6 de Novembro de 2016 - Domingo XXXII do Tempo Comum

A esperança na vida futura

"Estamos prontos para morrer". Foi isto que disserem sete jovens - sete irmãos - apoiados pela sua própria mãe. Eram membros do povo de Deus que viviam no Egipto, no séc. II a. C., e foram tentados a desobedecer frontalmente a uma lei do seu povo. Nem sequer era uma lei divina, era apenas uma lei humana: não comer carne de porco. Por isso, até podiam ter cedido, porque as leis -positivas- não obrigam, quando há um grave incómodo. Mas não puseram a hipótese de desobedecer, e disseram: "«Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei dos nossos pais»". E os sete foram mortos com grande violência e crueldade, como nos descreve, num estilo comovedor e empolgante, o capítulo VII do 2º Livro dos Macabeus, que seria muito bom todos lerem. Os 7 Irmãos Macabeus, juntamente com a mãe, são venerados como mártires na Igreja Católica, tendo-lhes sido dedicadas várias igrejas, tanto no oriente como no ocidente.


Julius Schnorr von Carolsfeld, O martírio dos sete irmãos (1826)

Mas será que não poderiam mesmo ter cedido àquela ordem que lhes foi dada? Que importância é que tinha comerem ou não carne de porco? Objectivamente, isso tinha pouca importância, mas o que estava em jogo era uma lei muito superior, era o dever de não renegar a fé. E para não renegar a fé, temos que estar dispostos a ir até onde for preciso, até mesmo ao sacrifício da própria vida.

Neste caso concreto, a imposição do rei egípcio visava a destruição da religião verdadeira. Os sete irmãos não podiam ceder de maneira nenhuma. Antes morrer, do que atraiçoar a fé. Foi esta a sua decisão, e tomaram-na com perfeita consciência e lucidez. Mas vemos que nesta decisão, embora lhes traga um grande sofrimento, não há nenhum desespero, porque no seu coração havia uma enorme esperança: "«Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que ele nos ressuscitará. Mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida»".

Estes sete jovens e a sua mãe acreditam profundamente no poder de Deus, que não permite que o nosso -eu- se extinga e mergulhe no nada. A fé diz-nos que aquele que morre na amizade de Deus é chamado, depois da necessária purificação, a estar com Deus, a contemplar a sua glória.

E um dia - no "último dia" (João 6, 39-40) - "Deus, na sua omnipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas pela virtude da ressurreição de Jesus" (Catecismo da Igreja Católica, n. 997).

É esta a nossa profunda esperança, é esta a fé segura e firme dos que crêem em Jesus ressuscitado. E, por seu amor, por lealdade para com Jesus, procuramos também não ceder, mesmo em coisas que parece que não têm importância nenhuma, ou que muita gente acha normal. Quando um empresário recusa um negócio ilícito ou menos honesto, fá-lo antes de mais por respeito para com a Lei de Deus, por amor à verdade, que é o próprio Jesus. Quando os namorados ou noivos cristãos assumem conscientemente o compromisso de viver a castidade, é porque esperam com grande delicadeza e respeito esse dia em que se vão receber um ao outro das mãos de Deus. Sabem que não se pertencem ainda. É Jesus que os dará um ao outro. Esta opção de vida não é banal, é uma decisão muito importante! E quando participamos na Missa ao domingo, ou quando alguns deixam de o fazer, o que está em jogo é tão importante como isto: celebrar ou não a ressurreição de Jesus, e com ela o sentido desta vida e a esperança da vida eterna!

Com os sete irmãos e sua mãe, renovamos hoje o nosso desejo de plena fidelidade aos nossos compromissos cristãos. Mas o fundamento da nossa fidelidade não é apenas a nossa boa vontade, é a própria fidelidade de Deus. Como nos ensina Jesus no Evangelho, o Deus em quem acreditamos "não é um Deus de mortos, mas de vivos". Jesus refere-Se expressamente aos nomes de Abraão, Isaac e Jacob, para ensinar que, embora estes Patriarcas tenham morrido, permanece uma relação pessoal entre Deus e eles, pois vivem em Deus. Podemos concluir com verdade que as suas almas são imortais, e que eles hão-de ressuscitar com o seu corpo.

No Evangelho de hoje, Jesus ensina-nos ainda que na vida futura não existirá o matrimónio, que é tão importante e tão belo na vida presente. Mas, na vida eterna, o ser humano viverá o dom total de si mesmo e uma perfeita comunhão com os outros, graças à sua plena união com Deus, sem a união exclusiva a uma outra pessoa, e sem a geração de novos seres, que já não é necessária: «Já não podem morrer, pois são como os Anjos...".

Por isso é que a condição daquelas pessoas - sacerdotes, religiosos e muitos outros - que, por amor do Reino dos Céus, não se casam, não tem apenas uma utilidade «funcional», que leva a estar plenamente disponível para o trabalho do Reino. Essa situação de vida, à semelhança do próprio Jesus, é também um testemunho fortemente expressivo do que será a vida futura para além da morte. É como que uma antecipação daquilo de que nos tornaremos participantes na vida futura (cf. S. JOÃO PAULO II, Audiência Geral de 10.03.82).

Estas duas vocações na Igreja admiram­se e respeitam-se mutuamente. Que Jesus abençoe sempre mais as pessoas casadas e as suas famílias e os jovens que se preparam para o matrimónio, e também confirme o carisma, a graça particular que concedeu aos que vivem em celibato apostólico ou em virgindade consagrada.

Que as famílias sejam uma escola luminosa onde os mais novos se preparam para viver um dia a aliança de amor no matrimónio ou a entrega plena ao serviço de Deus e da Igreja, se Jesus os escolher e chamar por esse caminho. E que todos sejamos fiéis na alegria e na esperança, para que, como dizia S. Paulo na 2ª leitura, amemos a Deus e aguardemos a Cristo com perseverança.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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