1 de Janeiro de 2017 - Santa Maria, Mãe de Deus

Honrar a Mãe do Verbo feito home

No primeiro dia de Janeiro, em que um novo ano começa, a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Mas o primeiro dia de Janeiro, dia de Ano Novo, ocorre oito dias depois do Natal, e por isso é um dia muito apropriado para celebrar esta festa, porque foi no dia de Natal, quando Jesus nasceu, que Maria se tornou verdadeira e plenamente Mãe de Deus.


O Evangelho de hoje convida-nos a ir de novo, com pressa e emoção, ao presépio de Belém, onde encontramos "Maria, José e o Menino, deitado na manjedoura". E enquanto nos ajoelhamos diante do Menino, olhamos com admiração a Virgem Santa Maria, sua Mãe, pela qual merecemos receber o Autor da vida.

E celebramos Maria com um título surpreendente e admirável: "Mãe de Deus". Este é o título mais antigo e mais importante atribuído a Maria, Nossa Senhora. E é também o título mais ecuménico, que todas as confissões cristãs podem formular, porque foi expresso antes das grandes divisões que ainda hoje, infelizmente, separam os cristãos. É verdade que no Novo Testamento não encontramos explicitamente o título "Mãe de Deus". A Virgem Maria é chamada correntemente nos Evangelhos: "mãe de Jesus", "mãe do Senhor", ou simplesmente "a mãe" e "sua mãe".

Mas o Novo Testamento anuncia em todas as suas páginas, veladamente umas vezes, e com todo o esplendor outras vezes, a divindade de Jesus Cristo, Filho de Deus. Basta pensar na exclamação de S. Tomé: "Meu Senhor e meu Deus" (Jo 20, 28). E os cristãos, desde os primeiros tempos, foram meditando e aprofundando esta verdade. Logo no início do séc. II, Santo Inácio de Antioquia, escreveu numa das suas cartas, quando ia a caminho do martírio, em Roma, onde morreu no ano 110: "O nosso Deus, Jesus Cristo, da descendência de David, foi, segundo o desígnio de Deus, concebido no seio de Maria, pelo Espírito Santo" (Carta aos Efésios, 18,2). E afirmações semelhantes fazem Santo Ireneu, bispo de Lyon, que morreu no ano 200; S. Justino, que foi mártir em Roma, no ano 165, e muitos outros.

Até que chegou o dia em que a Igreja proclamou que Jesus Cristo é "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, (...), consubstancial ao Pai", Esta proclamação foi feita no Concílio de Niceia, em 325, o primeiro dos Concílios ecuménicos da Igreja. Esta tinha sido, desde sempre, a fé dos cristãos, mas foi preciso defendê-la contra alguns erros ou heresias que tinham surgido, sobretudo a de Ario, e formulá-la com palavras humanas para que não pudesse ser de modo nenhum esvaziada ou negada.

Alguns anos depois, em 381, reuniu-se em Constantinopla um novo Concílio ecuménico, que se propunha sobretudo aprofundar a doutrina relativa ao Espírito Santo, mas não quis deixar de recitar solenemente o Credo de Niceia, professando a sua fé no "Filho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai". Sobre o modo como o Filho de Deus veio ao mundo, ensina este Concílio: "E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria". É este o grande mistério da Encarnação: Maria concebeu, por obra do Espírito Santo, o Filho único de Deus. E é por ter gerado e trazido a este mundo o Filho de Deus feito homem, que a Virgem Santa Maria pode e deve ser chamada "Mãe de Deus., como fará, no século seguinte, o III Concílio ecuménico, reunido em Éfeso, em 431. Para corrigir alguns erros, este Concílio sentiu a necessidade de ensinar que em Jesus, Filho de Deus feito homem, não há duas pessoas, mas uma única pessoa, a pessoa do Verbo, que se uniu, no seio de Maria, a um corpo animado por uma alma espiritual, e assim Se fez homem.

Por tudo isto, Maria é verdadeiramente a Mãe da única pessoa do Filho de Deus feito homem. Grandes mestres e pastores da Igreja, como Santo Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nissa, S. Gregório de Nazianzo, tinham já usado o título de "Mãe de Deus" para se referir a Nossa Senhora. Este último escreve o seguinte: "Se alguém não crê que Santa Maria é a Mãe de Deus, está fora da divindade". E o Concílio de Éfeso pode então serenamente confirmar esta profunda convicção de fé, dizendo: "Assim, [os santos Padres] não hesitaram em chamar Mãe de Deus à Santa Virgem Maria, porque foi dela, de quem recebeu o sagrado corpo dotado de uma alma racional, que o Verbo nasceu segundo a carne".

É bonito verificar que a proclamação do Concílio de Éfeso provocou uma explosão de veneração a Maria, que nunca mais se extinguiu, ao longo dos séculos, tanto no Oriente como no Ocidente, e que se traduziu em festas litúrgicas, ícones, hinos, e na construção de numerosas igrejas que lhe foram dedicadas, entre as quais a Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.

E como é que Santa Maria, Nossa Senhora, correspondeu pessoalmente a este graça única e absolutamente singular que recebeu? Correspondeu com a sua fé humilde e forte. Maria não foi Mãe de Deus apenas fisicamente, mas foi-o antes de mais no coração, como escreveu Santo Agostinho: "Maria concebeu Cristo pela fé no seu coração, antes de O conceber fisicamente no seu corpo".

A maternidade física ou real de Maria é o maior dos seus privilégios, e em si mesma é absolutamente incomunicável. Neste papel de Mãe, em sentido estrito, não a podemos imitar, mas podemos imitá-la neste acolhimento interior do Verbo de Deus, isto é, na sua fé.

Hoje, oito dias depois do Natal, adoramos o Menino, que é Deus feito homem, e honramos sua Mãe, a Santa Mãe de Deus. E pedimos que o Novo Ano seja um ano de fé : fé vivida, celebrada e testemunhada. Sim, peço a Deus que o novo Ano que hoje começa seja um ano de fé, e nos torne mais semelhantes à Santa Mãe de Deus no modo como vivemos e crescemos na fé, num assentimento incondicional ao projecto de Deus que passa por cada um de nós, e no profundo desejo de o realizarmos, individualmente e em Igreja, em todos os momentos e circunstâncias da nossa vida.

Com sinceros votos de Feliz Ano Novo!
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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