24 de Julho de 2016 - Domingo XVII do Tempo Comum

Com uma confiança simples e filial

1. No Evangelho de hoje, do capítulo 11 de S. Lucas, podemos distinguir três ensinamentos diferentes de Jesus sobre a oração: o primeiro (v. 1-4) recolhe a transmissão de Jesus aos seus discípulos da oração cristã comum, o Pai Nosso; o segundo (v. 5-8), a importância da persistência na oração; e o terceiro (v. 9-13), a eficácia da oração.

Todos conhecemos e usamos uma outra versão do Pai Nosso transmitida pelo Evangelho de S. Mateus (6, 9-13). É uma versão mais longa, e integra-se nos ensinamentos de Jesus durante o Sermão da Montanha. É este texto de S. Mateus que usamos sempre na Liturgia cristã, e em particular na Santa Missa e também no Ofício Divino. É igualmente a versão de S. Mateus que usamos no Terço ou noutras orações privadas.


James Tissot, O «Pater Noster» (1886-1896)

Mas S. Lucas completa o ensinamento de Mateus, indicando que Jesus nos ensinou esta oração cristã insubstituível, o Pai Nosso, um dia, quando um dos discípulos, vendo-O rezar, Lhe pediu: «Ensina-nos a rezar». Este discípulo sabia que João Baptista também tinha ensinado os seus discípulos a rezar. E sentiu a necessidade de uma oração que sintetizasse os ensinamentos de Jesus, e que, ao mesmo tempo, reflectisse e espelhasse o que sente, como pensa e como vive um discípulo de Jesus.

Não é a mesma coisa seguir Jesus ou ser discípulo de João Baptista. Tal como não é a mesma coisa ser cristão ou ser budista, hindu ou muçulmano. E também não é a mesma coisa rezar como cristão, ou como budista, hindu ou muçulmano.

Para alguns, a oração (se é que é oração) é separar-se de tudo o que está fora e entrar dentro de si, e até fazer um profundo vazio dentro de si mesmo. Para nós, pelo contrário, a oração é abrir-nos a um Outro, é escuta e é resposta, é diálogo com o Pai, em Jesus Cristo, seu Filho. O modo como rezamos reflecte o que somos, como vivemos, a quem amamos. A oração reflecte a nossa fé e as grandes opções da nossa vida!

2. Por isso, é compreensível o desejo daquele discípulo, em que todos nos sentimos representados, ao fazer a Jesus este pedido: "«Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos»".

E, em resposta, Jesus deixou-nos uma oração que nos define como seus discípulos, e que acentua as dimensões essenciais da experiência cristã. Vamos agora fixar-nos nos aspectos mais salientados por S. Lucas. Nesta versão mais breve da oração do Senhor, é particularmente acentuada, em primeiro lugar, a paternidade de Deus, a quem cada discípulo de Cristo se pode dirigir com toda a confiança, dizendo simplesmente: «Pai».

No entanto, dizer a Deus: «Pai» não acontece por acaso: só o faz, com toda a verdade, quem está unido a Jesus. Deus revela-se no Evangelho como o Pai de Jesus. Por isso, só na medida em que estamos unidos a Jesus é que também nós podemos dizer: «Pai».

O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica esclarece que "podemos invocar o «Pai», porque Ele nos foi revelado por seu Filho feito homem e porque o seu Espírito no-Lo faz conhecer" (n. 582).

E como o fazemos? Com temor? Com timidez? Não, de modo nenhum, mas "com uma confiança simples e filial, com uma alegre segurança e uma audácia humilde, com a certeza de ser amados e atendidos" (n. 582).

No entanto, quando dizemos «Pai», ao falarmos com Deus, não banalizamos a nossa relação com Deus, mas cresce em nós o amor e a admiração e também o desejo de uma vida digna de filhos que somos. Diz ainda o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: "A invocação do Pai introduz-nos no seu mistério com uma admiração sempre nova, e suscita em nós o desejo dum comportamento filial. Ao rezar a oração do Senhor estamos conscientes de sermos filhos no Filho do eterno Pai" (n. 583).

3. Além deste aspecto essencial, o ensinamento do Pai Nosso, tal como S. Lucas o relata, reforça ainda em nós a consciência de que é a Deus que devemos tudo, em particular aquilo de que mais necessitamos para viver.

O alimento e os outros bens necessários para a vida decorrem do trabalho humano. Mas tudo nos vem das mãos de Deus, e por isso Lhe pedimos: " «dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência»".

É importante nunca perder a humildade de pedir a Deus o pão de cada dia, e também nunca deixar de o agradecer, juntamente com tantos outros bens que recebemos e possuímos, e ao mesmo tempo sentir a responsabilidade de os partilhar com aqueles que os não têm.

Além do pão, é também de Deus que nos vem o perdão, de que todos precisamos, mas que ninguém poderia dar a si mesmo, e por isso pedimos: "«perdoai-nos os nossos pecados»".

E também de Deus vem a graça de permanecermos fiéis na hora da provação e da suprema tentação, que sozinhos nunca seríamos capazes de vencer, e por isso pedimos: "«e não nos deixeis cair em tentação»".

Aqui estão alguns dos pedidos mais importantes e necessários que podemos fazer a Deus. Que eles nunca sejam silenciados por outras preocupações ou ambições. Que haja em nós verdadeira persistência e insistência em fazê-los, que, se for filial, não «incomoda» a Deus, mas Lhe agrada, e será escutada.

Por isso, a oração de súplica é indispensável, e temos de a fazer com sincera humildade e inabalável confiança.

Um exemplo impressionante desta oração persistente e insistente é a oração de Abraão, de que nos falava a 1ª leitura. Abraão queria salvar Sodoma a todo o custo, e por isso pediu, argumentou, insistiu, mas, no final, silenciou os seus argumentos, e deixou tudo nas mãos de Deus.

Iria a cidade ser salva? Só Deus o sabia. Ao crente, restava-lhe esperar e confiar.

Assim deve ser a nossa oração: insistente, perseverante, confiante, mas sem pretender impor nada a Deus. Como diz Jesus no final do Evangelho, confiamos que Deus "dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem". Mesmo Quando parece que Deus não nos dá o que Lhe pedimos, nunca deixará de nos dar o melhor dom, o dom supremo, o Espírito Santo, Que nos identifica com Cristo.

Por isso Lhe entregamos a nossa vida, a vida daqueles a quem mais amamos, e também a grande cidade em que vivemos, e o mundo inteiro, sobre o Qual pesam tantas ameaças.

Que todos conheçam o seu amor, e vivam como seus filhos, aceitando viver, em Jesus Cristo, uma vida nova, de humildade, de confiança, de seguimento e de alegria.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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