21 de Junho de 2015 - Domingo XII do Tempo Comum

Por nós, homens, e pela nossa salvação

1. 0 Evangelho diz-nos que Jesus falou ao vento, e mandou que o mar se acalmasse. E assim aconteceu.

Depois da tempestade, veio a bonança. E a barca onde Jesus seguia com os discípulos continuou a sua viagem tranquilamente.


Tudo não passou de um grande susto. Mas Jesus repreendeu-os por terem tido medo: "Por que estais tão assustados? Ainda não tendes fé?" Também se poderia traduzir: «Como não tendes fé?» Já tinham motivos de sobra para terem fé e não se assustarem. Já tinham visto outros milagres. Mas só naquele momento é que sentiram verdadeiramente que Jesus era Alguém muito especial, com um poder que mais ninguém tinha. "E diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»"

Gostaríamos que nunca houvesse tempestades, nem naufrágios, nem desastres naturais. Mas às vezes há tempestades e naufrágios, e dão-se muitos outros acidentes, com muitas perdas de vidas.

Que devemos fazer nas tempestades, sobretudo nas tempestades da vida? Confiar sempre em Jesus.

Já O conhecemos, já conhecemos o seu poder. Seria bom que não precisasse de nos dizer: "«Por que estais tão assustados? Ainda não tendes fé?» Nas provas e tempestades, só podemos confiar em Jesus, e , não ter medo.

Mas que dizer dos que perdem a vida devido a um naufrágio, ou à queda de um avião, ou a um acidente qualquer? Será Que Deus os abandonou? Ou não quis intervir?

Neste mundo, nunca saberemos porque é que em alguns casos Deus parece intervir e noutros não. Mas o que sabemos pela fé, é que o Filho de Deus Se fez homem, encarnou, assumiu a nossa condição, a nossa vida, e com ela a nossa morte.

2. A fé em Deus criador diz-nos que Deus é a causa de cada um dos seres, e de todos. Na sua Encíclica Lodato si, o Papa Francisco cita um Salmo que diz: "A palavra do Senhor criou os céus' (Salmo 32 [33],6).
E o Santo Padre comenta de uma forma muito bela estas palavras:

"Deste modo indica-se que o mundo procede, não do caos nem do acaso, mas de uma decisão, o que o exalta ainda mais. Há uma opção livre, expressa na palavra criadora.

O universo não apareceu como resultado duma omnipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de auto-afirmação. A criação pertence à ordem do amor, O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação: «Vós amais tudo quanto existe e não detestais nada do que fizestes; pois, se odiásseis alguma coisa, não a teríeis criado.» (Sab 11, 24). Então cada criatura é objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efémera do ser mais insignificante é objecto do seu amor e, naqueles poucos segundos de existência, Ele envolve-o com o seu carinho. Dizia S. Basílio Magno que o Criador é também «a bondade sem cálculo e Dante Alighieri falava do «amor que move o sol e as outras estrelas». Por isso, das obras criadas pode-se subir «à sua amorosa misericórdia»" (n. 77).

3. Todas as criaturas têm valor aos olhos dos homens. Mas o Filho de Deus encarnou por amor dos homens, Jesus veio por causa dos homens. "Por nós homens e pela nossa salvação desceu dos Céus". dizemos no Credo.

Portanto, não é possível que os deixe perdidos no fundo do abismo. Na vida, só se afunda. quem quiser. Quem confiar e acreditar será salvo, mesmo que venha a perder a sua vida. Mas, se não perder a fé, se não deixar morrer o amor e a caridade, se não sufocar o arrependimento, passará sempre da morte para a vida. da luta para a vitória, e da tempestade para a bonança e para a paz.

4. 0 sacrifício redentor de Jesus foi oferecido "por muitos" (Marcos 14, 24), isto é, pela multidão dos homens. "Cristo morreu por todos", diz S. Paulo na 2ª leitura, "mesmo que nem todos o saibam ou o aceitem" (Bento XVI, Discurso à Comissão teológica Internacional, 03.12.2010).

É Jesus Cristo que, na viagem da vida, nos leva a porto seguro, se chamarmos por Ele, mesmo em plena tempestade, e sempre com total confiança. O nosso compromisso, portanto, só pode ser um: dara conhecer Jesus Cristo, fazê-Lo mais conhecido e amado, abrir caminho para que a graça de Cristo chegue a muitos corações e inteligências. Não é um sonho, mas um fogo, um vento impetuoso. S. Paulo escreve: "O amor de Cristo nos impele", (à letra, "o amor de Cristo nos constrange"; ou em latim, que se percebe bem: "caritas Christi urget nos"), ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram (2 Coríntios 5,14)". É uma urgência inadiável dar a conhecer Jesus Cristo. É esta urgência que nos deve inquietar - sem nos tirar a paz - e retirar da apatia e indiferença em que podemos cair, se é que não caímos já.

E, se nos sentirmos apáticos ou pessimistas, estará na altura de gritar: "Mestre, não Te importas que pereçamos?". E Jesus poderá perguntar-nos "Porque estais tão assustados?

Ainda não tendes fé?" E responderemos: Senhor, sim, temos fé, mas tira-nos desta apatia, e torna-nos mais ousados e confiantes no nosso desejo de Te anunciarmos a todos, para que possam experimentar a força e a graça da Tua salvação. Amen.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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