21 de Fevereiro de 2016 - Domingo II da Quaresma

O centro da História

1. A primeira leitura de hoje, do capítulo 15 do Génesis, fala-nos de Abrão (mais tarde o seu nome passou a «Abraão»), que começa por ser elogiado pela sua fé: «Abrão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça". Quer dizer, a fé de Abrão tem valor aos olhos de Deus, Abrão tem mérito por acreditar.

Na verdade, a fé em Deus tem mérito, porque a fé não é uma evidência. Nem é o resultado de um cálculo. Não fazemos as contas, não pensamos e analisamos primeiro tudo muito bem, e por fim dizemos: «compensa». Não, da parte de Deus a fé é um dom, e da nossa parte é um gesto de entrega.


De certo modo a fé é um risco.

Quem acredita em Deus confia para além do que vê. Confia, baseado em sinais, em experiências que fez, em testemunhos que ouviu. Mas a fé vai para além desses sinais, dessas experiências, desses testemunhos. Quem crê, confia, e, mesmo sem ver, mesmo ainda sem entender completamente, entrega­se nas mãos de Deus.

Assim fez Abrão. Mas depois, como muitas vezes acontece connosco, surgiu uma inquietação no seu espírito. Abrão mostra-se preocupado; Deus prometeu-lhe uma grande descendência, mas ele nem sequer teve ainda o seu primeiro filho. Como irá Deus cumprir a sua promessa?

E foi então que Deus mandou Abrão oferecer alguns animais em sacrifício, como era costume naquele tempo. Era um sacrifício especial, que se usava quando se fazia uma aliança entre duas pessoas. Os animais eram cortados a meio, e os contraentes passavam entre as duas metades, indicando que antes queriam que lhes acontecesse uma coisa parecida, do que faltarem ao seu compromisso.

Mas as horas passaram, e, ao pôr do sol,já quase sem luz, Abrão sentiu-se muito cansado, sonolento, e foi assaltado por "um grande e escuro terror".

De onde lhe veio esta angústia? Seria medo de Deus? Julgo que não, era apenas o temor de que Deus, afinal, talvez não cumprisse a sua promessa. Já tinha passado tanto tempo! No entanto, quando o sol se pôs e caiu a noite, quando já era total a escuridão, surgiu uma chama ardente, "um archote de fogo", que passou por entre as metades dos animais...

E Abrão entendeu que essa chama era um sinal de Deus. Ou melhor, percebeu que era o próprio Deus, simbolizado pelo fogo, que tinha passado por entre as vítimas, selando e confirmando assim definitivamente a sua aliança com ele.

2. É impressionante a imagem de Deus que este texto, de resto tão antigo e tão "primitivo», mas ao mesmo tempo tão expressivo, nos dá. Deus adapta-se aos costumes dos tempos, para vir ao nosso encontro, O que Deus queria mesmo era estabelecer uma aliança com Abrão, unir-se com ele para sempre, não por necessidade nem por interesse, mas por amor. Deus é fogo, é amor ardente, que se sujeita a tudo para nos pedir o nosso amor!

Deus queria, a partir de Abrão, formar um povo, que O pudesse também conhecer e amar. E desse povo, muitos séculos depois. nasceu um dia Jesus Cristo, que, sendo descendente de Abraão (que significa: «pai de uma multidão») e ao mesmo tempo filho eterno de Deus, estendeu a aliança que Deus tinha estabelecido, não apenas a um povo. mas a todos os povos e a todos os homens e mulheres da Terra.

Neste texto do Génesis, vê-se, no entanto, que o âmbito da promessa a Abraão era ainda limitado, era ainda "terreno», consistia numa grande descendência e numa terra imensa: "Aos teus descendentes da;c esta terra. desde o rio do Egipto, até ao grande rio Eufrates".

Parece muito, mas por outro lado, é tão pouco! Este mundo é belo, e a nossa vida aqui é muito intensa. Mas sentimos que não é tudo, não esgota os nossos desejos, não nos faz completamente felizes. Mesmo que fôssemos donos da Terra inteira. não seríamos plenamente felizes!

S. Paulo, na 2ª leitura, da Epístola aos Filipenses, explica porquê. A razão é esta: não somos só daqui, deste mundo, desta Terra. Diz S. Paulo: "A nossa Pátria está nos Céus".

Aqui, neste mundo, vivemos e trabalhamos intensamente, mas não queremos esquecer essa Cidade a que pertencemos e para onde vamos. Se a esquecêssemos, que sentido teriam os nossos esforços e as nossas alegrias?

3. Dessa Pátria, diz ainda S. Paulo, "esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso". Cristo ressuscitado tem o poder de realizar em nós esta «mutação» radical, esta mudança definitiva, para que, na Pátria eterna, realizemos plenamente a nossa humanidade, tal como Deus a pensou e idealizou.

E como será essa humanidade transformada pelo poder de Cristo, Senhor do Universo? Não o imaginamos facilmente, mas a experiência dos três Apóstolos que subiram ao monte com Jesus é também luminosa e esclarecedora para nós.

4. Pedro, Tiago e João acompanharam Jesus, que "subiu ao monte para orar". E, "enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto, e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente". Foi só um breve instante, mas deixou Pedro e os outros Apóstolos completamente fascinados: "«Mestre, como é bom estarmos aqui...!»"

Mas não foi só uma experiência estética ou emotiva, foi também uma experiência luminosa para a inteligência, para o espírito.

Para os discípulos, a presença de Moisés e Elias explica muita coisa, e manifesta que Jesus é o centro da história da salvação: tudo converge para Ele, e d'Ele tudo parte para chegar a todos. Da sua morte - sobre a qual Moisés e Elias falavam com Jesus - jorra a vida para todos. É este o sentido da Páscoa, que uma vez mais nos preparamos para celebrar.

Mas quem nos explica tudo, não é Moisés nem Elias, é o próprio Jesus, e explica-nos, não só as coisas boas e belas, mas também o que supera a razão, também o que parece não ter sentido, também o sofrimento, também a própria morte. Por isso Deus Pai nos diz: "«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O»".

Escutando Jesus, faz-se luz no nosso espírito. em muitos casos depois de uma longa obscuridade, e o nosso coração, mesmo que estivesse frio, gelado, seco, indiferente, ficaria de novo apaixonado.

Façamos mais silêncio na oração para escutar Jesus, e as nossas palavras e toda a nossa vida falarão d'Ele, para que a vida neste mundo, mesmo através do sofrimento e da morte, seja um caminho para a vida plena e para a glória, na Cidade de Deus.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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