5 de Junho de 2016 - Domingo X do Tempo Comum

A vida nova em Jesus Cristo

1. No episódio que nos relata S. Lucas estão presentes dois grupos bem definidos de pessoas: O primeiro é o triste cortejo que acompanha até ao cemitério o jovem filho de uma mãe viúva; e o outro é o grupo em festa dos discípulos que seguem Jesus e O escutam.

De todos os olhares que se possam ter cruzado nesse inesperado encontro, destaca-se o olhar de Jesus, cheio de misericórdia. O Evangelho diz-nos que, vendo o sofrimento daquela viúva que, tendo perdido o seu único filho, estava mergulhada em profunda tristeza e solidão, "o Senhor compadeceu-Se dela".


A compaixão consiste em «sofrer com alguém", isto é, em fazer nosso o sofrimento dessa pessoa, e procurar suavizá-lo. Jesus tem compaixão dela: as lágrimas desta mulher tocam o Seu coração. E então o Senhor consola a viúva, dizendo-lhe: "Não chores!"

Quando um sofrimento nos faz derramar lágrimas, e um amigo nos diz: «Não chores", como isso é consolador! É já o princípio de uma mudança, sente-se brilhar uma primeira luz de esperança. A primeira palavra de Cristo é sempre para reconfortar, tranquilizar e ajudar, em todas as circunstâncias.

Mas a seguir, o Senhor toca o ataúde. Suspende o cortejo da morte. Jesus muda a história. Trava a" descida da humanidade para o não-ser, para o abismo do Inferno.

E depois dá uma ordem. "Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te»". Eu, que sou o Verbo do Pai, mando-te que voltes a viver. E.o morto sentou-se e começou a falar". Estar de pé e começar a falar são dois sinais visíveis de vida. O jovem ressuscitou, e diante de uma multidão de testemunhas. É a primeira vez que o Senhor ressuscita um morto. Este milagre confirma tudo o que disse na Montanha.

2. Mas esta história admirável não acaba aqui. O Evangelho acrescenta uma frase que tem um alcance que ultrapassa o gesto imediato: "Jesus entregou-o à sua mãe". Agora a viúva simboliza Eva, a quem Jesus entrega a humanidade, que ela tinha gerado para a morte. Mas a personagem da viúva pode simbolizar também a Igreja, como diz Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja:

"Parece-me que esta viúva, rodeada por uma grande multidão, é mais do que uma simples mulher que merece, pelas suas lágrimas, a ressurreição de um filho Jovem e único. Ela é a imagem da própria Santa Igreja que, através das suas lágrimas, no meio do cortejo fúnebre e até ao túmulo, consegue chamar à vida o jovem povo que é o mundo. [...]

"Porque, à palavra de Deus, os mortos ressuscitam, recuperam a voz, e a mãe reencontra o seu filho; ele é chamado do túmulo, arrancado ao sepulcro. Que túmulo é este para vós senão a vossa má conduta? O vosso túmulo é a falta de fé. [...] Cristo liberta-vos deste sepulcro; saireis do túmulo se escutardes a palavra de Deus. E, se os vossos pecados forem demasiado graves para poderem ser lavados pelas lágrimas da vossa penitência, intervirão por vós as lágrimas da vossa mãe, a Igreja. [...] Ela intercede por todos os seus filhos como o faria por outros tantos filhos únicos. Na verdade, ela está repleta de compaixão e sente uma dor espiritual multo maternal, quando vê os seus filhos serem arrastados para a morte pelo pecado" (Sobre o Evangelho de São Lucas, V, 89).

Comenta também Santo Agostinho: "A mãe viúva alegra-se com o seu filho ressuscitado. A mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo. estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos Aquele que os conhece, Aquele que os pode fazer regressar à vida" (Sermo 98,2).

Na viúva de Naim, como escreveu um sacerdote ortodoxo (Pêre Noêl Tanazacq) podemos ainda ver uma imagem de Maria, porque a Santa Mãe de Deus convida toda a humanidade ao arrependimento. E as suas "lágrimas não deixam de sensibilizar o Coração do seu Filho, como já aconteceu em Caná. Maria resgata Eva.

Os dois cortejos agora são um só. Todos estão unidos em Jesus, todos seguem Jesus Cristo, que os conduz para a felicidade eterna, para a vida nova, para a vida divina. E todos, profundamente admirados, diziam: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo".

3. 0 milagre que Jesus fez, ressuscitando o filho da viúva, dá­nos ainda um grande exemplo dos sentimentos que devemos ter diante das desgraças alheias. Consolar os tristes é uma das Obras de Misericórdia espirituais. Devemos aprender com Jesus!

E para termos um coração semelhante ao seu, devemos recorrer em primeiro lugar à oração: "Havemos de pedir ao Senhor que nos dê um coração bom, capaz de se compadecer das penas das criaturas, capaz de compreender que. para remediar os tormentos que acompanham e tanto angustiam as almas neste mundo, o verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade; todas as outras consolações só servem para nos distrair por um momento e deixar depois amargura e desespero.

Se queremos ajudar os outros, temos de os amar - deixai-me insistir - com um amor que seja compreensão e entrega, afecto e humildade voluntária (S. Josemaria, Cristo que passa, n.167).

Que a intercessão de Maria nos obtenha a capacidade de amar assim, como o próprio Jesus.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo