17 de Janeiro de 2016 - Domingo II do Tempo Comum

"Manifestou a sua glória"

1. O Evangelho relata-nos hoje o primeiro milagre de Jesus, em Caná da Galileia. Jesus partiu para a Galileia com os seus cinco primeiros discípulos, e, "ao terceiro dia" (João 2,1)já estavam em Caná da Galileia, onde decorria a festa de um casamento.

S. João observa que "estava lá a Mãe de Jesus", e foi talvez em atenção a Nossa Senhora que "Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento". Não é de estranhar que fosse assim, porque, nesse momento, Jesus era ainda praticamente um desconhecido, até os próprios discípulos, que em breve deixarão tudo para seguir definitivamente Jesus (Mc 1, 16-20), ainda pouco sabiam d'Ele. Só a sua Mãe sabe muito bem quem Ele é, e por isso o seu papel neste episódio é tão importante.


Que significa, pois, a presença de Jesus nas bodas de Caná? Penso que, ao participar nesta festa, Jesus mostra que não despreza o matrimónio, nem simplesmente o tolera, mas que partilha a alegria dos noivos e lhes deseja as maiores felicidades, como toda a gente. Mas a presença de Jesus tem ainda um outro significado mais profundo. Em primeiro lugar, anuncia as núpcias de Cristo com a Igreja: Jesus é o Esposo da Igreja, e a Igreja é a sua Esposa. Como ensina S. Tomás de Aquino, nos seus esplêndidos Comentários sobre o Evangelho de S. João: "Em sentido místico, as núpcias significam a união de Cristo com a Igreja".

Em segundo lugar, mostra que Jesus, Filho de Deus, elevando o matrimónio à condição de sacramento, abençoa a união matrimonial com bênçãos muito abundantes, e lhe dá as graças de que necessita para que possa ser aquilo que é chamada a ser por Deus desde o início da humanidade: uma comunhão de amor e de vida.

O matrimónio é uma comunhão de duas pessoas, um homem e uma mulher. que querem viver. e se comprometem a viver numa doação fiel e generosa de um ao outro, em vista da ajuda mútua e da geração dos filhos. O matrimónio é o espaço humano natural e mais adequado para a geração de novas vidas. Nele se fundamenta a família, como espaço alargado de comunhão e convivência de diferentes pessoas e diferentes gerações. O seu autor é Deus, e Deus é também o seu garante e o seu defensor. Mas é necessário que a sociedade o admire, e o defenda como um "bem comum" que é muito importante para todos: casais, pessoas solteiras, crianças, famílias e comunidades, e para a sociedade em geral.

2. Naquele dia, em Caná, o amor de Jesus pelos casais unidos em matrimónio revelou-se de um modo imprevisível. Aconteceu que a Virgem Maria, sempre atenta a tudo, disse a Jesus a dado momento "«Não têm vinho»". Foi uma forma muito delicada de chamar a atenção para aquele problema dos noivos e pedir a intervenção de Jesus. Maria foi, junto de Jesus, a porta-voz carinhosa das angústias daquele casal. A primeira reacção de Jesus, no entanto, parece negativa: "«Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora»". Este modo de Jesus falar não revela dureza, mas profundidade. Foi assim que Jesus falou a sua Mãe. do alto da Cruz, referindo-Se ao discípulo que estava ao seu lado: "«Mulher, eis o teu filho»" (Jo 19, 26). Aqui, em Caná, deve ter havido um breve silêncio, o olhar da M§e cruzou-se com o olhar do Filho, e Maria, habituada a meditar todas as coisas no seu coração, sentiu que" seu Filho iria atender a sua súplica e adiantar o relógio da história da salvação e, sem mais demoras, disse em voz baixa aos serventes: "«Fazei tudo o que Ele vos disser»".

Então, Jesus manda-lhes encher de água as seis talhas de pedra que ali existiam, destinadas à purificação dos judeus. Poderiam levar, ao todo, uns 600 litros, era um trabalho demorado e cansativo, mas eles obedecem, e então o milagre acontece, e toda aquela água preciosa mas sem sabor se transforma num vinho excelente, para grande admiração do chefe de mesa, que estranha que só então se tenha servido "o vinho bom".

3. Mas terá sido só um milagre para resolver um problema de uma festa de casamento? Não, foi muito mais do que isso, foi uma primeira revelação do poder divino de Jesus, e em todo ele se contém um profundo simbolismo. Ao presenciarmos este milagre, percebemos a diferença que há entre o Antigo Testamento e o Novo: a água dos rituais de purificação dos judeus transformou-se no vinho precioso do Evangelho e da graça de Cristo. A água só servia para a limpeza corporal exterior, mas a graça de Jesus Cristo renova e purifica o homem por dentro. A água, portanto, simboliza a Antiga Aliança, à qual o povo foi muitas vezes infiel, e o vinho representa a Nova Aliança, que um dia será selada, pelo precioso Sangue de Jesus Cristo derramado na cruz.

Também a presença de Jesus nas bodas de Caná anuncia que Ele próprio é o esposo da Igreja, a quem ama com amor fiel e indissolúvel. Aqueles que vivem em matrimónio recebem a missão de reflectir em toda a sua vida este amor com que Jesus amou a sua Igreja e se entregou a Si mesmo por ela, como dirá S. Paulo (Ef 5, 25). E aqueles que vivem em celibato, como o próprio Jesus, manifestam que Deus merece ser amado com absoluta prioridade, e o seu Reino procurado e amado antes de todas as outras coisas.

4. Quando se aperceberam do que tinha acontecido, deve ter havido certo alvoroço entre os presentes. É provável que, nesse momento, Jesus, acompanhado pelos discípulos, se tenha retirado discretamente. Tinha começado a onda dos milagres, sinais dos tempos messiânicos, tempos de abundância, de alegria, de reconciliação e de cura. Jesus "manifestou a sua glória", e aqueles cinco primeiros discípulos, cheios de emoção, perceberam que não se tinham enganado quando decidiram acompanhar Jesus, e "acreditaram n'Ele".

Quanto à Mãe de Jesus, Nossa Senhora, deve ter permanecido junto dos noivos, num silêncio cheio de alegria, e só voltaremos a vê­la no Evangelho de S. João quando chegar a Hora definitiva de Jesus, de pé, junto à Cruz. Então passou a ser Mãe de todos os homens, de quem fala carinhosamente a Jesus, para que os proteja e salve, e a quem fala maternalmente de Jesus, para que O amem e façam tudo o que Ele lhes disser, e assim entrem um dia na plena alegria das núpcias divinas.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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