31 de Janeiro de 2016 - Domingo IV do Tempo Comum

Conquistado por Jesus

1. Jesus refere-se no Evangelho de S. Lucas a dois estrangeiros, a viúva de Sarepta e o sírio Naamã, que se aproximaram de Deus e experimentaram o seu poder através de dois grandes profetas do Antigo Testamento, Elias e Eliseu: a primeira partilhou com Elias todo o alimento que lhe restava (1 Reis 17, 8-24); e o segundo, por ordem de Eliseu, desceu às águas do Jordão e foi curado da lepra (2 Reis 5, 1-19). E Jesus realça o grande contraste entre a fé destes estrangeiros e a dureza de coração dos próprios habitantes de Nazaré, em cuja sinagoga pregou, e que logo a seguir, humilhados pela censura de Jesus, O quiseram lançar abaixo da colina em que a cidade estava construída, para O matar. "Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho" (Lucas 4,24-30). Afinal, os «estrangeiros» tinham sido mais crentes que os membros do povo eleito!

Este episódio, com o seu dramatismo, é um bom enquadramento para falarmos de uma realidade hoje muitas vezes silenciada e até mal-vista: a conversão à fé de pessoas provenientes de outros mundos culturais e religiosos.


Jerôme Nadal(ed.), Jesus é expulso da Sinagoga de Nazaré

2. Um jornalista italiano publicou há anos uma série de entrevistas recolhidas no volume "Novos cristãos da Europa. Dez histórias de conversão entre fé e razão" ("Nuovi cristiani d'Europa. Dieci storie di conversione tra fede e ragione"), Quatro anos depois este jornalista, chamado Lorenzo Fazzini - dinâmico director da EMI, Editorial Missionária Italiana - voltou a explorar oito novas histórias de grandes convertidos. A última entrevista desta nova série saiu no domingo 1 de Setembro de 2013, no jornal da Conferência Episcopal Italiana, "Avvenire". E é história de um convertido do Islão ao Cristianismo, nascido e crescido na Turquia e hoje residente na Alemanha. O seu nome é Timo Aytaç Güzelmansur.

Criado em Antioquia, (que hoje fica na Turquia, mas era uma cidade da Síria, no tempo de Jesus), Timo Aytaç reside na Alemanha. Era turco muçulmano, conheceu Cristo nos Evangelhos, foi baptizado, e hoje é doutor em teologia católica. Timo conheceu Cristo lendo o Novo Testamento, e ficou seduzido por Ele.

Nasceu em 1977 em Antakia, a antiga Antioquia, onde - segundo os Actos dos Apóstolos - os seguidores de Jesus de Nazaré foram chamados cristãos pela primeira vez. Depois da sua conversão e do baptismo, de 2000 a 2005 estudou teologia na Alemanha, em Augusta e depois em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana. Conseguiu uma bolsa para doutoramento na Hochschule Sankt Georgen, de Frankfurt, a mesma faculdade de teologia onde o então jovem jesuíta Jorge Mario Bergoglio tinha a intenção de aperfeiçoar os seus estudos. O seu director de tese foi outro jesuíta, Christoph Tröll, grande especialista do Islão, muito apreciado pela sua competência neste tema pela conferência episcopal alemã e pelo próprio Cardeal Joseph Ratzinger o qual, no ano de 2005, apenas eleito Papa, o chamou para introduzir em Castel Gandolfo a sessão anual de estudos dos seus ex-alunos de teologia. Timo Aytaç Güzelmansur não nega a "perigosidade» de uma conversão num país como a Turquia e, portanto. com maior razão em outros países muçulmanos ainda mais intolerantes. Mas ressalta o facto de que não faltam conversões, também por um motivo análogo ao seu: a descoberta de que Jesus "nos amou até ao ponto de doar-se por nós na cruz".

Transcrevemos em seguida (parcialmente) a entrevista que deu a Lorenzo Fazzini:

Um muçulmano conquistado por Jesus. Entrevista com Timo Aytaç Güzelmansur

- Como ocorreu a sua conversão ao catolicismo?

- Iniciei a aproximação à fé cristã com 18 anos, depois de ter conhecido na minha cidade, Antakia, um cristão que logo se tornou meu amigo. Procedo de uma família muçulmana não particularmente religiosa, mas apesar disso recebi uma instrução baseada em princípios islâmicos: os meus pais pertencem à comunidade alauita [grupo muçulmano derivado dos xiitas]. Depois do meu encontro com alguns cristãos comecei a ler a Bíblia e em especial o Novo Testamento. Imediatamente fascinou-me a pessoa de Jesus. Esta fascinação, que ainda hoje em dia me cativa, e a surpresa (por causa da maravilha) de que Jesus me ama tanto, que foi crucificado e deu a sua vida por mim, são os motivos pelos quais me converti ao Cristianismo.

- Como reagiram as pessoas do seu ambiente perante a notícia da sua conversão cristã?

- Houve diferentes reacções. Na minha família surgiu uma espécie de desconhecimento perante o que significa o facto de que um filho com vinte anos decida receber o baptismo. Provavelmente devido a um sentido de vergonha, causado pela minha decisão de não exteriorizar demasiado os motivos da minha escolha religiosa, verificou-se certo distanciamento entre o meu pai e mim, até ao ponto que durante algum tempo tive que abandonar a casa dos meus pais e emigrar para o Leste da Turquia. Para alguns amigos meus já não era o mesmo de antes. Antes pelo contrário, trataram-me como a um renegado e interromperam todo o contacto comigo.

- Porque decidiu no momento do baptismo mudar o seu nome pelo de Timóteo?

- Aproximadamente dois anos depois do início do meu interesse pelo Cristianismo, tomei a decisão de fazer-me baptizar. Um sacerdote dos Irmãozinhos de Jesus preparou-me para o baptismo. Em 6 de Janeiro de 1997 recebi o baptismo com o nome de Timóteo, na igreja que então era a catedral do vicariato apostólico de Anatólia, na cidade de Mersin. O meu baptismo foi celebrado pela tarde na presença de poucas pessoas. Este nome, escolhi-o eu pessoalmente, porque Timóteo era um seguidor de S. Paulo. Timóteo era originário de Icónio, a actual cidade turca de Konya. Quando ele, juntamente com S. Paulo, começou a evangelizar a Anatólia, era tão jovem como eu quando pedi o baptismo. Numa carta, S. Paulo escreveu a Timóteo: "Que ninguém te despreze por seres jovem. Pelo contrário, torna-te modelo para os fiéis, no modo de falar e de viver, na caridade, na fé, na castidade" (1 Timóteo 4,12).

- Qual foi o aspecto do Cristianismo que o surpreendeu mais?

- Converti-me ao Cristianismo por causa de Cristo! Como já disse, o que me continua a fascinar ainda é o amor de Jesus pelos homens. Ele amou-nos até ao ponto de Se entregar por nós na cruz. Se Jesus doa a sua vida por mim, como posso eu responder? Para mim esta é a pergunta fundamental. E pareceu-me lógico corresponder a este amor seguindo a Cristo e recebendo o baptismo.

E agora poderíamos nós perguntar: que podemos fazer em relação a amigos ou colegas de trabalho que sejam de outra religião?

Oferecer-lhes o Novo Testamento ou pelo menos os Quatro Evangelhos. É bem possível que o amor de Jesus pelos homens também os fascine, e se deixem conquistar por Jesus. E o que venha a acontecer depois, dependerá com certeza da sua liberdade, da sua vontade... e da graça de Deus.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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