31 de Julho de 2016 - Domingo XVIII do Tempo Comum

Outras realidades

1. A primeira leitura de hoje é tirada do livro do Eclesiastes (ou Coelet, segundo a designação hebraica), considerado um dos livros mais difíceis de toda a Escritura. S. Jerónimo escreveu um interessante comentário a este livro bíblico, no ano 389, ainda no início da sua estadia em Belém, onde velo a falecer, em 30 de Setembro de 420. Iremos por isso recorrer a alguns dos seus ensinamentos neste comentário.


Giotto - Cenas da vida de Cristo - Ressurreição (Noli me tangere) (1304-1306)

O Eclesiastes, escrito no séc. III antes de Cristo, tem passagens difíceis, como aquelas em que parece afirmar que tudo o que existe na terra e na vida do homem mais não é do que "vaidade", como se lê no texto de hoje, que inicia o livro: "Vaidade das vaidades - diz Coelet - vaidade das vaidades: tudo é vaidade".

Eclesiastes, (ou Coelet), explica S. Jerónimo, significa aquele que convoca a assembleia sagrada. A esta convocação do Povo de Deus veio a dar-se, no Novo Testamento, o nome de ekklesía, que em português se traduz por Igreja. A palavra Eclesiastes poderia também traduzir-se por «pregador», porque, diz S. Jerónimo, "fala ao povo, e a sua palavra não se dirige a um determinado grupo em especial, mas a todos, em geral".

2. Mas como pode o «pregador», que convoca a «assembleia sagrada», declarar a "vaidade" de todas as coisas? Será que é tudo vão? Literalmente, a palavra vaidade significa "sopro", "vapor". S. Jerónimo diz que se pode traduzir por "vapor de fumo" ou "brisa ténue que se desvanece rapidamente". O que o autor bíblico afirma, portanto, é que tudo é caduco, nada tem valor universal, tudo o que existe no mundo é vento que se dissipa.

S. Jerónimo sente o desafio que esta afirmação representa para a fé na criação de todas as coisas por Deus: "Se todas as coisas que Deus fez eram muito boas (veja-se Génesis 1, 31), de que modo todas são vaidade, e não só vaidade, mas até mesmo vaidade das vaidades?"

E responde deste modo: "Também nós podemos dizer: o céu, a terra, os mares e tudo o que contém o universo é bom em si, mas, comparado com Deus, é nada. Por exemplo, ao ver o modesto brilho de uma lâmpada de azeite, posso encantar-me com a sua luz; mas depois, em plena luz do sol, não capto o seu brilho; igualmente vejo que, com a luz do sol, o fulgor das estrelas se esconde. Do mesmo modo, ao contemplar os elementos e a multiforme variedade das coisas, sem dúvida alguma admiro a beleza das obras da criação; mas, ao considerar que todas passam, que o mundo envelhece e avança para o seu fim, e que só Deus é Aquele que sempre foi, estou obrigado a dizer, não só uma vez, mas duas: «Vaidade das vaidades, tudo é vaidade»".

O que o Autor sagrado deseja, portanto, é convidar os seus leitores a olhar e apreciar os bens deste mundo, não como fins, mas como meios, e a não se prender a eles, como se fossem realidades definitivas. Explica S. Jerónimo, "O homem foi criado como e hóspede do mundo. para que gozasse dele durante o breve tempo da sua vida, e para que (...) olhasse tudo o que possui, como quem se dirige para outras realidades".

Estas "outras realidades" são as do mundo novo que é o reino de Deus. Só nele se realizam as esperanças e os desejos de plenitude e de vida que estão enraizados no espírito e no coração do homem.

3. Na mesma linha que o Eclesiastes, mas vendo muito mais longe do que ele, S. Paulo, na 2ª leitura. e partindo já da fé em Jesus ressuscitado, dizia-nos claramente: "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado, à direita de Deus". Para que a vida tenha valor, é preciso olhar mais longe. para além dela mesma: para Jesus ressuscitado, que, na glória do Pai, é a meta do nosso caminho, o termo último dos nossos trabalhos e dos nossos esforços.

E, porque Jesus, que está vivo, caminha connosco, e nós, com ele, caminhamos para o Pai, precisamos de fazer desde já morrer o que em nós é "terreno", como diz também S. Paulo: "imoralidade, impureza. paixões, maus desejos e avareza, que é uma idolatria". Sim, é necessário que tudo isto morra em nós, é necessário despojamo.nos "do homem velho., e revestirmo-nos do "homem novo". É esta a grande mudança que se impõe, para que a nossa vida na terra não seja ilusão ou "vaidade", mas desde já caminho de felicidade, em direcção à plena felicidade do Céu.

"Por sua vez, no Evangelho, o próprio Jesus, nosso Senhor, adverte claramente os seus ouvintes que "a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens»". Esta abundância pode até ser um grande perigo. Por isso, Jesus começa por dizer: "«Guardai-vos da avareza»", isto é, da ambição grande perigo. Por isso, Jesus começa por dizer: "«Guardai-vos da avareza»", isto é, da ambição desordenada, individualista e egoísta.

4. É francamente perigoso ter muitos bens, e eliminar do horizonte Deus e os outros. Corre-se o risco de um dia ouvir dizer: "«Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma a Deus. O que preparaste, para quem será?»"

O Eclesiastes afligia-se com a ideia de que uma pessoa trabalhasse a vida inteira e deixasse a outros o fruto do seu trabalho. Mas Jesus ultrapassa esta questão e coloca outra muito mais importante: «Que valor tem a vida?»

E a sua resposta é esta: o valor da vida não consiste em ter muitas coisas, ou gozar a vida intensamente, mas em "«tornar-se rico aos olhos de Deus»". E "«tornar-se rico aos olhos de Deus»" significa simplesmente reconhecer Deus, amá-Lo, servi-Lo, honrá-Lo, adorá-Lo, e também repartir com quem tem necessidade, partilhar com os outros, tanto os bens materiais, como, e ainda mais, os bens espirituais. É esta a riqueza que não se perde nunca, não se desvaloriza nunca, e que um dia se reencontrará em Deus, como esperamos, pela sua misericórdia, infinitamente valorizada.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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