17 de Abril de 2016 - Domingo de IV da Páscoa

Ao serviço do povo santo de Deus

1. Um dia, Jesus andava a caminhar junto ao Templo de Jerusalém, no pórtico de Salomão, e foi rodeado por um grupo de homens, que tinham o coração fechado. Jesus entristeceu­Se profundamente pela sua dureza de coração e pela sua falta de fé, e disse-lhes: "vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas" (João 10, 26).

No entanto, Jesus sabia que havia outros que ouviam com amor as suas palavras, como as ovelhas que reconhecem com alegria a voz do pastor, e vão com ele para toda a parte. E sobre estes, disse: "As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas, e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna" (João 10, 27 -28).


Os que hoje são pastores em nome de Jesus - o Papa, os Bispos e os sacerdotes - é isto que têm de oferecer às suas ovelhas: a vida eterna. É para aí que as têm de encaminhar: para vida eterna. Tudo o resto é secundário. Tudo o resto é relativo. Depois, falando de novo das suas ovelhas, assegura Jesus: "E elas jamais hão-de perecer. E ninguém as arrebatará da minha mão" (João 10, 28). É evidente que sempre houve e há, também hoje, muitas, dificuldades, perseguições, tentações de todo o tipo, que nos poderiam afastar de Jesus, mas nunca ninguém o conseguirá, se nós não consentirmos, porque foi o Pai que nos deu a Jesus, "e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai" (João 10, 29).

Isto implica que podemos viver a nossa fé com a consciência dos muitos perigos que a rodeiam, mas também com grande confiança: fomos dados a Jesus pelo Pai, e por isso acreditamos que ninguém nos pode roubar da mão de Jesus, ninguém nos pode arrebatar da mão do Pai.

Pergunta Santo Agostinho: "Que pode fazer o lobo? Que podem fazer o ladrão e o salteador? (...) Destas ovelhas, o lobo não pode arrebatar nenhuma, nem o ladrão roubar, nem o salteador matar. Aquele que sabe o quanto pagou por elas, está seguro do seu número".

2. Quanto a nós, sabemos bem que tudo começa pela escuta da voz do Bom Pastor: "As minhas ovelhas escutam a minha voz" Depois é que vem o conhecimento e o seguimento: "Eu conheço as minhas ovelhas, e elas seguem-Me". É necessário dispormo-nos a escutar, baixar o ruído à nossa volta, fazer silêncio para ouvir, procurar captar e entender, e depois seguir o Pastor.

Estas palavras de Jesus, no entanto, põem-nos uma questão: como podemos escutar a sua voz? Escutamos Jesus, principalmente, na leitura do Santo Evangelho, na nossa oração pessoal e na Liturgia da Igreja. Todos temos a experiência de que é assim.

No entanto, também sabemos que nunca ninguém ouviu Jesus na intimidade do seu coração, sem que primeiro, antes, alguém lhe tenha já feito pelo menos um primeiro anúncio de Jesus. Não se descobre Jesus por simples meditação, mas pelo testemunho de outro cristão, que já vive a graça de fé. Sem haver um primeiro anúncio de Jesus Cristo, feito por outro cristão, será impossível conhecê-Lo e amá-Lo.

Nos Actos dos Apóstolos, lemos como S. Paulo e S. Barnabé anunciavam Jesus Cristo em várias cidades da Ásia Menor. Numa dessas cidades, Antioquia da Pisídia, (na actual Turquia), houve muitos Judeus e prosélitos, isto é, convertidos ao judaísmo, que, após a pregação de S. Paulo, passaram a seguir os dois apóstolos, e "no sábado seguinte, reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra do Senhor" (Actos 13, 44). Como era de prever, surgiram invejas e blasfémias por parte dos Judeus, e então Paulo e Barnabé perceberam que deviam voltar-se especialmente para os gentios. Sentiram que era necessário fazê-lo, e era isso que Deus queria. Naturalmente, quando ouviram isto, "os gentios encheram-se de alegria, e glorificavam a palavra do Senhor" (Actos 13, 48). Houve grande entusiasmo e muitas conversões! É claro que também houve logo perseguições, Paulo e Barnabé foram expulsos da cidade, e tiveram que seguir para uma cidade vizinha, Icónio, mas não se afligiram por causa disso, e "os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo" (Actos 13, 52).

3. Qualquer cristão pode falar de Jesus a outra pessoa? Sim, este anúncio de Jesus, que conduz á fé, cada cristão pode fazê-lo, com toda a naturalidade, em todas as circunstâncias, a qualquer outra pessoa, mas há alguns, por vontade de Deus, como S. Paulo e os outros Apóstolos, que são especialmente consagrados para o fazerem. E é necessário que seja assim. Faz parte da dinâmica da vida cristã, que alguns dediquem a sua vida ao anúncio de Jesus Cristo e ao serviço dos seus irmãos. Como escreveu um dia (em 2004) S.João Paulo II na sua mensagem para este Domingo, Dia Mundial de Oração pelas Vocações, "trata-se de homens e mulheres que aceitam colocar a existência totalmente ao serviço do seu Reino".

4. Não é uma simples decisão sua, mas é Deus que os chama, na Igreja, para o bem de todos. E é por isso que hoje todos nos unimos em oração ardente pelas vocações de especial entrega a Deus, e em particular pelas vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao serviço missionário. É necessário pedir confiadamente a Deus estas vocações. S. João Paulo II dizia que é preciso implorar este dom com insistência e humildade confiante".

Nas paróquias e nas famílias esta oração deve ser constante. Além da oração, podemos oferecer com amor sofrimentos e sacrifícios pelas vocações. Aqueles que Jesus chama são pessoas normais, habitualmente jovens, iguais aos outros jovens da sua idade, rapazes ou raparigas. E às vezes acontece, quando menos se espera, que se começa a ouvir um apelo especial. É Jesus que chama. Em alguns casos, torna-se logo uma evidência. Noutros, talvez mais frequentes. não se tem logo a certeza. E então começa um caminho, que pode ser longo, de procura e discernimento.

Com a oração proposta pelo Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, rezemos:

Pai de misericórdia, que destes o vosso Filho pela nossa salvação e sempre nos sustentais com os dons do vosso Espírito, concedei-nos comunidades cristãs vivas, fervorosas e felizes, que sejam fontes de vida fraterna e suscitem nos jovens o desejo de se consagrarem a Vós e à evangelização. Sustentai-as no seu compromisso de propor uma adequada catequese vocacional e caminhos de especial consagração. Dai sabedoria para o necessário discernimento vocacional, de modo que, em tudo, resplandeça a grandeza do vosso amor misericordioso. Maria, Mãe e educadora de Jesus, interceda por cada comunidade cristã, para que, tornada fecunda pelo Espírito Santo, seja fonte de vocações autênticas para o serviço do povo santo de Deus.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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