8 de Maio de 2016 - Domingo Ascensão do Senhor

A Ascensão do Senhor:
sublime, racional e útil

Do comentário de São Tomás de Aquino: Exposição sobre o Credo.
«Subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso»

1. Depois de se afirmar a Ressurreição de Cristo, professamos a fé na sua Ascensão, pois Ele subiu ao céu após quarenta dias de ressuscitado. Eis por que se diz no Credo: "Subiu aos céus." Devemos considerar as três características principais deste acontecimento, isto é, que ele foi sublime, racional e útil.

Foi sublime, porque Ele subiu para os céus. Explica-se isto de três maneiras.


Matthew Aldermann, A Última Ceia

Primeiro, porque Ele subiu acima de todos os céus corpóreos, conforme se lê em São Paulo: Subiu acima de todos os céus (Efésios 4, 10). Tal ascensão foi realizada pela primeira vez por Cristo, porque, até então, o corpo terreno estivera somente na terra, uma vez que o paraíso, onde esteve Adão, estava situado também na terra.

Segundo, porque subiu sobre todos os céus espirituais, isto é, acima das naturezas espirituais, como se lê também em São Paulo: "e [o Pai] colocou [Cristo] à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir". Tudo submeteu aos seus pés (Ef 1, 20).

Terceiro, porque subiu até o trono do Pai. Lê-se nas Escrituras: Eis que vinha sobre as nuvens do céu como um Filho de Homem; Ele dirigiu-se para o Ancião, e foi conduzido á sua presença (Daniel 7, 13). Lê­se também em S. Marcos: E o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, subiu ao céu, e sentou-se à direita de Deus (Mc 16, 19).

A expressão direita de Deus não deve ser entendida em sentido corporal, mas em sentido metafórico. Enquanto Deus, diz-se que Cristo está sentado à direita de Deus, porque é igual ao Pai; enquanto homem, diz-se que Cristo está sentado à direita do Pai, porque goza dos melhores bens. O diabo aspirou também a semelhante elevação, como se lê em Isaías: Subirei ao céu, acima dos astros de Deus colocarei o meu trono; sentar-me-ei no Monte da Promessa, que está do lado do Aquilão; subirei acima da elevação das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo (Isaías 14, 13-14). Mas a tal altura não se elevou senão Cristo, razão pela qual se diz no Credo: Subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, o que é confirmado no Livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita (Salmo 109, 1).

2. A Ascensão de Cristo foi racional por três motivos. Primeiro, porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua natureza. E, com efeito, natural que cada coisa retome a sua origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas as coisas, conforme Ele mesmo disse: Saí do Pai, e vim ao mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai (Jo 16, 28). Disse também: ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu (João 3, 13).

Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como Cristo: porque Cristo o fez pelo seu próprio poder; os santos, porém, são levados por Cristo. Lê-se no Livro dos Cânticos: Leva-me atrás de ti (Cântico dos Cânticos l, 4).

Pode-se explicar de outra maneira porque se diz que ninguém subiu ao céu a não ser Cristo: os Santos não sobem senão enquanto membros de Cristo; que é a cabeça da Igreja, conforme está escrito em São Mateus: Onde estiver o corpo, aí se juntarão as águias (Mateus 24, 28).

Em segundo lugar, a Ascensão de Cristo foi racional devido à sua vitória. Sabemos que Cristo veio ao mundo para lutar contra o diabo, e o venceu. Por isso mereceu ser exaltado sobre todas as coisas. Confirma-o o Apóstolo: Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono Eu venci, e sentei-me com o Pai no seu trono (Apocalipse 3, 21).

A Ascensão de Cristo foi racional, em terceiro lugar, por causa da humildade de Cristo, que, sendo Deus, quis fazer-Se homem; sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo. fazendo-se obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses (2, 6-8), descendo ainda até à morada dos mortos. Por isso mereceu ser exaltado até ao céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é. com efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: Quem se humilha, será exaltado (Lucas 14, 11). Escreveu também São Paulo: O que desceu do céu, este é o que subiu acima de todos os céus (Efésios 4, 10).

3. A Ascensão de Cristo foi, além de sublime e racional, também útil. Essa afirmação pode ser esclarecida em três dos seus aspectos.O primeiro, refere-se ao fim da Ascensão, pois Cristo foi para o céu para nos conduzir até lá. Desconhecíamos o caminho, mas Ele no-lo ensinou. Lê-se: Subiu, abrindo o caminho na frente deles (Miqueias 2,13). Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino celeste, conforme se lê em S. João: Vou preparar-vos um lugar (João 14, 2).

O segundo, refere-se à segurança que a Ascensão nos trouxe, pois subiu aos céus para interceder por nós. Lê-se: Ele pode salvar de um modo definitivo aqueles que por meio d'Ele se aproximam de Deus, pois Ele está vivo para sempre, a fim de interceder por eles (Heb 7, 25). Lê-se também: Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo (1 João 2,1).

O terceiro, para atrair a si os nossos corações, segundo está escrito em S. Mateus: Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração (Mateus 6, 21), e para que desprezemos as coisas temporais, como nos exorta o Apóstolo S. Paulo: Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreal as coisas do alto e não as da terra (Colossenses 3,1-2).

S. Tomás de Aquino. Exposição sobre o credo.
Tradução e notas: D. Odilão Moura, OBS.
4ª Edição. São Paulo: Edições Loyola, 1997, p.59-61.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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