28 de Junho de 2015 - Domingo XIII do Tempo Comum

A resposta cristã ao mistério da morte

1. Há pessoas que acham que a morte é natural. Mas a 1ª leitura, do Livro da Sabedoria, diz-nos que não é assim: "Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma" (1, 13). Depois explica: "Foi pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo. e experimentam-na aqueles que lhe pertencem", o que significa que a morte, tal como nós a experimentamos hoje, é consequência do pecado, e entrou no mundo com a primordial desobediência dos homens a Deus.


Julius Schnorr von Carolsfeld, A ressurreição da filha de Jairo (1860)

A dor e o protesto interior de todo o homem diante da morte exprime-se bem na atitude e nas palavras de Jairo. "um dos chefes da sinagoga", que nos relata o Evangelho: "Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva»".

Pouco depois, quando chegaram a casa de Jairo, parecia que já não havia nada a fazer. Alguns adiantaram-se para lhe dizer: "«A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?»". Outros "riram-se d'Ele". É uma expressão chocante de desprezo e descrença.

2. Mas Jesus começa por dizer: "A menina não morreu; está a dormir". O sono é uma metáfora bíblica para a morte. Vários textos do Antigo e do Novo Testamento apresentam a morte como um «sono» (Salmo 87. 6, na versão grega; Daniel 12, 2; Mateus 27,52; João 11,11; 1 Coríntios 15,6; 1 Tessalonicenses 4,13-15; 5, 10) A afirmação de Jesus não é uma negação da morte efectiva da criança, mas o anúncio de que ela será desperta daquele seu sono de morte.

Jesus é Deus, revestido da nossa humanidade, é o Filho de Deus feito homem, e leva consigo o poder divino sobre a vida e sobre a morte.

Por isso, quando entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse-lhe: "Talita Kum, que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te» Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar. pois já tinha doze anos".

Os dois últimos dados do texto não são casuais: primeiro, Jesus "recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso", para que ninguém O procurasse só por causa dos seus milagres, sem ter em conta a fé e a conversão; "e mandou dar de comer à menina". o que é uma prova da ressurreição da criança, e ao mesmo tempo revela a compaixão, o carinho e a ternura de Jesus.

Chamada pelo poder divino de Jesus, a menina "ergueu-se", levantou-se da morte. Mas foi um levantar-se para um dia, infelizmente, ter voltar a «adormecer», para um dia ter de voltar a morrer.

Também Jesus se «ergueu», também Jesus se «levantou» da morte. Também Jesus «despertou», mas nunca mais «adormeceu». Jesus ressuscitou, para nunca mais morrer.

3. É muito habitual para os cristãos, seguindo o exemplo de Jesus. falarda morte como um adormecer. Assim pede o sacerdote, em nome de todos, no Cânon Romano: "Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas que partiram antes de nós marcados com o sinal da fé, e agora dormem o sono da paz".

Então, o sacerdote junta as mãos e ora uns momentos pelos defuntos por quem oferece a Santa Missa (ou que deseja especialmente recordar). Depois, de braços abertos, continua: "Concedei-lhes, Senhor, a eles e a todos os que descansam em Cristo, o lugar da consolação, da luz e da paz".

Para aqueles que «adormeceram», isto é, que morreram. - e estamos a falar somente daqueles que morreram na graça e na amizade de Deus, ainda que precisem de ser purificados - pedimos que possam descansarem Cristo, no lugar do «refrigério», onde se mata a sede e se descansa, no lugar da luz, e Deus é a luz, no lugar da paz, que só Deus pode dar.

A Igreja ensina que "esta vida perfeita com a Santíssima Trindade, esta comunhão de vida e de amor com Ela, com a Virgem Maria. com os anjos e todos os bem-aventurados, chama-se «céu». O céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitivan (Catecismo da Igreja Católica, n. 1024).

4. Há dias, uma criança, depois de uma Missa que celebrei por uma familiar seu que tinha falecido, interpelou-me directamente e perguntou-me: «Como é que podemos ir para o Céu? Quando uma pessoa morre, fica num caixão e vai para a terra...»

E eu respondi: É verdade, o nosso corpo morre, e vai para a terra, mas a nossa alma não. Temos uma alma imortal! E com a nossa alma, quando estiver purificada, podemos ir para o Céu! E também o nosso corpo ressuscitará, quando Jesus vier na sua glória.

Assim, na verdade, o ensina a Igreja: "Na morte, separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, enquanto a sua alma vai ao encontro de Deus, embora ficando à espera de se reunir ao seu corpo glorificado. Deus, na sua omnipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas pela virtude da ressurreição de Jesus" (Catecismo da Igreja Católica, n.l016).

É esta a resposta cristã ao mistério da morte. É uma resposta profunda, completa, verdadeira e fascinante. Que ela nos ajude a viver com grande sentido de responsabilidade, procurando estar sempre preparados para comparecer na presença de Deus, quando chegar a nossa hora de adormecer no Senhor, para um dia, pela sua misericórdia, nos podermos reerguer de novo, no nosso corpo e na nossa alma, para a vida eterna.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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