7 de Fevereiro de 2016 - Domingo V do Tempo Comum

Mais fé, mais confiança, mais ousadia

1. Que pediu Jesus a Simão Pedro, ao dizer-lhe: "«Faz-te ao largo, e lançai as redes para a pesca»"? Pediu-lhe mais fé, mais confiança, mais ousadia.

Ao ouvir estas palavras, Simão acreditou em Jesus, e, apesar de já ter andado na faina a noite inteira sem ter apanhado nada, lançou as redes. E então, "apanharam tão grande quantidade de peixes, que as redes começavam a romper-se". Foi preciso fazer sinal "aos companheiros que estavam no outro barco para os virem ajudar; eles vieram, e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam".


Rafael, A pesca milagrosa (1515)

Mas, nesse momento, apercebendo-se bem do que tinha acontecido, Simão Pedro reconheceu a sua profunda indignidade diante de Jesus. Daí estas palavras, em que diz exactamente o contrário do que deviam ser os seus desejos mais profundos: "«Senhor, afasta-te de mim, que sou um homem pecador»". Foi como se dissesse: 'Quem sou eu para Jesus me ter revelado o seu poder divino? Eu não sou digno, só tenho de me afastar'.

Mas Jesus respondeu a Simão: "«Não temas, daqui em diante serás pescador de homens»". Foi nessa altura que Simão se tornou Pedro: forte em Jesus, rocha firme em Jesus. E na vida daqueles primeiros discípulos aconteceu, nesse momento, a viragem definitiva: "Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus".

Este episódio só aconteceu uma vez, mas o Evangelho é também para nós, e por isso Jesus diz-nos, a cada um e a todos: "«Faz-te ao largo, e lançai as redes para a pesca»". Que nos pede Jesus com estas palavras? Pede-nos exactamente o que pediu a Simão Pedro: mais fé, mais confiança, mais ousadia. Em primeiro lugar, mais fé em Jesus, mais confiança, mais amor, mais docilidade à sua palavra.

2. Hoje, diante de nós, está Jesus Cristo, o mesmo que Simão Pedro amou e seguiu. Também nós somos chamados a fazer esta experiência admirável do encontro com Jesus vivo, que mudou a vida de Pedro e dos outros discípulos. Jesus está vivo, dizia-nos S. Paulo, na 2ª leitura. Ele "morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro, e depois aos Doze". Nós não somos seguidores de um mestre que um dia ensinou em qualquer parte do mundo, ou de um profeta do passado: acreditamos em Jesus vivo, seguimos e amamos Jesus vivo!

Naquele dia, junto ao mar da Galileia, Jesus confiou a Simão Pedro uma nova tarefa: "«Daqui em diante serás pescador de homens»". Será que a pesca é uma boa imagem para aquilo que Jesus deseja que aconteça com todos? Sim, na pesca normal, os peixes são apanhados e morrem; mas aqui, os seres humanos são atraídos, e vivem! Isto não é nenhuma teoria estranha, foi exactamente o que aconteceu connosco: alguém nos falou de Jesus, nós ficámos cativados, e aceitámos o dom da fé: reconhecemos o valor infinito da sua morte e a vitória deslumbrante da sua ressurreição. Por Jesus, conhecemos o Pai, na comunhão do Espírito Santo. Recebemos o baptismo e os outros sacramentos, em especial o Pão santíssimo da Eucaristia. E, desde então, tudo é diferente na nossa vida. temos esperança. temos alegria, apesar das nossas fraquezas e até dos nossos pecados. Alguém lançou a rede, nós fomos apanhados nela, mas não ficámos presos, pelo contrário, só então nos tornámos pessoas livres, e começámos a ser verdadeiramente felizes.

E Jesus deseja que todos vivam assim! O Evangelho mostra-nos que Jesus esperava que Pedro lançasse as redes no mar profundo da vida, e chamasse muitos homens e mulheres á fé. O mesmo espera que façamos todos nós, na Igreja. Se acreditarmos e confiarmos em Jesus, como Pedro, lançaremos as redes no mar alto, isto é, em todos os ambientes, mesmo os mais difíceis e os que parecem mais distantes de Deus, anunciaremos Jesus a muitas pessoas, que vivem as mesmas alegrias, as mesmas esperanças e as mesmas dificuldades que todos nós, e um grande número será tocado e receberá a graça da fé.

3. Não se trata de fazer discursos, mas sim de falar, com naturalidade, do que todos vivemos. É muito normal que, numa conversa entre amigos, entre colegas. até entre um aluno e um professor, ou entre pessoas de família, a certa altura se fale de Deus, de Jesus Cristo, da oração, do trabalho, do sofrimento, da morte ou do sentido da vida... Não há que ter medo, mas confiar, dizer o que sentimos, contar com simplicidade o que vivemos. Como a nossa fé é verdadeira, é natural que a pessoa com quem falamos, fique tocada; é possível que continue com dúvidas e conserve no seu íntimo ainda muitas perguntas ou dificuldades; mas saberá que, se quiser, poderemos falar de novo, e que terá sempre alguém disponível para voltar a ouvi-la, e para lhe falar de Deus, para lhe anunciar Jesus, como talvez, mesmo sem ainda o reconhecer, já secretamente deseja.

4. O que não podemos é ficar no silêncio ou fechados em nós mesmos, com o receio de sermos incompreendidos ou até criticados por alguns. É impressionante que o profeta Isaías, naquela experiência fortíssima do mistério de Deus que teve no Templo de Jerusalém, num dia preciso que ele nunca mais esqueceu, "no ano em que morreu Ozias, rei de Judá", isto é, no ano 742 a. C, ouve a dado momento "a voz do Senhor, que dizia: «Quem enviarei? Quem irá por nós?»" Deus precisa de enviados, Deus quer que falemos em seu nome! E Isaías, vencendo todo o temor, responde: "«Eis-me aqui: podeis enviar-me»".

Isaías aceitou ser enviado, e com grande clareza e firmeza falou de Deus três vezes Santo ao seu povo. Pedro e os Apóstolos lançaram as redes, e muitos homens e mulheres desde então conheceram e amaram Jesus. S. Paulo viu Jesus ressuscitado, e transmiu a muitos povos este anúncio e esta experiência. Hoje, esta missão é do Papa, dos bispos, dos sacerdotes, mas também de cada fiel cristão, de cada um de nós. Que em todos haja a fé, a confiança e a ousadia de Simão Pedro, para falarmos de Deus, para anunciarmos Jesus Cristo a muitas outras pessoas, com simplicidade, com naturalidade, mas também com a força de uma certeza e com a emoção de um encontro que marcou para sempre a nossa vida.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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