14 de Fevereiro de 2016 - Domingo I da Quaresma

Ser livres e viver como filhos

1. Após o seu baptismo, "conduzido pelo Espírito", Jesus entrou no deserto, onde permaneceu durante quarenta dias, renunciando à companhia dos amigos e até ao alimento, como diz S. Lucas: "Nesses dias não comeu nada, e, passado esse tempo, sentiu fome".

O jejum de Jesus, longo e exigente, é um sinal da sua plena confiança em Deus Pai, é uma expressão do seu sentimento de absoluta dependência filial.

Depois, Jesus enfrenta o tentador, e sai vencedor, No Evangelho de S. Lucas, otentador é chamado «diabo» (em grego: «diábolos»), que significa acusador, caluniador, o que semeia a mentira e a divisão.


As tentações são uma «tentativa» de desviar Jesus do seu caminho. Primeiro, o diabo começa por tentar Jesus, a Quem chama «Filho de Deus», a desconfiar de Deus, a pretexto de obter alimento.

Talvez o tentador pense no primeiro «filho de Deus». Adão, que, no início da história, desconfiou de Deus e Lhe desobedeceu, Mas Jesus, apesar de enfraquecido por um longo jejum, confia na palavra poderosa de Pai, de Quem recebe a vida e o sustento necessário, e permanece fiel.

Depois, o diabo procura seduzi-Lo com o fascínio do poder político e da glória humana. Mas Jesus não cede a essa ilusória tentação, e relativiza todos os poderes e todas as honras: só a Deus - e não aos homens - é devida toda a honra, toda a glória e todo o culto.

Por fim, diante da visão de Jerusalém, onde mais tarde Judas, um dos Doze, virá a ceder ao tentador (Lc 22, 2), e onde o «poder das trevas» virá a irromper com enorme força (Lc 22, 53), Jesus confirma a sua disposição incondicional de obedecer ao plano do Pai. É este plano que O levará um dia - precisamente em Jerusalém, onde termina o seu êxodo - ao dom da sua vida na cruz e, por meio dela, à ressurreição e gloriosa ascensão.

À luz da fé, a leitura do relato das tentações é muito clara: na mente e no coração de Cristo, o plano e a vontade de Deus são decisivos, são a única coisa que importa. Mesmo que este plano venha a implicar uma condenação injusta e uma dolorosa paixão e morte, Jesus empenha-se inteiramente no seu cumprimento. Não põe sequer a hipótese de duvidar de Deus, Não admite a hipótese de deixar de agir como Filho.

Com Jesus, também nós podemos ser livres, e viver como filhos de Deus, S.Paulo dizia na 2ª leitura: "Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo". Ao acreditarmos, não o fazemos só com a "boca", mas também com o "coração", e assim todo o nosso ser estará unido ao mistério de Cristo e aberto ao dom da salvação.

2. E agora queria deixar-vos algumas sugestões práticas para viver bem a Quaresma e chegarmos à Páscoa como vencedores. Todos estamos familiarizados com a tradição de fazer alguma penitência durante a Quaresma, isto é, de renunciarmos a alguma coisa de que gostamos especialmente. Mas não pode ser apenas um belo costume, tem de ser mesmo uma prática efectiva.

Os dias de jejum em sentido mais estrito que a Igreja nos propõe são apenas dois: Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira Santa. Mas não é proibido fazer jejum ou privar-nos de alguns alimentos, sobretudo os que nos agradam mais, noutros dias! Todas as sextas-feiras da Quaresma são também dias de abstinência, em que nos é recomendado não comer carne. Esta prática pode parecer irrelevante a alguns, mas não deixa de ser um sinal, que não deve ser desprezado com ligeireza.

Outra boa prática é a de ler diariamente durante alguns minutos algum livro de leitura espiritual, além de ler, também diariamente. e numa leitura contínua, o Evangelho ou outro livro do Novo Testamento.

Também já está muito divulgado o hábito de ler as Leituras da Missa ao longo da semana. Um dos modos de o fazer é através do site Evangelho Quotidiano, (disponível em: http://www.evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT) ou encontrando-as em algumas publicações, nomeadamente A Liturgia diária da Editora Paulus, que é muito útil.

Muitas pessoas, na Quaresma. sentem particular devoção em rezar a Coroa da Divina Misericórdia, que está muito focado na Paixão de Cristo. Também é muito adequado ao tempo da Quaresma fazer as Via-Sacra, que iremos fazer na Igreja dos Jerónimos, todas as sextas-feiras, às seis e meia da tarde. Uma outra possibilidade seria rezar e meditar os sete Salmos penitenciais, um em cada dia da semana. Trata-se dos Salmos 6: 31(32): 37(38); 50(51); 101; (102) 129(130): 142(143). A tradição cristã utiliza estes salmos para invocar do Senhor o perdão dos pecados.

Também gostaria de sugerir a participação na Missa pelo menos mais um dia por semana, e o Terço diário (para os mais novos um mistério). Simultaneamente, seria bom um recurso mais frequente ao Sacramento da Confissão ou Reconciliação, que pode ser recebido mais do que uma vez daqui até à Páscoa, como sinal de um sincero desejo de conversão e purificação que queremos cultivar para celebrar intensamente a morte e a ressurreição de Cristo.

3. Por fim, e correspondendo à insistência do Papa Francisco, daremos um especial relevo às Obras de Misericórdia. "Será mesmo um bom exercício quaresmal - sugere-nos o Senhor Cardeal Patriarca na sua Mensagem Quaresmal - aprendê-las de cor até à Páscoa, e não me parece demais começar já aqui:

As corporais: 1ª) Dar de comer a quem tem fome. 2ª) Dar de beber a quem tem sede. 3ª) Vestir os nus. 4ª) Dar pousada aos peregrinos. 5ª) Assistir aos enfermos. 6ª) Visitar os presos. 7ª) Enterrar os mortos.

As espirituais: 1ª) Dar bom conselho. 2ª) Ensinar os Ignorantes. 3ª) Corrigir os que erram. 4ª) Consolar os tristes. 5ª) Perdoar as injúrias. 6ª) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo. 7ª) Rogar a Deus por vivos e defuntos".

E continua o Senhor Cardeal Patriarca: "Estou certo de que, lembrando cada uma, imediatamente nos ocorrem concretizações urgentes ou possíveis. Nas nossas casas, comunidades, escolas, hospitais, prisões, locais de trabalho ou convívio, não faltam ocasiões e apelos".

Peçamos a graça de seremos mais generosos nestas (ou noutras) concretizações do nosso caminho quaresmal, sobretudo naquelas privações voluntárias que nos tornam mais ágeis para servir e amar. Aquilo que não gastarmos, por nos privarmos livremente, servirá para ajudar os outros, os que mais precisam. Assim chegaremos à Páscoa mais convertidos, mais livres por dentro, mais disponíveis para participar no grande mistério da morte de Cristo e na imensa alegria da sua ressurreição.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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