7 de Agosto de 2016 - Domingo XIX do Tempo Comum

À espera do Senhor

1. No Evangelho de hoje, Jesus faz-nos dois pedidos, que gostaria de destacar. Vou recordá-los: Primeiro: "Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas'.

Como toda a gente usava túnicas longas, era preciso apertá-las à cintura, para não tropeçar e poder caminhar. É o que Jesus espera de nós: é preciso sentir que somos peregrinos, como Abraão, somos caminhantes, não podemos parar nem tropeçar no caminho!


De Abraão fala-nos hoje a 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus, que o apresenta como um exemplo de obediência a Deus e de fé. Chamado por Deus, Abraão torna-se caminhante: "Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento, e partiu para uma terra que viria a receber como herança. E partiu sem saber para onde ia".

Todos nós nos deveríamos perguntar se é assim que vivemos. A nossa vida é uma caminhada para Deus? Sentimos o desejo de avançar sempre, com a ajuda do Espírito Santo, na caminhada da fé? Os anos passam, e nós crescemos na união com Deus, na oração, na caridade?

Além dos "rins cingidos", Jesus conta também que os seus discípulos tenham "as lâmpadas acesas". Deste modo, a chama da sua fé e do seu amor vencerá a escuridão. Assim devem ser todos os cristãos. Aonde chegam, levam a luz suave mas intensa da sua confiança humana e da sua fé em Deus; do seu optimismo e da sua esperança; da sua amizade e da sua caridade sincera.

"Com as lâmpadas acesas", ajudaremos muitas outras pessoas a vencer as suas dúvidas, e a descobrir o valor desta vida, envolvida pela infinita misericórdia de Deus. E cada um de nós, com toda a naturalidade, poderá ser uma luz no mundo.

2. Segundo pedido de Jesus: "Sede como homens que esperam o seu Senhor". Esperamos o Senhor? Desejamos a sua vinda, pedimos que venha ao nosso mundo para nos ajudar a viver e a ser mais felizes?

A 1ª leitura, do livro da Sabedoria, falava-nos dos israelitas, que estavam reunidos em segredo, para celebrar pela primeira vez a Ceia Pascal, na noite em que saíram do Egipto.

À sua volta, o mundo estava num grande alheamento à acção de Deus em favor do seu povo, que em breve se iria realizar. Já tinha havido outros grandes e terríveis sinais, as chamadas «pragas do Egipto», mas o coração do Faraó tinha continuado duro e fechado. Mas, naquela noite, morreram os primogénitos do Egipto, e foi esse trágico acontecimento que permitiu o início do Êxodo e o começo da libertação.

Hoje, tudo é diferente: quando celebramos a Eucaristia, a Santa Missa, não nos reunimos secretamente, mas de portas abertas, e no entanto também sentimos que, à nossa volta, muita gente não avalia o que está a acontecer.

Muitos vivem alheados ao acontecimento mais importante de toda a história, a vida de Jesus e a sua morte na cruz, que iniciou a verdadeira libertação. Gostaríamos de despertar essas pessoas, e ajudá-las a esperar, como nós, a vinda de Jesus, Que nos liberta da escravidão de uma vida fechada em si mesma.

Às vezes, vive-se como se tudo se esgotasse aqui, no dinheiro, no gozo, no poder. Alguns são como aquele servo de que fala o Evangelho, que desistiu de esperar, e "começou a comer, a beber, a embriagar-se". Perdeu completamente o sentido da vida.

3. É um perigo real que ameaça os seres humanos, e por isso pedimos a Jesus a graça de nunca perder o sentido da vida e nunca desistir de O esperar e de O encontrar, mesmo nas realidades mais comuns e vulgares, nuns dias de férias ou no trabalho intenso, num encontro com amigos ou no recolhimento da oração, num tempo de alegria ou numa hora de preocupação.

De um modo especial, esperamos Jesus na Santíssima Eucaristia. Aqui, podemos recebê-Lo, pelo menos em desejo e, se não houver impedimento, também na comunhão sacramental do seu Corpo e Sangue. E podemos adorá-Lo, presente no Sacrário. ou solenemente exposto no altar.

Também esperamos Jesus em tantos convites à conversão, luzes, graças, boas inspirações, chamamentos que nos faz, missões que nos confia.

E esperamo-Lo na sua vinda definitiva, cheia de glória, no fim dos tempos. O tempo deste mundo não é um círculo fechado, está aberto à vinda incessante de Jesus. E um dia, só Deus sabe quando, Jesus Cristo virá na glória sublime da sua condição divina, para julgar e avaliar definitivamente todas as acções do homem, todas as coisas que algum dia aconteceram, todos os factos da história.

Na expectativa desse dia. que é antecipado para cada um de nós na hora da nossa morte, procuramos purificar todas as nossas acções, pôr em tudo mais amor, mais verdade. Por isso nos confessamos com frequência, para viver sempre na graça e na amizade de Deus.

4. É preciso descobrir Jesus presente, e desejar encontrá-lo sempre mais intensamente. A todos os que viverem animados por esse olhar sereno, feito de esperança e fé, Jesus dirige uma nova bem-aventurança do seu Evangelho: "Felizes esses servos que o Senhor, ao chegar, encontrar vigilantes".

Felizes já hoje, porque vivem todas as coisas em Jesus e por amor a Jesus. Mesmo as mais intensas alegrias. Mesmo os trabalhos mais intensos, mesmo as provas mais duras, como a do martírio, mesmo as maiores renúncias e os maiores sacrifícios.

E felizes depois desta vida, para sempre, porque o próprio Senhor "mandará quese sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá", isto é, será o alimento inesgotável que sempre desejaram, a luz que os seus olhos sempre procuraram.

O coração inquieto terá paz, e o caminhante incansável terá descanso. Mas, por enquanto, e enquanto Deus quiser, é tempo de caminhar, é a hora da vigilância e da conversão, para que um dia chegue para todos, no tempo de Deus, o tempo definitivo da comunhão, da alegria e do louvor, para sempre, na glória do seu Reino.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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