5 de Julho de 2015 - Domingo XIV do Tempo Comum

Os filhos de Maria

1. Há várias expressões que nos chamam a atenção no Evangelho de hoje. Antes de mais, o modo como as pessoas de Nazaré, que estavam admiradas com os milagres de Jesus, perguntam umas às outras: "Não é Ele o carpinteiro. Filho de Maria...?" (Marcos 6, 3) No Evangelho de S. Mateus, aparece a pergunta de outra maneira: "Não é Ele o Filho do carpinteiro...?" (13, 55). Os leitores de S. Mateus conheciam as circunstâncias do nascimento de Jesus, sabiam que S. José não era o seu pai humano, uma vez que Jesus tinha sido gerado por obra do Espírito Santo (Mateus 1, 21). Sendo assim, a pergunta dos habitantes de Nazaré não lhes causaria qualquer confusão. Mas, no Evangelho de S. Marcos, que é mais breve e mais conciso. não se relata a concepção virginal de Jesus. Por isso, para evitar equívocos, S. Marcos não se refere a S. José, e formula a pergunta de modo a deixar bem claro que Jesus é apenas Filho de Maria.

Como se explica então que o Evangelho, a seguir, apresente Jesus como "irmão de Tiago e de José, de Judas e de Simão", falando também, depois, das "suas irmãs" (Marcos 6. 3)?


É parte da fé católica que a Mãe de Jesus é perpetuamente Virgem. Isso exclui totalmente a possibilidade que a Virgem Santíssima tenha outros filhos naturais, além de Jesus. Em termos bíblicos, não há qualquer dúvida de que, quando o Novo Testamento fala em "irmãos de Jesus", de modo nenhum está a referir-se a filhos de Maria! A palavra "irmãos" pode indicar vários graus de parentesco. E os "irmãos" e "irmãs" referidos por S. Marcos?

2. Logo nos primeiros tempos do cristianismo, apareceram várias tentativas de solução do problema levantado por este texto, que parecia opor-se à certeza de fé de que Maria permaneceu sempre Virgem e não teve quaisquer outros filhos, além de Jesus.

Nos inícios do século II, um texto piedoso (mas que nunca foi reconhecido como fazendo parte das Escrituras), habitualmente chamado Proto-Evangelho de Tiago, elaborou uma solução segundo a qual esses "irmãos" e "irmãs" de Jesus eram filhos de um primeiro matrimónio de S. José, o qual, sendo já idoso e viúvo, se desposou com Maria; depois de Jesus nascer, tomaram-se, naturalmente, seus "irmãos e irmãs", e foram também educados pela Mãe de Jesus, a quem acompanham em diversas circunstâncias.

As Igrejas do Oriente, em geral, seguem esta tradição, cujo fundamento histórico não é possível comprovar. Nós, no Ocidente, preferimos não afirmar essa viuvez de S. José, e dizer que os irmãos de Jesus não são filhos nem de José nem de Maria. Contudo, as duas opiniões são possíveis e compatíveis com a fé na virgindade de Maria, que, tanto os católicos quanto os ortodoxos, afirmam dogmaticamente, segundo a constante Tradição da Igreja.

A verdade, porém, é que o próprio Novo Testamento nos fornece indícios suficientemente claros de que estes "irmãos" não eram irmãos de sangue de Jesus. Tanto o Evangelho de S. Mateus como o de S.Marcos, ao descreverem as circunstâncias da morte de Jesus na Cruz, aludem a uma das mulheres que ali se encontravam a olhar de longe, apresentando-a como "Maria, mãe de Tiago e de José" (Mateus 27, 56 e Marcos 15, 40). Trata-se de dois dos chamados "irmãos" de Jesus, o que nos permite concluir que são filhos de uma outra mulher chamada Maria.

É também desta mulher que se fala significativamente mais adiante como sendo "a outra Maria" (Mt 28, 1). "Esta informação confirma a tradição pós-bíblica do Proto-Evangelho de Tiago, segundo a qual os «irmãos e irmãs» de Jesus não eram filhos da Virgem Maria" (R. Brown).

3. Por que se fala então de «irmãos e irmãs» e não de "primos" ou de "parentes"? Porque essa era a maneira corrente de falar entre os judeus, no tempo de Jesus. Embora na língua grega, em que os Evangelhos foram escritos, existissem palavras para designar esses vários graus de parentesco, os Evangelistas reflectem nos seus textos a mentalidade corrente do seu povo, que já tinha levado no Antigo Testamento a apresentar Abraão e Lot como, "irmãos" um do outro (Gen 13,8), muito embora Lot fosse, mais propriamente, sobrinho de Abraão.

Podemos, pois, concluir com segurança, que "Jesus é o filho único de Maria", como diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 501). No entanto, podemos também afirmar, com toda a verdade, que Maria tem muitos outros filhos, que somos todos nós, ou, por outras palavras, que "a maternidade espiritual de Maria estende-se a todos os homens que Ele veio salvar" (n. 501). Sendo Jesus o "primogénito de muitos irmãos" (Rom 8, 29), a Virgem Maria coopera com amor de mãe na nossa geração para a fé e na nossa educação na fé, como diz um texto do Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, n. 63).

Voltando à presença de Jesus na cidade onde tinha crescido e vivido tantos anos, o Evangelho de S. Marcos salienta ainda que Jesus "estava admirado com a falta de fé daquela gente". Os preconceitos que tinham, não permitiram que os habitantes de Nazaré se abrissem à graça extraordinária da presença de Jesus nas suas vidas. Viveram com Deus a seu lado, e ficaram na mesma. O mesmo pode hoje, infelizmente, continuar a acontecer, e até na nossa própria vida. Também hoje pode haver da nossa parte indiferença, auto-suficiência, desleixo, desinteresse, desprezo e até rejeição da graça de Cristo, dessa graça única que é Jesus Cristo, que nos ama, que nos chama, que nos salva.

Peçamos à Virgem Maria, que se tornou Mãe de todos os homens, que nos ajude a acolher Jesus com profunda fé e ardente amor, a aderir sem reservas aos seus ensinamentos, e a realizar sem hesitação e com total confiança a sua vontade.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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