4 de Dezembro de 2016 - Domingo II do Advento

Para que tenhamos esperança

Quando conseguimos perceber o que significa a santidade de Deus, captamos ainda mais claramente a gravidade dos pecados dos homens. O profeta Isaías compreendia bem o que significa dizer que Deus é Santo. Isaías tinha apreendido a santidade de Deus, na visão que teve no Templo de Jerusalém (6, 1-8). E por isso sofria com as injustiças, com as violências, com as arrogâncias e com as impiedades do seu povo.


Mas a fé levava Isaías a alimentar uma grande esperança. Na 1ª leitura de hoje, Isaías lança o seu olhar para o futuro, e anuncia o que um dia irá acontecer: "sairá um ramo do tronco de Jessé, e um rebento brotará das suas raízes" (11, 1). Jessé foi o pai do rei David, de quem descendiam todos os reis de Judá. Mas quase todos foram reis muito imperfeitos e muito pecadores.

Isaías, no entanto, olha para o futuro com esperança, e vê surgir, num tempo talvez ainda distante, um novo ramo, um novo "rebento" do tronco de Jessé, isto é, um novo Rei, um Rei fiel, que voltaria às raízes da Aliança com Deus.

Sobre Ele repousaria "o espirito do Senhor" (11, 2), isto é, o «sopro» de Deus que dá a vida, (em hebraico ruah). O Espírito de Deus em nós é fonte de sabedoria e de inteligência, de conselho e de fortaleza, de conhecimento, de piedade e de temor de Deus. São os sete dons do Espírito Santo, como os leu mais tarde a tradição cristã.

Por isso, o novo Rei, o Rei messiânico, seria justo para com todos, especialmente os mais pobres e humildes. Mas com a sua palavra forte denunciaria o violento, e com "o sopro dos seus lábios" atingiria o ímpio.

Nós, cristãos, vemos neste retrato profético o retrato de Jesus, que um dia veio ao mundo, e que um dia virá de novo para julgar com justiça. O descendente de David que voltará à verdade da Aliança, o Rei messiânico visto ao longe por Isaías, é Jesus Cristo.

E nós, que somos seus discípulos, sentimos que o nosso mundo, embora muito desenvolvido em tantos aspectos, continua muito injusto e por vezes cheio de iniquidades.

Mas que podemos fazer? Tudo o que depender de nós, devemos fazê-lo. Mesmo que não possamos mudar o mundo, pelo menos está ao nosso alcance ajudar na superação de algumas injustiças. Cada um veja o que pode fazer: pela partilha, pela solidariedade, pela "fantasia da caridade", como escreveu o Papa S. João Paulo II (Carta Apostólica Novo Millenio ineunte, n. 50).

Não podemos perder a esperança de tornar o mundo um pouco mais parecido com o paraíso pensado por Deus. É este o sentido das famosas imagens de Isaías, que começam por estas palavras: "O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos, e um menino os poderá conduzir..." (11,5-8).

Tudo isto pode parecer uma utopia, e ainda mais utópicas podem parecer as palavras que vêm depois, postas na boca de Deus: "Não mais praticarão o mal nem a destruição no meu santo monte" (11, 9). Como assim, deixará de haver mal?

Mas estas palavras não são utópicas, porque se baseiam nas seguintes: "O conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o fundo do mar" (11,9).

Muitas ideologias têm querido melhorar o mundo esquecendo Deus ou negando-O. Mas nada de bom veio delas para o homem. Um mundo justo sem Deus, é utópico, nunca se atingirá.

Pelo contrário, quando se conhece Deus, dá-se um fundamento à esperança, e voltamos a ver, no horizonte, um futuro mais justo.

S. Paulo, na 2ª leitura, também acredita que tudo o que está na Sagrada Escritura, foi escrito para que "tenhamos esperança" (Romanos 15, 4).

E temos esperança de que os que ainda não conhecem Deus, O venham a conhecer e a amar. S. Paulo teve por toda a parte essa experiência, e por isso pode dizer com serena alegria: "Os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia" (15, 9).

Mas também nós temos que fazer esse desafio a muitos. O Evangelho diz-nos que João Baptista começou a pregar no deserto, e exortava: "«Arrependei-vos, porque está perto o Reino dos Céus»" (Mateus 3,1).

Os cristãos leigos não têm a missão de pregar, mas não deve haver ninguém que não tenha uma pessoa amiga a quem possa dizer: Se calhar está na altura de começares a ser cristão a sério... Aproveita agora o Natal para pensares na vida e pensares em Deus...

Ao longo dos tempos, houve muitos «gentios» ou «pagãos» que se tornaram cristãos, e também há muitos cristãos que vivem como pagãos, e precisam de voltar a viver como cristãos! Quem os vai desafiar, quem os vai retirar da sua falsa segurança?

Temos o dever de lhes transmitir "o conhecimento do Senhor", como diz Isaías, ou seja, o conhecimento de Jesus, o Salvador desejado. Que não fiquemos mudos, mas saibamos falar com clareza, como João Baptista. Deste modo, todos, eles e nós, daremos glória a Deus, e ajudaremos, quase sem esforço, a que o mundo se torne melhor.

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