lReis 2,3). A saliva do homem em jejum - diz-se - mata a serpente; a língua em jejum é uma espécie de língua nova, cujo antídoto anula o veneno. Mas a antiga serpente como que adulava Eva, quando dizia: "Oh não, de forma alguma morrereis" (Génesis 3,4). Como que difamava Deus, quando acrescenta: "Deus sabe que, na hora em que comerdes dela, se vos abrirão os olhos e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal" (Génesis 3,5). Como se dissesse: Deus, cheio de inveja, proibiu-vos, não querendo que vos assemelhásseis a ele na ciência. Eis como o adulador se insinua e o detractor Injecta o veneno. Aquele, porém, que está em jejum, cospe na boca da serpente, mata-a, e assim se livra dela.

4. Continua: "E se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão" (Marcos 16,18). Comentário da Glossa: Quando ouvem as sugestões pestilentas, mas não as transformam em obras, isso não lhes faz mal, ainda que bebam algo de mortífero.

Diz Isaías: [Na cidade em ruínas], "já não se bebe vinho cantando. A bebida é amarga aos que a bebem" (Isaías 24,9). Por isso, não lhes fará mal. Não bebe o vinho da sugestão diabólica, quem não consente nela, antes a rejeita, se dói e lamenta. Por isso a própria bebida, a sugestão diabólica, é amarga para os que a bebem, para os que a ouvem e a sofrem. Ao contrário, diz o profeta Joel: "Despertai, ó ébrios, e chorai; bebedores de vinho, lamentai-vos, porque o vinho vos é tirado da boca!" (Joe1,5). Assim diz o texto, porque as delícias do vinho depressa desaparecem da boca, desde que passa pela garganta. Brevíssima é a demora da doçura, mas quantos males gera aquele que bebe o vinho da sugestão diabólica, consentindo em espírito e em obras! Diz-se aos ébrios com tal vinho: Despertai, recordando o vosso pecado, choral, arrependendo-vos de coração, gemei, confessando-vos.

5. Portanto, todo o que possuir em si aqueles quatro sinais dos quais falámos, poderá fazer bem o quinto: "Imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados" (Marcos 16,18). Chama-se doente, por precisar de remédio ou medicamento. Doente é o pecador, que precisa muito de medicamento, do exemplo de boas obras. Põe as mãos sobre ele, para o curar, para voltar à penitência, aquele que o conforta não só com a palavra da pregação, mas também com o exemplo de uma vida santa. Amen.

 

Santo António de Lisboa, Obras Completas, Edição do Pe. Henrique Rema, Lello & Irmão ­Editores, Porto, vol. II, pp. 925-929 (com pequenas adaptações)

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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