25 de Setembro de 2016 - Domingo XXVI do Tempo Comum

O homem rico e o pobre Lázaro

Dois domingos atrás, nós ouvimos o Senhor contar aos discípulos parábolas que retratavam a misericórdia divina: na moeda perdida, na ovelha desgarrada e no filho pródigo todos narrados no capítulo 15 do Evangelho de São Lucas - estava representado o ser humano, que se tinha extraviado após a queda e que Deus mesmo viera resgatar atravessando os céus e se fazendo homem. Hoje, com a parábola do pobre Lázaro e do homem rico, Cristo apela à compaixão humana, como se dissesse: "Sede misericordiosos como o vosso Pai o é" (Lc 6, 36) - frase escolhida como lema para este Ano da Misericórdia que celebramos.


Já era possfvel vislumbrar essa ligação, na verdade, entre a misericórdia de Deus e a dos homens, ainda no Evangelho de semana passada, quando o Senhor exortava: "Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas" (Lc 16, 9). S. Gregório Magno, de facto, comentando esse versículo, indicava que "os homens, para encontrarem após a morte alguma coisa em suas mãos, devem pôr antes da morte as suas riquezas nas mãos dos pobres" (Catena Aurea in Lucam, XVI, 2).

Essa lição do Papa Gregório condensa, na verdade, toda a parábola que nos é narrada no dia de hoje. Enquanto o rico anónimo recebeu todos os seus bens durante a vida, o pobre Lázaro só suportou males; aquele se vestia com roupas finas e era rodeado de fartos banquetes, ao passo que este trazia as feridas como roupas e as migalhas como alimento. No fim de seus dias, os destinos dessas duas personagens se inverteram por completo: Lázaro, cuja miséria nem sequer uma alma humana tinha ousado acudir, carregado pelos próprios anjos de Deus foi para junto de Abraão; o rico, porém, só se conta que foi enterrado e, logo depois, o Autor Sagrado já o descreve no meio dos tormentos do Inferno.

Duas realidades, portanto, se oferecem à nossa meditação: a vida terrena, ante mortem, e a vida eterna, post mortem.

Na primeira, diz S. Gregório Magno, é preciso que ponhamos nossas riquezas nas mãos dos pobres. Ninguém se assuste com essa afirmação porque, à parte o que pregam as ideologias materialistas de nosso tempo, o dever de dar esmolas é uma constante na doutrina moral da Igreja (cf. Rerum Novarum, 12), nas Escrituras (cf. Dt 15,11; Tb 4,7; Mt 25. 4; lJo 3, 17-18) e no próprio direito natural (cf. Royo Marín, Teología moral de los seglares, 526-529). Ao mesmo tempo. porém, acudir às necessidades dos outros nem sempre se resume a uma assistência meramente material. Uma glosa antiga ao Evangelho de São lucas diz que "de dois modos é possível carregarmos a cruz de Cristo: ou quando pela abstinência se aflige a carne, ou quando pela compaixão ao próximo se aflige nosso espírito". Ter compaixão quer dizer, literalmente, "sofrer com o outro", e o dinheiro é apenas parte periférica desse preceito.

Depois desta vida, enfim, dois lugares estão reservados aos homens: o Céu aos Justos e o inferno aos maus, tertium non datur (não há uma terceira hipótese) O purgatório trata-se de uma realidade transitória, uma purificação por que passam as pessoas que foram salvas sem, no entanto, terem atingido a perfeição de vida. Céu e inferno, além disso, são moradas definitivas: embora o Senhor tenha posto na boca do rico condenado uma espécie de "súplica arrependida", não há arrependimento nenhum para os réprobos. Após a morte, a decisão que eles tomaram de apartar-se de Deus é, como a dos anjos rebeldes, irrevogável. O "grande abismo" de que fala Abraão na parábola nada mais é, portanto, que a rejeição consciente e deliberada do Criador, que acontece já nesta vida com o drama do pecado mortal. Por isso, o inferno realmente existe, mas como invenção angélica, não criação divina: o Senhor não nos criou, afinal, para sermos condenados à infelicidade eterna; fez-nos livres para que pudéssemos ou aceitar ou negar o seu amor, cabendo a nós, portanto, pronunciar-lhe a última palavra.

Meditar sobre essas realidades escatológicas é o grande segredo para nos livrarmos do pecado da avareza e do apego aos bens deste mundo, causas por que foi condenado o rico da parábola de hoje. Tendo sempre diante dos olhos que. como diz o Apóstolo, "a figura deste mundo passa" (1 Cor 7, 31), mais fácil nos será abrir as mãos para socorrermos e aliviarmos as misérias de nossos semelhantes e recebermos, por fim, uma recompensa na eternidade.

Pe. Paulo Ricardo

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