3 de Janeiro de 2016 - Epifania do Senhor

Os povos da Terra convergem para Cristo

1. Estamos sempre a caminho, sempre à procura, nunca paramos. É próprio do ser humano esta busca constante do que está para além dele. Há muitas expressões desta busca incessante da humanidade, que procura chegar mais longe, para além de si própria.

Entre as mais significativas, estão as religiões dos diversos povos. As religiões, na sua essência, são um sinal de inquietação e de procura: o homem à procura de Deus. Há alguns anos, houve quem julgasse, sobretudo no Ocidente, na Europa «post-cristã», que as religiões eram um fenómeno com um fim anunciado: iriam acabar em breve.


Os Magos. Basílica de Santo Apolinário o Novo, Ravena (526)

Mas essas pessoas tiveram de reconhecer que a experiência religiosa continua a ser importante para muitos homens e mulheres. Mesmo que dessem a impressão de ignorar ou desprezar o cristianismo, não podiam continuar por muito mais tempo a fazer de conta que não viam a crescente presença do islamismo, sobretudo em países tão secularizados como a Alemanha ou a França.

Como entenderão este fenómeno? Para as mentes agnósticas e laicistas, não é fácil, é claramente embaraçoso. Desorganiza os seus esquemas. E como é que nós, cristãos, encaramos a vitalidade do islamismo? Com receio? Com medo? Com serenidade? Também precisaríamos de reflectir sobre o sentido das religiões e da experiência religiosa enquanto tal. A pergunta é: cada religião é um caminho autónomo que leva a Deus, cada uma de uma forma independente das outras e paralela às outras, mas sem nunca se encontrarem, ou o plano de Deus é que acabem um dia por convergir no mesmo termo final, na mesma meta única, no mesmo e único Mediador entre Deus e os homens?

A mensagem do Evangelho de S. Mateus, no seu relato da Epifania de Jesus aos Magos, parece claramente ir neste sentido. Os povos da terra, simbolizados nos Magos do Oriente, convergem para Cristo. Vêm de uma religião diferente, não bíblica, mas encontram Jesus e prostram-se diante d'Ele. Como relata S. Mateus: "Entrando na casa, viram o Menino, com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram­No".

2. Partindo da sua religião, e com o auxílio de uma estrela, chegam até Jesus, passando por Jerusalém, isto é, através do Povo bíblico e da Sagrada Escritura (como notou o então Cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI). A religião dos Magos, a sua cultura, a sua sabedoria, o seu estudo dos astros, foram o ponto de partida e o instrumento da sua aproximação de Jesus. E deverá ser esse o caminho normal dos diversos povos da terra. Partindo do que são, Deus chama-os a ir sempre mais longe e a encontrar-se com Cristo.

É este o «destino» das várias religiões, ainda que talvez nunca o venham a cumprir historicamente: convergir para Jesus, encontrá-Lo e adorá-Lo como Deus verdadeiro e único Senhor. Quando os Magos se ajoelham diante de Jesus, é como se, por meio deles, o fizessem todas as religiões da humanidade, revelando assim o seu carácter «provisório» e de algum modo «precursor» de Jesus Cristo.

É este, sem dúvida, o ensinamento que S. Mateus nos quer transmitir, e é também o de S. Paulo, na Carta aos Efésios. Bento XVI citou esta carta na própria cidade de Éfeso, durante a sua viagem à Turquia, e chamou-lhe "o Evangelho do Apóstolo das nações".

No passo que hoje lemos, S. Paulo anuncia um «segredo» revelado pelo Espírito Santo: o Evangelho também é para os gentios. A expectativa de S. Paulo era que todos pudessem conhecer Jesus e converter­se. É uma justa expectativa que também nós podemos alimentar: que os gentios, isto é, os fiéis das diversas religiões, se convertam a Cristo. Não, evidentemente, pela força ou por algum tipo de pressão, mas pelo conhecimento de Jesus Cristo e da sua Igreja, e pelo fascínio que Jesus Cristo possa exercer na sua inteligência, no seu coração e no seu modo de viver, nas grandes e pequenas decisões da sua vida de todos os dias.

E que dizer aos que são cristãos, mas vivem como «gentios», aos que são baptizados, mas ausentes, que dizer aos que se vão lentamente afastando da fé cristã, e embora guardando ainda algumas tradições, já não vivem a fé como um encontro apaixonante e um seguimento fiel?

Talvez haja algum momento em que se lhes possa dizer que na vida não basta ganhar dinheiro nem divertir­se. "O homem, para viver, precisa de pão, do fruto da terra e do seu trabalho. Mas não vive só de pão. Precisa de alimento para a sua alma: precisa de um sentido que encha a sua vida". Este sentido que enche a nossa vida é Jesus Cristo: "o verdadeiro alimento para os nossos corações" (Bento XVI. Homilia na Missa da Noite de Natal, 2007).

3. E que pensar da crescente presença islâmica nos países da Europa? Naturalmente, ficamos preocupados, ao imaginar o que vai acontecer no futuro, com a intensa imigração de muçulmanos, e com a recente chegada a uma Europa laicista e descristianizada, de tantos milhares de refugiados, (cujo drama humano nos merece sem dúvida o maior respeito).

4. Sem ignorar os perigos provenientes, sobretudo do chamado extremismo islâmico, há um dado positivo que não podemos ignorar: que os muçulmanos, com o cumprimento rigoroso dos seus preceitos religiosos, podem estimular os católicos a terem vergonha da sua débil prática religiosa, e a voltarem à Igreja, à Missa dominical, aos sacramentos, à oração.

E isto sem esquecer que podem acontecer - e seguramente estarão a acontecer, com toda a discrição -conversões de muçulmanos à fé cristã, graças ao contacto próximo com baptiza dos que vivem o seu cristianismo com fidelidade.

Inspirados pelos Magos, precisamos de partir todos os dias para um encontro mais íntimo e profundo com Jesus, na Igreja. E temos de ajudar muitos outros a sair de uma atitude de indiferença e desleixo espiritual, e pôr-se a caminho, para descobrir em Jesus o sentido e a ver.dade que no fundo desejam e procuram.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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