12 de Julho de 2015 - Domingo XV do Tempo Comum

«N'Ele, pelo seu Sangue, temos a redenção»

1. Há um contraste interessante nas leituras de hoje: um profeta que não o queria ser, nem entendia por que é que estava ali, mas que não fugiu da missão que Deus lhe confiou; e os Doze Apóstolos de Jesus, que partiram sem levar nada nas mãos, "a não ser o bastão", e, sem discutir nem se questionar, se desempenharam de uma missão muito superior às suas capacidades: "pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes, e curaram-nos".

A grande diferença entre Amós e os Apóstolos, é que Amós é um profeta solitário: vai em nome de Deus, mas está sozinho, contra o resto do mundo. Ao passo que os Apóstolos, mesmo sem terem naqueles dias Jesus fisicamente com eles, estavam sempre com Jesus, e era Jesus que actuava neles e por meio deles.

Nós, cristãos, admiramos Amós, e sofremos com as perseguições que ele, como tantos outros, teve de suportar. No entanto, não somos, nem nos sentimos, profetas solitários. Actuamos sempre em nome de Jesus, e por isso tudo nos parece normal, natural, mesmo as missões mais extraordinárias.


É natural que, hoje, Jesus ressuscitado espere muito de nós, seus discípulos. E o primeiro que espera, é que O anunciemos, não de um modo vago, impessoal, mas com a nitidez inconfundível do seu rosto e da sua voz.

Hoje não basta «ser», «viver». É claro que primeiro é o «ser», o «viver», mas depois é preciso dizer, falar, anunciar. O nosso modo de viver como cristãos não diz já muito? Sim, mas ainda é preciso dizer mais. O nosso modo de viver é um testemunho silencioso, mas os outros também precisam, além disso, de um testemunho que se oiça e que se entenda.

Quando alguém parece achar que tudo isto - o universo, a terra, a vida, o ser humano - não passa de um acaso espantoso, é preciso que alguém diga, com palavras de Bento XVI, que "nós não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário. (Homilia no "início do ministério petrino", 24 de Abril de 2005). Por isso. "não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade" (ibid.)

A palavra confirma a vida e, com amizade, lança um desafio. Quando falamos, é como se disséssemos: «Amigo, pensa bem nisto. Reconhece que é verdade. Ou, pelo menos, que pode ser verdade. Isso não muda tudo?»

2. S. Paulo diz-nos que Deus "nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença". Mas, se fomos escolhidos para sermos santos, deve ser preciso mudar muitas coisas em nós! Há muitas coisas que podem estar mal, aos olhos de Deus, na nossa vida. É preciso mudá-las. A maior urgência é o nosso arrependimento e mudança de vida. O que em nós desagrada a Deus e O ofende, tem de mudar. O primeiro resultado da evangelização, a primeira materialização ou concretização do "sonho missionário de chegar a todos", de que fala o Papa Francisco (Evangelii Gaudium, n. 31), o primeiro fruto que a evangelização tem de dar, é - só pode ser - essa conversão dos corações e da vida, essa mudança no que tiver de ser mudado.

Foi por isso que, enviados por Jesus, "os Apóstolos partiram, e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes, e curaram-nos" (Marcos 6, 13). E só a partir dessa primeira conversão é que poderá começar uma vida nova, de seguimento de Cristo, uma vida feliz.

Pensando nas "pessoas baptizadas que, porém, não vivem as exigências do Baptismo, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé", O Papa Francisco sublinha que, como "Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho" (Evangelii Gaudium, n. 14).

Seremos capazes de o fazer também nós, isto é, de ajudar outros a mudar alguma coisa, para melhor, nas suas vidas e os aproximar mais de Deus e da Igreja? Sim, talvez haja uma ocasião oportuna para dizer a este ou àquele: -Não leves a mal o que te vou dizer, responde se quiseres: Será que esta vida que levas tem sentido...?- E talvez aqui comece uma conversa, que um dia os levará até aos braços de Jesus Cristo, à Confissão, e de novo à Comunhão e ao compromisso cristão.

3. "N'Ele [em Cristo], pelo seu Sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados", diz ainda S. Paulo (Efésios 1, 7).

Que é a redenção? No sentido corrente da palavra, "redenção" ou "resgate" é o acta pelo qual se adquire novamente, pagando-se o preço devido, o que se possuía anteriormente, e já não se possui. É assim que se fala do resgate de uma casa, de uma propriedade, e que se falava também do resgate dos cativos ou dos prisioneiros de guerra.

Hoje usa-se frequentemente a expressão "resgate financeiro": uma situação em que uma entidade ou um conjunto de entidades empresta dinheiro a uma empresa ou até a um país em risco de falência, para evitar as consequências que adviriam dessa falência.

Pode então definir-se a redenção do género humano como o acto pelo qual o Salvador, pelo preço de seu Sangue, expressão do seu amor, livrou o gênero humano da servidão do pecado e do demónio, e o reconciliou com Deus. O Concílio de Trento define assim este dogma: "A causa meritória de nossa justificação é o Filho único de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que, quando éramos inimigos (Romanos 5,10), por causa do grande amor com que Ele nos amou (Efésios 11,4) mereceu a nossa justificação e satisfez a Deus Pai por nós, pela Sua Santíssima Paixão sobre o madeiro da cruz" (Sessão VI, cap. 7).

No Sangue de Cristo, a vida recomeça. A Redenção é uma nova criação. Não há maior alegria do que recomeçar de novo, pela força do perdão de Deus, fruto do Sacrifício de Cristo.

Vamos pedir à Virgem Maria, sua Mãe, que tenhamos a audácia necessária para falar d'Ele aos outros, a paciência para não desistir diante de nenhuma dificuldade, e a esperança de começarmos e recomeçarmos todos os dias, na amizade e intimidade com Jesus. que nos leva muito mais longe do que nós poderíamos pensar.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo