28 de Agosto de 2016 - Domingo XXII do Tempo Comum

Outras pobrezas

1. O Evangelho de hoje, que nos fala de um banquete em que Jesus participou, leva-nos a dar graças a Deus, por termos sido convidados a tomar parte neste banquete tão especial que é a Eucaristia, a Santa Missa.

Aqui nos é servido o Pão da Palavra de Deus e depois o próprio Corpo e Sangue de Cristo, na Comunhão sacramental.


É uma enorme graça termos recebido este convite, termos querido aceitá-lo. Já depois das leituras da Palavra de Deus, respondemos: «Deo gratias», Graças a Deus. E a seguir ao Evangelho respondemos: «Laus tibi Christi», que em português se traduziu, (talvez menos bem), por Glória a Vós, Senhor.

Mas o nosso agradecimento ainda será maior pela comunhão que recebemos, alimento espiritual para esta vida e penhor de vida eterna.

Quando fiz a Primeira Comunhão, e nos anos seguintes, o sacerdote dizia aos comungantes: "O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna". Hoje diz-se apenas: "o Corpo de Cristo", mas este alimento sagrado tem o mesmo fim: unir-nos a Jesus hoje, para um dia O podermos contemplar na glória eterna.

Sempre que O recebemos em estado de graça, Jesus une-nos ao seu sacrifício, à sua «auto­doação», e transforma-nos segundo a sua imagem, imprime em nós os seus critérios, dá-nos os seus sentimentos.

E mesmo que alguém, num determinado momento ou até habitualmente não possa comungar, nem por isso está privado de participar na grande Acção eucarística, que acontece no Altar, nem de ver as humildes espécies sacramentais do pão e do vinho, na Hóstia e no Cálice, em que se torna presente, por nosso amor, o próprio Jesus vivo.

Mas Jesus, no Evangelho de hoje, quer também fazer-nos pensar, além da mesa sagrada, também na mesa comum, e manda-nos convidar para a nossa mesa "os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos".

Aqui está um preceito do Senhor que possivelmente nunca cumprimos, ou só muito raramente. Essa omissão envergonha-nos e pedimos perdão a Jesus.

Mas talvez, pelo menos, procuremos ajudar a matar a fome a pessoas necessitadas, por intermédio de instituições ou serviços, como a Mesa de Nossa Senhora, que, na nossa Paróquia, há já quase 21 anos, serve um almoço a algumas dezenas de pessoas, todos os dias. O seu trabalho é muito discreto, depende essencialmente de um grupo de voluntários, (na maioria voluntárias), que são incansáveis, mas o serviço precisa de meios, precisa de ajudas em dinheiro, regulares ou ocasionais, e que são sempre bem-vindas, qualquer que seja o seu montante.

Os que têm fome, porém, não são os únicos pobres, nem os doentes ou as pessoas deficientes são as únicas a precisar da nossa ajuda.

Há outra pobreza, em sentido cultural, que é o produto da pseudo-cultura que nos domina.

Esta pobreza é a ignorância dos que nunca aprenderam a rezar, nem sequer o Pai Nosso, dos que não querem saber de religião para nada, dos que só conhecem a Igreja por ser contra o aborto, etc., etc. Mas, ainda pior do que isto, ainda pior do que a ignorância religiosa, é o não querer saber mesmo, o não querer pensar, o não querer procurar o sentido, o não querer saber absolutamente nada da verdade.

Este diagnóstico fê-lo, em tempos, o Papa Bento XVI, ao falar de Santo Agostinho, que celebramos neste dia 28 de Agosto. Actualmente, disse o anterior Papa, "há uma espécie de medo do silêncio, do recolhimento, do pensar as próprias acções, do sentido profundo da própria vida; frequentemente prefere-se viver o momento fugaz, iludindo-se com a ideia de que traz felicidade duradoura, prefere-se viver assim pois parece mais fácil, com superficialidade, sem pensar; há medo de buscar a Verdade ou talvez haja medo de que a Verdade seja encontrada, que agarre e mude a vida, como aconteceu com Santo Agostinho".

Aos que estejam a viver assim, "como se Deus não existisse", o Papa pediu "que não tenham medo da Verdade, não interrompam o caminho para ela, não deixem de buscar a verdade profunda sobre si e sobre as coisas, com os olhos Interiores do coração. Deus não falhará em oferecer a Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir, ao coração que ama e que deseja ser amado".

E nós, uma vez mais, temos de ser instrumentos, pelo menos temos de saber mostrar o caminho, Temos de ser amigos de todos, na esperança de os tornar amigos de Jesus. Também dos que parecem muito distantes, para que um dia possam experimentar como nós a alegria da mesma fé e da mesma comunhão, neste banquete sagrado da terra e no banquete eterno do Céu.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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