24 de Abril de 2016 - Domingo V da Páscoa

Novo Céu e nova Terra

1. Na 1ª leitura de hoje assistimos ao final da primeira viagem missionária de S. Paulo. Acompanhado por S. Barnabé, S. Paulo regressa a Antioquia, na Síria, de onde ambos tinham partido. No fim desta emocionante viagem missionária, que decorreu entre os anos 45 e 49, Paulo e Barnabé traziam o coração cheio de alegria e gratidão: quando partiram, iam "confiados na graça de Deus"; agora, ao regressar, "convocaram a Igreja", e "contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé".

Tinha sido uma viagem cheia de frutos, à sua palavra muitas pessoas se tinham convertido, mas os dois apóstolos atribuem a Deus todas estas conversões, pois Deus é que tinha actuado, e eles tinham sido nas suas mãos instrumentos dóceis e fiéis.


O Anjo mostra a João a Nova Jerusalém (Apocalipse de Bamberg Folha 55)

Que fazemos nós, para ajudar a abrir a muitas pessoas "a porta da fé"? Quando damos catequese ou realizamos qualquer outro apostolado, quando falamos de Jesus aos nossos amigos ou abordamos temas de fé com outras pessoas, confiamos na graça de Deus e na acção do Espírito Santo? Tal como os pastorinhos de Fátima, rezamos e oferecemos sacrifícios pelas pessoas que desejaríamos que se convertessem a Jesus? Quando surgem obstáculos ou dificuldades, pedimos ajuda a Deus, e continuamos alegres e confiantes, sem desistir nem desanimar?

2. No mundo em que vivemos, o mal às vezes parece que é mais forte do que o bem, o maligno parece às vezes que é o senhor do mundo. Mas a fé diz-nos sem hesitar que, apesar destas aparências, o mundo novo já começou. Hoje, na 2ª leitura, somos convidados a ver, na luz da fé, o que viu S. João, autor do Apocalipse, no termo nas suas visões sobrenaturais: "Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia".

Apesar do que é costume pensar, S. João não está a falar aqui do fim dos tempos nem do fim do mundo, mas sim da substituição do mundo antigo, simbolizado pela Antiga Aliança e suas instituições, pelo mundo novo, iniciado pela morte e ressurreição de Cristo.

Logo depois acrescenta: "Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo". A nova Jerusalém desce do Céu, porque é de origem divina. E é santa, porque é definitivamente consagrada a Deus.

A nova Jerusalém, que já existe hoje na Terra, é a Igreja de Cristo. Aparece representada como uma noiva preparada para as núpcias, simbolizando assim a união dos fiéis com o seu Senhor. E a festa do banquete destas núpcias é a Eucaristia, que desde o início os cristãos celebraram fielmente no Dia do Senhor, e a partir de certa altura também todos os dias.

Os sinais do mundo antigo, em especial a morte e a tristeza, vão desaparecer, e o próprio Deus - caso único em todo o Apocalipse - toma a palavra e promete solenemente: " «Vou renovar todas as coisas» ".

Deus acendeu nos nossos corações a esperança deste mundo novo, um mundo em que a vitória de Jesus ressuscitado se estenderá a todas as dimensões da vida, e não devemos deixar que a chama desta esperança se apague em nós. Não nos devemos resignar ao mundo, tal como ele existe hoje. Este mundo não é definitivo, não nos «enche as medidas", e precisa de ser, desde já, profundamente purificado e renovado.

3. Hoje, pedimos por intercessão do Imaculado Coração de Maria, que esta purificação e renovação comecem por nos, pelos nossos coraçoes e por toda a nossa vida. Que a nossa vida seja já hoje renovada, convertida, pela graça de Cristo, e assim sejamos fermento de um mundo novo, transformado pela presença de Deus e pela sua inesgotável misericórdia.

Jesus, no Evangelho, não nos convida a uma vida 'mediana', em que apenas se procura não cometer grandes erros, nem grandes desvios, mas sim a uma vida entregue, segundo a medida do seu amor levado "até ao fim" (João 13, 1).

Há diversas religiões e «sabedorias» da humanidade que são animadas por ideais de harmonia, equilíbrio e bom senso, mas a fé cristã é completamente diferente. Nós não somos chamados a um certo 'equilíbrio', mas sim uma entrega total a Deus, porque Jesus, ao morrer por nós, deu-nos a prova máxima do amor (João 15,3). E a nós, cabe-nos, simplesmente, corresponder!

4. E por isso, Jesus, no Evangelho de hoje, não nos manda ser apenas 'boas pessoas', mas diz-nos: " «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros»".

O amor de Jesus é o modelo, a fonte, a inspiração e o referencial de todo o amor humano.

Todos nos podemos perguntar: estou a amar como Jesus? Ou o meu amor é apenas terreno, mundano, fechado, egoísta? Os que são casados ou os que são solteiros, os noivos que preparam o seu casamento ou os jovens que estão no Seminário, os doentes e os sãos, os idosos e os mais novos: todos somos chamados a amar como Jesus.

O amor de Jesus é dom, mais do que posse, é esquecimento de si, para pensar no outro, e é muitas vezes renúncia, feita com alegria, para fazer os outros mais felizes.

O amor de Jesus leva os namorados a guardar­se na pureza e castidade, até ao dia em que, pela mão de Jesus, cada um se dê ao outro para sempre. Leva os casais a uma fidelidade de coração e de todo o ser, que não se discute e nunca está em questão. E leva até alguns a renunciar a um amor humano, para servir com alegria e por amor, na Igreja, os outros irmãos.

" «Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros» ". Segundo conta Tertuliano, numa obra escrita no ano 197, os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas palavras de Jesus, que os gentios exclamavam, admirados: «Vede como eles se amam!» (Apologeticum, 39, 7).

Nós acreditamos no amor de Jesus Cristo, e acreditamos que é possível vivê-lo. Isto não significa que sejamos perfeitos: continuamos a ser imperfeitos e até pecadores.

Mas pedimos-Lhe que nos dê um coração novo, capaz de viver o seu mandamento novo, e assim consigamos antecipar, à nossa volta e no mundo em que vivemos, esse tempo que ansiosamente esperamos, em que o próprio Deus fará novas "todas as coisas".

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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