10 de Julho de 2016 - Domingo XV do Tempo Comum

Fazer mais, fazer melhor

1. A parábola do bom samaritano é uma das mais elaboradas e belas de todo o Evangelho. Jesus contou-a em resposta a uma pergunta de um doutor da lei: “E quem é o meu próximo?”

Nesta parábola, além do homem que foi assaltado, vemos um sacerdote e um levita, que deviam ser pessoas zelosas e cumpridoras da Lei. E aparece também um samaritano, que não pertencia ao povo Judeu, e por isso era olhado com certo desprezo.


Julius Schnorr von Carolsfeld, O bom samaritano (1851-1860)

O sacerdote e o levita, com medo de se contaminarem com um homem que parecia morto, passaram adiante.

Mas foi o samaritano que tratou do homem ferido, com todo o cuidado e carinho, sem olhar a despesas. E estava disposto a continuar a ajudar, se fosse preciso. As suas últimas palavras, dirigidas ao estalajadeiro, são estas: “Trata bem dele; e o que gastares a mais, eu to pagarei, quando voltar”. Assim termina a parábola contada por Jesus.

E nessa altura, aparece uma segunda pergunta, feita agora por Jesus ao doutor da lei: “Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” E a resposta não oferece dúvidas: é evidente! O doutor da lei deve ter ficado um instante em silêncio, pensou um pouco…, e não foi capaz de dizer: «o samaritano». Custava-lhe pronunciar essa palavra. Mas, pelo menos, respondeu claramente: “O que teve compaixão dele”. Jesus aceitou esta resposta, e acrescentou: “Então vai tu e faz o mesmo”.

Continuando a pensar, o doutor da lei deve ter concluído um pouco depois: «Na verdade, há pessoas que não pertencem ao meu povo, e também são boas, também fazem coisas boas…» E é natural que tenha decidido passar a olhar os outros com olhos novos, e a agir de um modo novo, com mais justiça e mais caridade, mais eficazmente.

2. A parábola do bom samaritano representa, portanto, um desafio feito por Jesus aos membros do Povo eleito, que hoje somos nós, a sua Igreja, a rever o que faz em favor dos outros, sejam eles quem forem. Se há pessoas, fora da Igreja, que fazem coisas boas, quanto mais e melhor não deveremos fazer nós, que somos cristãos!

É este o grande desafio do Evangelho: fazer mais, fazer melhor.

Muitas vezes este «fazer mais, fazer melhor» significa dar de comer a quem tem fome, ou qualquer das outras obras de misericórdia corporais. Vamos recordá-las uma vez mais:

1) Dar de comer a quem tem fome
2) Dar de beber a quem tem sede
3) Vestir os nus
4) Dar pousada aos peregrinos
5) Visitar os enfermos
6) Visitar os presos
7) Enterrar os mortos

Mas, outras vezes, «fazer mais, fazer melhor» também significa ajudar a pensar melhor, ou ainda qualquer das outras obras de misericórdia espirituais:

1) Dar bom conselho
2) Ensinar os ignorantes
3) Corrigir os que erram
4) Consolar os tristes
5) Perdoar as injúrias
6) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo
7) Rezar a Deus por vivos e defuntos.

3. S. Tomás de Aquino diz que o que nos distingue como homens, o que faz de nós imagens de Deus, tal como Deus nos criou, segundo se lê no Livro do Génesis (1, 27), é o intelecto e a mente. Muitas vezes, porém, os piores erros e confusões que os seres humanos cometem, situam-se ao nível do pensamento, do exercício da sua inteligência e das suas capacidades espirituais.

Por isso, o «bom samaritano» de hoje também tem de ajudar a pensar! Em vez do pensamento erróneo de que somos filhos do caos ou do acaso, produto de uma evolução cega, é preciso ajudar a descobrir os sinais da presença de Deus, Criador do universo e amigo dos homens.

Em vez de uma vida egoísta e materialista, é preciso ajudar as mentes a abrir-se à verdadeira caridade. E ajudar também a abrir os horizontes da esperança.

Para além desta vida e até para além da morte, é preciso ajudar a descobrir e a desejar a vida eterna, vivendo na graça e na amizade de Deus, unindo-nos desde já a Cristo, sentado à direita do Pai, à Igreja do Céu, à Santíssima Virgem e a todos os santos.

4. S. Paulo escreve, na Epístola aos Colossenses, que Jesus Cristo é “a imagem de Deus invisível”. Enquanto homem, Jesus é aquela imagem perfeita que o primeiro homem, segundo o Génesis, devia ter sido, mas que, pelo pecado, não conseguiu ser. Agora, porém, na sua humanidade, unida à sua divindade, Jesus, o Homem novo, mostra-nos Deus de modo perfeito e transparente. O Deus invisível torna-se visível na humanidade de Jesus Cristo.

Por outro lado, Cristo é “o Primogénito de toda a criatura”, no sentido de que está antes de toda a criação. “N'Ele foram criadas todas as coisas”, diz S. Paulo. Tudo foi pensado n'Ele e em função d'Ele.

E Jesus Cristo é também “o Primogénito de entre os mortos”. Foi o primeiro que se levantou vivo de entre os mortos, e não quer guardar para Si esta vitória, mas partilhá-la com todos. “Em tudo Ele tem o primeiro lugar”, conclui S. Paulo. Jesus foi também o primeiro no amor do próximo, e até no amor dos inimigos. Jesus, Filho de Deus, é o Bom Samaritano da humanidade.

Peçamos-Lhe que nos ajude, diante do próximo, a não passar adiante. Peçamos-Lhe que nos ajude a ver, a escutar, a avaliar cada situação, e a fazer o que for preciso: desde tratar as feridas do corpo às feridas da alma e da mente.

Peçamos-Lhe que nos ajude a olhar o outro e a tratá-lo como próximo, já que Ele próprio não excluiu ninguém, e a nada Se poupou, até ao ponto de, na Cruz, derramar o seu Sangue e dar a sua vida por todos os homens.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo